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Retrato atual: a prática de arquitetura e urbanismo no Brasil

Encomendada pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) e realizada no segundo trimestre de 2019, uma nova pesquisa traçou o perfil de profissionais e empresas que atuam na área, além de repassar a atuação do conselho que os representa no âmbito nacional e estadual, apontados os pontos fortes e aqueles que merecem ser incrementados. Trata-se de uma oportunidade valiosa para refletir sobre os caminhos da arquitetura e do urbanismo no país, com base em dados e números exatos. Confira os resultados

Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, por demanda do CAU/ BR, revelou - com nuances e riqueza de detalhes - a percepção de profissionais e empresas em relação ao mercado de trabalho. Também permitiu conhecer suas expectativas quanto ao Conselho e verificar a importância que atribuem ao desenvolvimento de seu ofício para a construção de uma sociedade melhor, além de muitos outros temas.

Contratada por concorrência, a Pesquisa de Avaliação do CAU consultou 1 500 arquitetos e urbanistas e 500 empresas de arquitetura e urbanismo, entrevistados por telefone em abril e maio de 2019. A amostra foi composta de acordo com a distribuição geográfica da base total de registros junto ao Conselho. As constatações refinaram os resultados obtidos em 2015, no primeiro grande diagnóstico do setor junto à sociedade brasileira.

Entre os principais dados obtidos à época, apurou-se um número impactante: 85% da população que já fez obras de reforma ou construção não utilizaram a assistência técnica de profissionais legalmente habilitados - aspecto há muito constatado pelos arquitetos e urbanistas no Brasil e que passou a nortear, em certa medida, a atuação do CAU/ BR a partir de então.

Desta vez, chamaram a atenção outros aspectos: a avaliação positiva do CAU na maioria dos quesitos e a necessidade de reforçar a fiscalização da atividade, além de ampliar a divulgação dos serviços de arquitetura e urbanismo para toda a sociedade.

Percepção sobre o CAU

Para a autarquia que existe desde 2011 e criou o SICCAU (Sistema de Informação e Comunicação do CAU), a Tabela de Honorários, o Código de Ética, a Resolução sobre Direitos Autorais, a Resolução sobre Atividades Privativas de Arquitetos e Urbanistas, o Site Ache um Arquiteto, além de desenvolver campanhas nacionais de valorização profissional e lutar constantemente no Congresso Nacional pelo planejamento correto de nossas cidades, entre outras ações, o saldo geral é positivo.

A aferição mais recente confirmou que as funções institucionais do CAU/ BR e dos CAU/ UF são bastante reconhecidas entre arquitetos e urbanistas. Cerca de 81% conhecem e se sentem informados sobre a Lei 12.378/2010, que regula o exercício de arquitetura e urbanismo no Brasil e criou o CAU, contra apenas 19% que dizem desconhecê-la ou sentem-se pouco informados sobre ela.

Os profissionais também entendem as diferenças de funções do CAU/ BR e dos CAU/ UF: 74% sabem que ao CAU/  BR cabe editar normas referentes ao exercício profissional e 73% sabem que é função dos CAU/ UF fiscalizar as atividades relacionadas à profissão. De um modo geral, 70% dos profissionais acreditam que o CAU cumpre sua missão “em parte”, e 25% acham que “cumpre totalmente”. Apenas 4% acha que o CAU não cumpre nada da sua missão e 2% não sabem.


Qualidade dos serviços

A divulgação e promoção do ofício é tema prioritário na opinião dos entrevistados. Diversas ações objetivando a valorização da arquitetura e do urbanismo no Brasil, por meio de campanhas publicitárias e eventos de alcance nacional, foram realizadas e percebidas como bem sucedidas (veja o gráfico na próxima página), resposta satisfatória a uma demanda bastante enfatizada: para 42% das empresas e 34% dos profissionais, a promoção de campanhas publicitárias é a principal ação que o CAU deve tomar para auxiliar os arquitetos a conquistarem novos clientes.

Destaque para as campanhas publicitárias em homenagem ao Dia do Arquiteto e Urbanista (15 de dezembro), feitas anualmente desde 2013 pelo CAU/ BR e pelos CAU/ UF, bem avaliadas por 71% dos arquitetos e urbanistas e por 62% das empresas, recebendo notas médias 7,3 e 6,7, respectivamente. Apenas a campanha de 2018 alcançou mais de 100 milhões de pessoas, em TV aberta, rádio, jornais, internet e transporte urbano, a atuação social dos profissionais tem sido igualmente fomentada e divulgada.

Em um país com tamanho déficit habitacional - no qual o serviço de um arquiteto ainda é pouco requisitado e inacessível a grande parcela da população -, ganham especial relevância as iniciativas do CAU de atuar em favor da Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social: o CAU/ BR e os CAU/ UF destinam 2% de seus orçamentos para apoiar projetos de Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social em todo o Brasil.

