Entrevista

AGA estudio + Colectivo 720

Em São Paulo, convidados do Seminário Internacional Sesc / Escola da Cidade 2019, o venezuelano Gabriel Visconti [1] (AGA estudio) e o colombiano Mario Camargo [2] (Colectivo 720) juntaram‑se , durante uma semana de fevereiro, a outros arquitetos brasileiros e estrangeiros para discutir a ideia do direito à cidade nas urbes contemporâneas. Nesta entrevista, concedida à PROJETO na ocasião, eles refletiram sobre o trabalho colaborativo, o papel do arquiteto e o contexto latino‑americano, entre outros assuntos.

De 16 a 23 de fevereiro, em São Paulo, ocorreu a 14ª edição do evento realizado em parceria pela Escola da Cidade, Sesc São Paulo e Arq.Futuro. O tema foi “Ainda o Direito à Cidade?”, uma retomada do conceito evocado pelo filósofo Henri Lefebvre há 50 anos em seu livro Le Droit à la Ville (1968). Entre os convidados, figuraram dois jovens arquitetos latino-americanos: o venezuelano Gabriel Visconti (AGA estudio) e o colombiano Mario Camargo (Colectivo 720).

O AGA estudio, coletivo de arquitetura sediado em Caracas, recebeu recentemente o Prêmio Jovens Arquitetos da América Latina - YALA, durante a Exposição Internacional de Arquitetura de Veneza 2018. Com foco em inovação e qualificação social, o AGA estudio já projetou e construiu espaços públicos, habitações, equipamentos urbanos e instalações em diversas cidades venezuelanas, assim como na Colômbia, Peru, México e Equador.

Entre eles, o 1100 - Sistemas de Equipamentos Comunitários, um trabalho de ativação e convivência social para o empoderamento local e direito ao território nas comunidades venezuelanas Canaima e Los Frailes de Catia. O AGA estudio foi premiado no Concurso Mundial de Habitação Social e Desenvolvimento, na Bienal Panamericana de Arquitetura de Quito (BAQ 2016). Vivenciando outro contexto político e socioeconômico, a maioria dos projetos do Colectivo 720 - fundado por Mario Camargo e Luis Tombe em 2011, em Cali, Colômbia - resultam da participação em concursos públicos de arquitetura

Em poucos anos de atividade, os arquitetos criaram dezenas de obras de destaque no país, sendo selecionados para representá‑lo, em 2017, no panorama da Bienal de Arquitetura Latino‑Americana (BAL), em Pamplona, Espanha. Em um dos seus projetos de maior relevância no território colombiano - premiado na Bienal Latino‑Americana de Arquitetura de Paisagem 2016 e Medalha de Ouro do Global Holcim Awards 2015 -, a UVA da Imaginação, o Colectivo 720 buscou recompor a memória local, reutilizando infraestruturas e abrindo espaços para o usufruto público.

Na entrevista a seguir, Visconti e Camargo refletem sobre o conceito de trabalho coletivo, autoria e o papel do arquiteto na compreensão de contextos distintos.

Por que trabalhar na forma de coletivo de arquitetura?

Mario Camargo Para nós, tem muito a ver com o entendimento de que nossa profissão não é um fato isolado. É um processo no qual interagem não apenas arquitetos. Com base nesse olhar, demos o nome de “colectivo”, um pouco para pensar mais horizontalmente. Sempre me perguntam por que Colectivo 720. [O número] É o código decimal de classificação mundial em bibliotecas para arquivos de arquitetura.

Gabriel Visconti No caso venezuelano, esta forma de trabalhar coletivamente está arraigada na cidade. Somos [AGA estudio] uma equipe que se organiza em função das estratégias a cumprir e, assim, coletiviza as tomadas de decisão. Pelo tipo de trabalho que desenvolvemos e pelo projeto de sociedade em que acreditamos, coletivista, o que nos interessa é construir coletividade. A partir desse escopo é que podemos entender o tema do coletivo. Igual ao Colectivo 720, nossa atuação não é apenas arquitetônica, mas também em relação às formas de organização e de gestão do território, que tem mais a ver com essa construção coletiva de sociedade.

