Eiji Hayakawa Architects: Restaurante Santa Cruz, Monterrey, México

A lógica do encadeamento

Ao fundo, a cadeia de montanhas; à frente, a cadeia de casinhas vermelhas. A palavra-chave “cadeia” é empregada, segundo o dicionário Michaelis, na acepção de “série ininterrupta de coisas semelhantes [...]. Continuidade, encadeamento, sucessão”. Deduzido do exuberante relevo de Monterrey (México), o ato de encadear é o princípio formal do restaurante Santa Cruz. A cadeia de casinhas vermelhas é a imagem peculiar que dá identidade a esse estabelecimento que ambiciona expandir-se para se tornar uma cadeia de restaurantes. Assim, a solução projetual - em especial, a imagem arquitetônica - é a marca da empresa alimentícia e peça central de uma estratégia corporativa maior.

Tanto o modo como se obtém a expressividade formal do edifício quanto a maneira como o projeto arquitetônico adere à lógica empresarial são qualidades atípicas para um escritório de arquitetura brasileiro, principalmente dentro do que se convenciona como boa arquitetura nacional. Indícios para isso são fornecidos pela própria biografia do autor, o arquiteto paulistano Eiji Hayakawa. Formado na FAU/USP nos anos 1990, ele fez especialização na Escola de Belas-Artes de Tóquio e mestrado na Universidade Colúmbia, Estados Unidos, com ênfase em desenho urbano. No começo da década seguinte, trabalhou no grande escritório nova-iorquino Ehrenkrantz Eckstut & Kuhn Architects, participando do masterplan da área do World Trade Center pós-11 de setembro. Entre 2005 e 2009, esteve no escritório de Tadao Ando, em Osaka, como coordenador do projeto do Museu Marítimo de Abu Dabi e atuando em duas edificações em Monterrey – uma casa e um centro universitário -, nas quais conheceu o cliente que o convidou para participar, com outros dois jovens escritórios mexicanos, do concurso fechado para fazer o restaurante Santa Cruz.

De volta a São Paulo, abriu o Eiji Hayakawa Architects e fez uma proposta conceitual em que se verificava o agrupamento de casinhas vermelhas, tipologia constituída pelo que há de essencial em uma edificação vernacular: quatro paredes e um telhado com duas águas. São os elementos primordiais para a representação de uma casa - ou qualquer construção de pequeno porte, como antigos armazéns, empórios e celeiros -, tanto que é o modo como é desenhada por uma criança. Logo, qualquer pessoa é capaz reconhecer aquela forma, proporcionando uma instantânea familiaridade. Tal sedução imagética é reforçada na escolha da cor: um vermelho forte, que pode ser associado à crista da galinha - a “vedete” do cardápio -, mas é especialmente vistoso e distintivo na árida paisagem suburbana.

A contemporaneidade se faz presente na manipulação da volumetria a partir da tipologia inicial. A cadeia de casinhas passa a ter “telhados” com cumeeiras de diferentes alturas e planos com inclinações distintas, além de fachadas com superfícies paralelas, mas não coplanares. O resultado é uma forma com certa irregularidade, que ratifica o caráter único do edifício. É uma resposta atual à antiga questão já apresentada no livro Aprendendo com Las Vegas por Robert Venturi e companhia. O restaurante situa‑se à beira de uma autoestrada. O estabelecimento comercial é implantado na borda do lote, colado a uma rua secundária de acesso, e com estacionamento ao redor. Ao entrar no restaurante, destaca-se a programação visual do Estúdio Anagrama. As telhas metálicas vermelhas do exterior dão lugar ao revestimento das paredes com madeira da região, a qual também predomina no mobiliário. O vidro, em quase todo o perímetro do salão de refeições, permite uma franca visualidade com o entorno. Por sua vez, o teto de gesso reverbera internamente a irregularidade do conjunto de planos da cobertura.

A forma do restaurante também soluciona questões ambientais. Em razão do clima quente e árido dessa região mexicana, gera-se sombreamento por meio da expansão do volume superior em balanço para além do perímetro da área do restaurante no térreo, criando uma varanda. Além disso, vazios entre a fachada metálica e o ambiente interno protegem-no do aquecimento pela incidência de raios solares e proporcionam grande economia no ar-condicionado. A lógica do encadeamento perpassa as decisões arquitetônicas e pode se multiplicar em futuras filiais do restaurante, posicionando a arquitetura como agente central de uma política corporativa de Monterrey para o mundo.


Eiji Hayakawa Architects

Eiji Hayakawa é formado pela FAU/USP e mestre em arquitetura e desenho urbano pela Universidade Colúmbia. Trabalhou com Tadao Ando no Japão, como responsável pelos projetos internacionais do escritório. Em 2009 fundou o Eiji Hayakawa Architects, em São Paulo, e tem desenvolvido com seus colaboradores projetos no Brasil e no exterior, destacando-se o restaurante Santa Cruz, no México; o Teatro B32, em São Paulo; e o masterplan para o antigo aeroporto de Rio Branco, no Acre



Ficha Técnica

Restaurante Santa Cruz
Local Monterrey, México
Data do início do projeto 2011
Data da conclusão da obra 2013
Área do terreno 3.930 m²
Área construída 530 m²
Arquitetura, interiores e paisagismo Eiji Hayakawa Architects - Eiji Hayakawa, Fernando Sunao Vargas, Daniel Eizo Miyagusko, Jorge Y. Filho, Gabriela Cristina Viotti, Caroline Betti da Silva, Roberto Hirota Mori e Débora Sasaki
Programação visual Anagrama
Estrutura Aceros Lozano
Gerenciamento de projeto e obra Mina Naya
Construção Cuatro 44
Fotos Anagrama e Ana Elena Peña de Zambrano

Fornecedores

Ternium (telhas)

Texto de Francesco Perrotta-Bosch| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 419
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