Serviços online oferecidos por meio do SICCAU, como Registro Profissional, emissão de RRT, Certidões e Registro de Direito Autoral, receberam nota média 8,0 dos profissionais. As empresas entrevistadas deram, em média, 7,8. Nada menos que 83% dos arquitetos e 78% das empresas declararam-se “satisfeitos” ou “muito satisfeitos” com os serviços (veja no gráfico acima). Já a Central de Atendimento, em que o arquiteto e urbanista é atendido pelos telefones ou pelo site, recebeu notas médias de 7,8 dos profissionais e 7,5 das empresas. Entre os profissionais, 80% se disseram “satisfeitos” ou “muito satisfeitos” com o atendimento.

Entre as empresas esse índice foi de 77%. As mídias do CAU/ BR também tiveram uma excelente avaliação - site, Instagram, Facebook e Clipping receberam notas médias acima de 8, sendo que entre 83% e 90% dos profissionais entrevistados se disseram “satisfeitos” ou “muito satisfeitos” com as plataformas de comunicação do CAU.

A ferramenta de busca “Ache um Arquiteto e Urbanista”, com portfolios e currículos de profissionais e empresas de todo o Brasil, foi aprovada por 74% dos arquitetos e urbanistas e por 66% das empresas.  Ou seja: na pesquisa, arquitetos e urbanistas apontaram um alto índice de satisfação com os serviços oferecidos pelo CAU/ BR e pelos diversos CAU/ UF. De nove serviços avaliados pelos profissionais, sete receberam nota média superior a 7, em uma escala de zero a 10.

“Necessitamos de informações precisas para trabalharmos as ações do CAU, tanto para o planejamento da entidade, quanto para melhorar a comunicação com os profissionais “, afirmou o presidente do CAU/ BR, Luciano Guimarães. “O CAU sempre teve a preocupação de trabalhar com um sistema informatizado consistente, e aqui falo não só do SICCAU, mas também o IGEO (Sistema de Inteligência Geográfica), que trabalha com dados regionalizados da atuação dos profissionais”, disse.

Fiscalização e ética

A percepção de que o CAU tem como grande objetivo regular (orientar, disciplinar e fiscalizar) o exercício da profissão de arquiteto e urbanista no Brasil, defendendo o interesse e a segurança da sociedade - ao zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe em todo o território nacional, visando a melhoria da qualidade de vida, a defesa do meio ambiente e a preservação do patrimônio cultural do país - parece clara segundo a pesquisa.

Assim como o entendimento de que CAU/ BR e CAU/ UF são autarquias federais com autonomia administrativa e financeira, custeadas pelas receitas advindas de anuidades, emissão de registros profissionais e RRTs, certidões e outros serviços. Nessa estrutura federativa, CAU/ BR é a instância normativa e recursal (ou seja, aprova as normas que regulam a profissão, assim como as atividades que só podem ser realizadas por arquitetos e urbanistas, o Código de Ética e as Tabelas de Honorários; e julga os processos realizados pelos CAU/ UF); os CAU/ UF, presentes em cada unidade da federação, são as instâncias executivas do CAU, às quais cabem o atendimento e a orientação direta aos arquitetos, além da fiscalização da sua prática.

Ações em defesa da postura ética de arquitetos e urbanistas, por meio da Comissão de Ética e Disciplina, receberam nota média 6,8 de profissionais e 6,3 das empresas entrevistadas. Entre os arquitetos e urbanistas, 65% declararam-se “satisfeitos” ou “muito satisfeitos”, enquanto entre as empresas esse índice foi de 55%.

Fiscalização do exercício ilegal da Arquitetura e Urbanismo recebeu notas médias de 5,7 de profissionais e 5,2 de empresas. Cerca de 44% disseram estar “satisfeitos” ou “muito satisfeitos” com a fiscalização dos CAU/ UF. Entre as empresas, esse índice foi de 41%. Vale lembrar que os CAU/ UF realizam ainda ações de apoio às prefeituras e orientação dos profissionais recém-formados. E preveem benefícios como desconto em softwares BIM.

Satisfação com o CAU e outras entidades

No geral, o índice de satisfação com o CAU/ BR ficou em 53% entre os profissionais e 38% entre empresas, com notas médias de 6,2 e 5,3 (veja o gráfico virando a página). Os CAU/ UF, por sua vez, tiveram índice de satisfação de 54% entre profissionais e 41% entre empresas, com notas médias de 6,3 e 5,5.

Arquitetos e urbanistas também responderam sobre a atuação em entidades de livre associação do setor, como IAB, FNA, AsBEA, ABEA e ABAP. No total, 16% dos profissionais são filiados a uma dessas organizações - 11% ao IAB, seguido pela FNA, com 4%. Entre as empresas, 6% estão filiadas à AsBEA, entidade que reúne escritórios de arquitetura e urbanismo em todo o país. Os entrevistados revelaram bom conhecimento do papel de cada uma.

Demandas e participação

A pesquisa também captou impressões sobre as ações que o CAU deve priorizar, para além da citadíssima promoção de campanhas publicitárias a fim de auxiliar os arquitetos a conquistarem novos clientes (veja o gráfico no final da reportagem). Quando perguntados sobre quais temas devem ser priorizados em prol da sociedade e da arquitetura e do urbanismo, as respostas espontâneas mais citadas foram: valorização profissional, gestão urbana, arquitetura social, fiscalização e acessibilidade - nessa ordem.