MC O que Gabriel menciona é a capacidade de síntese de uma potencial intervenção. É muito importante o papel do arquiteto de compreender dinâmicas presentes no contexto e, a partir disso, desenvolver algo, sintetizar em um feito arquitetônico, urbanístico e paisagístico que reative dinâmicas. O denominador comum dos trabalhos é o discurso crítico. Nesse contexto, descobrimos no concurso uma ferramenta eficaz para fazer cidade.

GV O caso colombiano é muito importante não apenas pela quantidade, mas também pela qualidade da convocatória. O concurso é um instrumento democrático por excelência. Na Venezuela há muito tempo não se tem feito concurso público, tivemos que aprender a buscar recursos e financiadores para os nossos projetos. Temos a tarefa árdua de buscar atores políticos, atores institucionalizados, cidadãos com capacidade de mover algum tipo de recurso, seja econômico, logístico ou material. Aprendemos a conectar esses atores em prol de uma causa. O que mais tem funcionado para nós é quando quem coloca o recurso não solicita, digamos, a propriedade do que foi construído, mas entende que a sua participação é para a construção de um modelo social, de um projeto que capacite a autodeterminação da população no desenvolvimento da sua vida. Tem sido um bom exercício porque nem sempre todos estão alinhados com a perspectiva do projeto de liberdade, democracia, emancipação.

O que mais estimula, ou desanima, a trabalhar em coletivo?

GV É um convite a se reinventar constantemente. O momento histórico da Venezuela não é produto de ontem, mas de anos de conflito. A crise tem acompanhado a minha geração. Então, o desânimo, talvez, me mantenha atado, enquanto que o ânimo, por outro lado, poderia não me permitir ver a realidade. É como uma inquietude constante de reinventar-se.

MC O contexto latino-americano, em geral, funciona com muitas restrições, sobretudo a econômica, e acredito que o fato de estarmos submetidos a essa realidade social, política, cultural faz com que sejamos muito mais criativos em relação ao fato arquitetônico. Apesar de a Colômbia estar vivendo um momento favorável em função da realização de concursos públicos, os orçamentos são limitados, as operações são cada vez mais restritivas.

GV O que nos estimula é entendermos o espírito de resiliência em relação à existência. Por isso é que te digo que existem escritórios de arquitetura que decaem porque não têm a capacidade de se adaptarem ao que está acontecendo. O continente latino-americano é muito instável e, nesse sentido, é preciso constantemente construir ferramentas que lhe permitam se reinventar.

Qual a compreensão da sociedade sobre a arquitetura? 

MC Essa resposta vai depender, em boa medida, do desenho, do dispositivo que gera apropriação, e de uma abordagem que, digamos, é mais do que um desenho urbano. A liberação do térreo do Masp, por exemplo, gerou uma dinâmica urbana de apropriação do edifício. A arquitetura educa, o edifício diz “sou público”.

GV As estatísticas dizem que somos 7,5 bilhões de seres humanos no planeta. Desses, pelo menos 80% produzem suas próprias habitações, sem arquitetos, e somente 1% contrata arquitetos. Então, me pergunto de qual arquitetura estamos falando, em termos da construção do planeta Terra? Se você pensar em algo como 27 bilhões de edifícios construídos sem arquitetos contra 100 feitos por arquitetos, temos um marco na história edilícia do planeta. Voltando então à sua pergunta: como as pessoas me leem? Como acessório. Pouco a pouco é que temos conseguido fazer com que a profissão seja respeitada e necessária, tanto que hoje somos contratados por outras comunidades também. Estamos conseguindo que se entenda que para contratar um arquiteto não é necessário ser milionário, nem classe média.

A diversidade dentro de um coletivo de arquitetura estimula o repensar a cidade latino-americana contemporânea?

