Bernardes Arquitetura: Edifício Anibal, Rio de Janeiro

Escritório em bairro misto

O edifício de quatro pavimentos construído em Ipanema, no Rio de Janeiro, abriga os escritórios de diferentes empresas de um grupo familiar. Assinado por Thiago Bernardes e equipe, o projeto tem o mérito de atender o programa corporativo convivendo amistosamente com o entorno residencial e comercial. Para dar privacidade aos ambientes de trabalho, uma pele metálica recobre a edificação, sem, contudo, destacá-la em meio aos prédios e lojas do bairro.

Projetado para sediar os escritórios de empresas de um grupo familiar, o edifício Anibal, localizado no bairro de Ipanema, na zona sul carioca, está inserido em área de uso misto - comercial e habitacional. O lote, onde funcionava uma clínica que ocupou uma antiga residência, é de miolo de quadra, acessível por rua de trânsito local (que faz a ligação da beira‑mar com a lagoa Rodrigo de Freitas) e, portanto, sem o distanciamento conveniente em relação ao prédio de apartamentos do outro lado da via.

Filtrar o que se vê dos interiores a partir da vizinhança era, assim, uma das prerrogativas do projeto, da qual deriva o desenho da fachada frontal. São painéis metálicos verticais, perfurados e dispostos diagonalmente em malha regular de losangos, que recobrem a edificação, de modo a dificultar a visualização do que ocorre internamente sem, contudo, barrar a entrada da luz natural pela face frontal (leste). À pele externa, cujo detalhamento (pode-se citar a densidade das perfurações, a escala e a pintura das chapas na cor branca) tem o mérito de criar presença discreta no entorno, como se fosse uma fachada de cobogó, estão associadas floreiras lineares que, alinhadas com as janelas, funcionam como segunda camada de proteção, em favor da privacidade.

O edifício possui três andares além do térreo, mais a laje de cobertura, que abriga áreas técnicas, nos fundos, e de convívio, na parte frontal. A relação com a rua é estanque, porém amistosa, porque no térreo estão localizados a garagem e ambientes para controle de acesso. Completamente vedado, o portão do estacionamento está recuado do nicho de entrada de pedestres - conformado por ripas -, de modo a ampliar o espaço da calçada em quase todo o domínio da edificação. Uma solução ainda mais conveniente quando se trata de um bairro já intensamente ocupado, como Ipanema.

O projeto dos interiores, realizado em parceria com a designer Cláudia Moreira Salles, é econômico em meios, corroborando a linguagem intimista que Thiago Bernardes, ainda sócio de Paulo Jacobsen naquela época, empreendeu na agência de publicidade MPM, em São Paulo (leia PROJETOdesign 329, julho de 2007). Madeira no piso, nas bancadas e nos armários baixos, associada a superfícies brancas (corian nos tampos e metálicas nos armários piso‑teto que se estendem nas laterais das salas abertas de trabalho) e entremeada ao granito nos pisos de áreas de circulação intensa, constitui a cartela de materiais. A eles integram-se ainda as divisórias e fechamentos de vidro, que cumprem função acústica e propiciam a ventilação natural pelos interiores, cujo escape ocorre pelas torres de vazios verticais localizadas nos fundos da edificação. Em suma, embora com layouts adaptados às necessidades específicas - administrativas, no primeiro andar, de um periódico impresso, no segundo, e de uma produtora de filmes, no terceiro -, evita-se qualquer hierarquização visual entre os escritórios e, neles, entre os membros das equipes. E, para o futuro, facilitam-se possíveis rearranjos corporativos.

Nesse sentido, a dificuldade imposta pela pouca altura dos pavimentos frente às demandas das instalações técnicas converteu-se em um dos elementos qualificadores do projeto. Não há insufladores de ar-condicionado, nem mesmo luminárias embutidas no teto, o que colabora com a linguagem austera dos interiores e facilita possíveis mudanças de layout. A refrigeração do ar ocorre através de grelhas sobre os armários laterais, enquanto prevalece a iluminação através de pendentes lineares. O conforto acústico é ainda qualificado pela aplicação de película de material absorvente sobre o forro, passível de emendas após visitação técnica.

Durante boa parte do dia, contudo, não é necessário recorrer à luz artificial. Isso porque os arquitetos criaram um bloco totalmente envidraçado na divisa posterior da edificação que, com orientação oeste, otimiza a claridade natural dos interiores. Esse volume abriga a biblioteca, que se estende pelos três andares corporativos e cujo acesso ocorre através de passarelas de vidro. Elas são entremeadas pelas torres verticais de ventilação natural, com a água da chuva escoando por grelhas posicionadas no perímetro do piso da garagem. Associada à luz filtrada que incide pela fachada frontal, essa luminosidade posterior qualifica a ambiência dos interiores e parece ampliar as dimensões do imóvel.

 
Bernardes Arquitetura
O escritório Bernardes Arquitetura foi criado por Thiago Bernardes em 2011, junto com os sócios Camila Tariki (Parsons School of Design, Nova York), Márcia Santoro (FAU/UFRJ) e Nuno Costa Nunes. Em 2013, o arquiteto Dante Furlan (Centro Universitário Belas Artes, São Paulo) passou a integrar a sociedade. Composto por equipe multidisciplinar de 60 profissionais, divididos entre Rio de Janeiro e São Paulo, o estúdio tem projetos de arquitetura, urbanismo e design de interiores no Brasil e no exterior



Ficha Técnica

Edifício de escritórios
Local Rio de Janeiro, RJ
Data do início do projeto 2012
Data da conclusão da obra 2015
Área do terreno 230 m2
Área construída 1.020 m2
Arquitetura Bernardes Arquitetura - Thiago Bernardes e Camila Tariki (autores); Francisco Abreu, Daniel Vannucchi, Fabiana Porto, Victor Campos, Gabriela di Toma, Antônia Bernardes, Caroline Premoli e Fernanda Lopes (equipe)
Interiores Cláudia Moreira Salles
Paisagismo Daniela Infante
Luminotécnica ILuz
Acústica Roberto Thompson Motta
Ar condicionado Frioterm
Automação Noise
Comunicação visual 6D
Detecção Proline
Instalações elétricas e hidráulicas Efficienta
Estrutura Abilitá
Fundação Costa Santos
Construção São Bento
Fotos Leonardo Finotti

Fornecedores

Tecnosystem (fachada e vidros)
CAP Maison, Grifel (marcenaria)
Herman Miller, Grifel (mobiliário)
Lumini, Erco, Foscarini (luminárias)
Lutron (acabamentos de elétrica)
Toto Brasil, Deca, Metalbagno (louças e metais sanitários)
OWA (forro dos postos de trabalho)
Carpinta (forro das áreas molhadas)
Frioterm (ar‑condicionado)
Estrutural JK Engenharia (estrutura metálica)
Panoramah (esquadrias)

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 424
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