Demetre Anastassakis: Conjuntos Moradas da Saúde e Condomínio Vila Valverde, RJ

Empreendedorismo do centro do Rio de Janeiro até Nova Iguaçu

Criar seus próprios trabalhos, sem esperar que uma construtora encomende o projeto, tem sido a regra na carreira do arquiteto Demetre Anastassakis. O mais recente exemplo desse seu lado “incorporador” é o Condomínio Vila Valverde, em Nova Iguaçu, na baixada fluminense, cujas obras foram concluídas em 2018. Um pouco mais antigo é outro trabalho do arquiteto - o Moradas da Saúde, onde ele reside - que antecipou a regeneração da região vizinha ao porto do Rio de Janeiro

“Sorry, Norman Foster”, ironizou Demetre Anastassakis, em outubro de 2017, ao participar de umas das apresentações da Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo, no Rio de Janeiro. O arquiteto era um dos convidados do painel Arquitetura para Todos – Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social e recorreu ao Acqwa Corporate - edifício projetado pelo arquiteto inglês na região portuária do Rio de Janeiro, hoje chamada de Porto Maravilha – ao exibir o Moradas da Saúde, conjunto residencial que, anos antes, ele e Cláudia Mello projetaram na região.

Anastassakis reivindica para o condomínio a primazia das transformações urbanas pelas quais passou aquela região da capital fluminense e que ganharam maior visibilidade nas gestões do ex-prefeito Eduardo Paes (2009-2017), ancorada nas construções de edifícios comerciais de alto padrão (numa visão equivocada, na opinião de Anastassakis), alguns deles ainda não ocupados. A construção desses conjuntos ganhou força no período de preparação para os Jogos Olímpicos de 2016, realizados no Rio.

Ao contrário das construções mais vistosas e sofisticadas, o Moradas da Saúde, condomínio de habitações populares, é um caso de total sucesso, assegurou o arquiteto. Idealizado na época em que o arquiteto Luiz Paulo Conde foi prefeito da cidade (1997-2001), o Moradas da Saúde é, na avaliação de Anastassakis, um exemplo de que quem ancora a revitalização de regiões degradadas não são os empreendimentos de luxo - “Os ricos não gostam de ser cobaia”, afirma -, mas os conjuntos residenciais para populações de renda mais baixa (caso do Moradas da Saúde).

Embora se trate de um empreendimento privado, foi uma “encomenda” de Conde, observa Anastassakis, que é morador do empreendimento. De acordo com o arquiteto, o condomínio foi pensado como uma maneira de ocupar um vazio urbano no centro do Rio de Janeiro, próximo ao cais do porto - entre as avenidas Rodrigues Alves, Presidente Vargas e a rua Francisco Bicalho -, com vistas para a Baía da Guanabara. O conjunto possui 150 unidades, cada uma com dois dormitórios e área média construída de 54 metros quadrados.

Anastassakis relata que o projeto teve também o objetivo de revitalizar uma área com visíveis sinais de decadência e permitir à população da classe média baixa acesso a novas moradias. “O conjunto está lá, emblemático. Na época do Fernando Henrique [Cardoso, ex-presidente da República], foi [a unidade] vendida entre R$ 35 mil e R$ 42 mil. Hoje, custa entre R$ 350 mil e R$ 400 mil, mas os moradores preferem não sair de lá”, ele assegura. Para Anastassakis, o caso mostra a viabilidade de revitalizar áreas degradadas com habitação para a baixa renda. “Conseguimos fazer um projeto em que o valor de uso é maior do que o valor de troca”, afirma.

Atuação em HIS

Praticamente desde que se formou (em 1973, pela Universidade Federal do Rio Janeiro), Anastassakis elegeu as habitações sociais como segmento de atuação. É, portanto, com experiência de mais de quatro décadas, que ele reitera que os clientes que contratam projetos para esse segmento da população não sabem o que esperar da encomenda. “E isso não é ensinado na faculdade”, observa.

Foi com base em tal constatação que ele decidiu, em várias circunstâncias, tornar-se o “incorporador” desse tipo de obra. “Temos exemplos construídos em que escolhemos o terreno, o bairro e o produto, fomos à Caixa [Econômica Federal, o agente financeiro], à prefeitura e contratamos a construtora”, ele relata.

Esse é o exemplo do Condomínio Vila Valverde, conjunto habitacional edificado em Nova Iguaçu, por intermédio do programa Minha Casa, Minha Vida, para a faixa 1 (famílias com renda de até R$ 1.800). Trata-se de empreendimento da prefeitura, o qual, no entanto, foi viabilizado por Anastassiakis. Inicialmente, o proprietário pretendia vender o terreno para que fosse ocupado com um conjunto habitacional o mais denso possível. “Fizemos um contrato com ele e passamos dois anos trabalhando. Aprovamos na prefeitura, submetemos o projeto à Caixa, que o considerou viável. E conseguimos colocar uma empresa para construir”, ele detalha.

“O prefeito [Nelson Roberto Bornier de Oliveira] o assumiu como política habitacional e o Ministério das Cidades ampliou a cota do município [no programa Minha Casa, Minha Vida] em razão da qualidade do projeto. Eles falam com orgulho do trabalho. E nós também”, conclui.

Além do trabalho no Rio de Janeiro, no segundo semestre de 2018 Anastassakis estava também comprometido com projetos de habitação de interesse social em Minas Gerais e na Bahia. “Estamos acelerando para, antes do final do ano, assinar com a Caixa alguns empreendimentos, talvez ainda em novembro”, antecipou.



Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 4461
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