Decio Tozzi: Centro de Referência em Educação Ambiental (Cerea), São Paulo

Paulista à moda de Brasília

Rodeado por espelho d'água, o pavilhão de Decio Tozzi no parque Villa-Lobos, SP, mostra que o repertório do concreto aparente não se esgota. Pórticos se ligam por grelha na fachada do volume construído para abrigar o Centro de Referência em Educação Ambiental.

Se existe uma característica na personalidade de Decio Tozzi da qual não se pode duvidar, é a persistência. O arquiteto a possui em dose elevada e tem a ela recorrido para fazer prosperar o parque Villa-Lobos, equipamento público localizado na zona oeste da capital paulista, do qual é autor. Mais que desenhá-lo, Tozzi foi o seu idealizador, quando, na segunda metade dos anos 1980, existia na região um depósito de entulhos de construção (bota-fora, como são chamados), em terreno remanescente da retificação do curso do rio Pinheiros.

Naquela época, a rota que o arquiteto percorria para ir e voltar da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, onde era professor, passava próximo do bota-fora. Num desses deslocamentos, vislumbrou a possibilidade de que o depósito de entulhos pudesse transformar-se em um espaço de lazer e cultura e, de forma complementar, funcionar como um pulmão verde em meio às ilhas de calor que vinham proliferando na cidade - que não demoraria para estender-se àquele terreno.

Tempos depois, de fato, estando em curso a iniciativa de criar o parque (com o engajamento de parte da comunidade e com a tentativa de convencimento da sua necessidade junto às autoridades estaduais e ao então governador Orestes Quércia), veio a público a intenção - com a participação de uma empresa da família proprietária do lote - de construir no local um megaempreendimento imobiliário, com 80 torres e um shopping center, além de um teatro de ópera no terreno adjacente.

Nesse quarto de século em que acompanhou parte do bosque proposto encorpar (o projeto é de 1987, ano do centenário de nascimento do compositor Heitor Villa-Lobos), o arquiteto não desistiu de ver implantadas as edificações por ele imaginadas, embora alguns programas tenham se alterado - o orquidário Ruth Cardoso (leia PROJETOdesign 375, maio de 2011), inaugurado em 2010, é um dos exemplos. Outro deles é o Espaço Iconográfico da Arquitetura e Urbanismo, que se transformou no Centro de Referência em Educação Ambiental (Cerea), recentemente concluído.

Embora o prédio estivesse reservado para receber esse órgão da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, no início de fevereiro a assessoria de imprensa da pasta confirmou entendimentos com a área cultural do governo paulista para que ele fosse ocupado pela segunda unidade da Biblioteca de São Paulo (BSP) na capital, a qual deverá contar com obras de temática ambiental. A primeira BSP fica no parque da Juventude, na zona norte da cidade, de autoria de Aflalo & Gasperini (arquitetura), Dante Della Manna (interiores) e Univers Design (sinalização).

Edificação de maior porte presente até esse momento no Villa-Lobos, a sede do atual Cerea/futura BSP tem concepção arquitetônica que, em certos momentos e ângulos, remete à elegante plasticidade dos palácios brasilienses de Oscar Niemeyer. Isso se revela, por exemplo, no volume da caixa envidraçada envolvida por uma estrutura de concreto aparente e no espelho d’água que a rodeia em quase todo o perímetro.

A edificação foi implantada no eixo (são três no total) que concentra a parte edificada do Villa-Lobos, setor em que está ainda prevista a construção de um grande auditório e de outro pavilhão de tamanho e desenho semelhantes aos do Cerea/BSP. Tozzi considera tratar-se de uma arquitetura simples. “Os pavilhões foram pensados como uma placa com coberturas planas, até porque a região está na rota de aviões”, explica. “Embaixo dessas coberturas se desenvolvem os programas.”

A caixa retangular destinada ao centro de estudos (ou biblioteca) está contida numa estrutura formada por um conjunto de pórticos em concreto que se distanciam da edificação, configurando um átrio de  acesso. Esses pórticos estão lateralmente conectados por uma grelha também de concreto, desenho que, além de valorizar plasticamente a composição, funciona como anteparo à incidência solar. A malha reticulada da fachada reaparece em parte do teto. Por tratar-se de um centro de estudos ambientais, Tozzi previu, para as laterais da edificação, o plantio de espécies representativas dos biomas brasileiros.

Internamente, a organização também é relativamente simples. Na parte central há um amplo vazio, de pé-direito triplo, ao qual o arquiteto atribuiu a função de espaço expositivo. Nas duas laterais desse pátio agregador, encontram-se os espaços que seriam destinados às áreas de leitura/pesquisa do Cerea, adequados, portanto, caso ali se instale a BSP. Ao fundo do vazio, um volume branco abriga o auditório.


Decio Tozzi
Formado em 1960 pela FAU/Mackenzie, Decio Tozzi é autor de obras significativas, como o Fórum Ruy Barbosa, na capital, e a capela da Fazenda Veneza, em Valinhos, interior paulista. Entre seus trabalhos de maior repercussão em São Paulo está o parque Villa-Lobos



Ficha Técnica

Centro de Referência em Educação Ambiental
Local São Paulo, SP
Data do início do projeto 2009
Data da conclusão da obra 2013
Área construída 2.784 m2
Área total do parque 976.000 m2
Arquitetura Decio Tozzi (autor); Nelson Pinto Barbedo Filho e Natália Necco da Cruz (colaboradores); Fernando Maranha Peche, Maysa Trautwein e Camila Lenci (estagiários)
Paisagismo André Graziano
Estrutura Veirano e Alves
Instalações Etip
Imagens Ricardo Canton
Construção Ubiratan
Fotos Joana França

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 408
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