Revelou-se um altíssimo grau de interesse nas discussões que envolvem o CAU. Cerca de 71% dos profissionais e 77% dos sócios de empresas declaram que participam de debates sobre questões da profissão e do exercício profissional com seus colegas. O interesse em participar do CAU foi verificado em 31% dos profissionais e 41% dos sócios de empresas, sendo que 22% do primeiro grupo e 32% do segundo acompanham os assuntos discutidos nas Reuniões Plenárias do CAU/ BR e dos CAU/ UF.

Dentre os interessados em participar do CAU, a maior parte declarou a intenção de integrar grupos de trabalho sobre temas específicos (59%), enquanto 31% disseram ter intenção de se candidatar a conselheiro. Entre os sócios de empresas, a vontade de participar das eleições do CAU é maior: 37% deles têm intenção de virar conselheiro. Metade dos empresários que querem participar do CAU preferem integrar grupos de trabalho (veja no gráfico da página ao lado).

Perfil dos profissionais no Brasil

Nessa pesquisa, a maior já realizada no país desde o Censo dos Arquitetos e Urbanistas, ocorrido em 2012 - quando se deu o registro de todos os profissionais no recém-criado Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) - desenhou-se também um retrato mais preciso de quem são os profissionais em atuação.

Muitos jovens e muitas mulheres

Descobriu-se que os arquitetos e urbanistas brasileiros são majoritariamente jovens, com 38 anos em média, a maioria composta por mulheres (64%) e profissionais liberais ou autônomos (55%). Atuam principalmente nas capitais e regiões metropolitanas (66%) e cerca de (24%) atuam em outras áreas além de arquitetura e urbanismo. Vale lembrar que o CAU vem trabalhando pela equidade de gênero e, para isso, lançou uma comissão específica, assim como uma pesquisa aberta temática.

Além disso, fez um diagnóstico inédito sobre a presença feminina na arquitetura e no urbanismo e batalhou por um acordo coletivo que melhore as condições de trabalho na fase próxima à maternidade.

Principais atividades e renda

Segundo o levantamento, as principais atividades desempenhadas por arquitetos e urbanistas nos últimos dois anos foram: projetos de arquitetura (87%), arquitetura de interiores (68%) e execução de obras (64%), além de projetos complementares (49%), gestão e consultoria (30%), paisagismo (28%) e serviço público (23%).  Nas empresas de arquitetura e urbanismo, as atividades mais recorrentes nos últimos dois anos são projeto de arquitetura (89%), arquitetura de interiores (71%), execução de obras (58%), gestão e consultoria (57%), projetos complementares (43%) e paisagismo (30%).

Quanto à renda, 50% dos arquitetos e urbanistas declarou faturar mais de cinco salários mínimos, enquanto 20% disse receber de três a cinco salários mínimos, e 22% menos que três salários mínimos. Cerca de 8% dos entrevistados não responderam. De modo geral, 37% dos profissionais entrevistados disseram-se “satisfeitos ou muito satisfeitos” com sua renda atual, enquanto 34% se dizem “mais ou menos satisfeitos”, 13% “insatisfeitos” e 15% “muito insatisfeitos”.

Redes sociais para atrair clientes

Os métodos mais utilizados para captação de clientes são redes sociais (45%) e estímulo a indicações de clientes (44%), seguidos por site pessoal com portfólio (11%) e propaganda “boca a boca (10%). Entre os profissionais e as empresas entrevistadas, 18% já realizaram serviços de Habitação de Interesse Social, enquanto 8% dos profissionais e 11% das empresas disseram já ter prestados serviços de arquitetura e urbanismo em outros países.

Orçamentos e tecnologia

Os valores dos serviços prestados são calculados principalmente por meio da quantidade de metros quadrados da obra (56%), de acordo com a solicitação do cliente (29%), conforme a Tabela de Honorários do CAU (21%) e porcentagem sobre o CUB (16%). Entre as empresas, considera-se principalmente a hora técnica dos profissionais (51%), seguida do valor por metro quadrado (48%), porcentagem sobre o CUB (18%) e Tabela de Honorários do CAU (17%). O questionário permitia múltiplas respostas. A grande maioria das empresas (70%) diz-se satisfeita ou muito satisfeita com as tecnologias disponíveis no local de trabalho.

Quanto ao uso de tecnologia, a maioria dos profissionais adota softwares CAD (85%), 3D (77%) e de renderização (68%). Significativo também é o uso de software BIM: 36% dos profissionais e 37% das empresas utilizam essa tecnologia em seus projetos. A internet já o meio mais usado para se informar sobre as novidades da área, abrangendo 95% dos profissionais. Nas redes sociais, 74% usam Instagram, 50% o Facebook e o Pinterest, e 28% o Linkedin.

Saiba mais:

. Arquitetos e urbanistas avaliam positivamente serviços do CAU
. Pesquisa CAU/BR revela perfil profissional dos aruitetos e urbanistas brasileiros

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 450
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