MC É muito provável que sim, mas dentro do escritório temos dois grandes âmbitos de trabalho: o fato construtivo e o fato criativo. As ideias são coletivizadas, mas no fato construtivo é exigido daquele que tem mais experiência direcionar o processo. Precisamos diferenciar as coisas: a coletivização de ideias é fundamental, mas, obviamente, amparada por uma estrutura com um líder capaz de concretizar os processos.

GV Um dos enganos é entender o coletivo como um jogo sem ordem. Mesmo as estruturas complexas têm sempre uma estrutura. Me entendo como parte de um coletivo de intenções, ainda que eu me pergunte se diferentes olhares podem fazer mudar a nossa realidade. Acho que o processo de colonização tem muito a ver com isso. Existem formas de dominação das práticas intelectuais, da ciência, que não são evidentes. Por exemplo, depois de tantos séculos, estamos chegando magicamente à conclusão - e com isso quero ser irônico - que a cidade tem que ser caminhável. Estamos inventando a caverna, nascemos com pernas e não com rodas. Prefiro extrair da experiência do planeta o que sempre sintetizou a escala do homem, o que nos permite fazer uma sociedade mais parecida conosco. 

Como é, dentro de um coletivo de arquitetura, a questão da autoria?

GV O tema da autoria sempre me veio à cabeça como copyright e copyleft. O direito de propriedade ou o direito de uso sobre algo. Sinto que os nossos projetos se parecem mais com copyleft do que um copyright. Existem tantos atores por trás de um projeto que assumir a autoria faria mais sentido a partir da perspectiva “eu faço parte desse projeto e esse projeto é meu”. A questão está em como a responsabilidade é assumida, se é de forma vertical, horizontal ou transversal. Por outro lado, sigo acreditando que a autoria coletiva é importante não como uma receita para todas as escolas de arquitetura. Existem aqueles que somente podem trabalhar sozinhos, e são muito bons ou ruins, e aqueles que trabalham coletivamente, e igualmente são muito bons ou ruins.

MC Mas uma coisa é muito clara. Um coletivo funciona se seus integrantes são capazes de entender as críticas, serem reflexivos, discutir coletivamente arquitetura em função de algo. Deve haver sintonia na equipe de trabalho para que isso funcione, o que depende, em boa medida, também de quem faz a direção organizacional. É o papel do líder em qualquer processo. 

Gostaria que vocês falassem um pouco sobre direito à cidade em suas experiências.

MC São Paulo, por exemplo, está imersa numa lógica de cidade que cresceu de tal maneira a ponto de ter quase 15 milhões de habitantes. Sinto que a cidade não tem que crescer mais nem ser mais construída, mas ser ocupada - o que já está acontecendo. Aproveitar os interstícios, os vazios, as edificações existentes. É necessário mapear os vazios, não aqueles compreendidos de modo ortodoxo, como os parques, mas os vazios de edificações. Uma parte muito importante do nosso trabalho é quantificar, não apenas qualificar.

GV O assunto direito à cidade me interessa muito porque tende a ser entendido como uma estrutura superior de poder, capaz de nos garantir condições mínimas de habitabilidade, mas não faz sentido considerar como um direito o que deveria ser uma garantia mínima da existência planetária. Parece que o direito tem mais a ver com o direito de sonhar. No caso venezuelano, estamos vivendo processos múltiplos que estão construindo um sistema de coexistência muito complexo. Acho que existem experiências democráticas de controle direto sobre os recursos, sobre a produção do espaço, sobre tomadas de decisões, sobre a transformação da realidade cotidiana, que se parecem muito com o que podemos chamar de direito à cidade. Isso constrói uma narrativa da vida cotidiana diferente da globalizada, por uma parte, mas, por outra, constrói a política do cotidiano. Acredito que tem um ponto importante aqui para deixar como reflexão, como perguntas abertas, para que sigamos questionando o que estamos fazendo, como estamos fazendo e como faremos diferente.

Texto de Camila Gonzalez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 449
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