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Personalizar é essencial em projetos residenciais

Estabelecer parâmetros relacionados à situação e localização do lote e sua orientação em relação ao sol, à incidência de intempéries, assim como à legislação vigente na área, são passos essenciais para o desenvolvimento de um projeto residencial. A estes, soma‑se ainda a interpretação dos desejos e necessidades do cliente, de modo a se compor o partido arquitetônico

Para traduzir e concretizar tais variáveis, as arquitetas do escritório Sub Estúdio, na capital paulista, Renata Pedrosa e Isabel Nassif, costumam visitar a atual residência do contratante antes de iniciar o projeto, pois “nem sempre é realidade o que ele diz que precisa”. Segundo contam as profissionais, “entender o seu estilo de vida e o que pretende levar para a nova casa são essenciais para o sucesso da arquitetura residencial”.

As arquitetas privilegiam em seus projetos a criação de ambientes integrados ou reversíveis, buscando evidenciar as potencialidades do espaço, associadas à exposição de materiais brutos, como a estrutura de concreto. Tal princípio está presente no projeto de reforma de um apartamento do Edifício Parque das Hortênsias, em São Paulo, arquitetura de João Artacho Jurado, submetido à total demolição das paredes internas, o que trouxe à tona os pilares e vigas de concreto.

Originalmente com três dormitórios, a residência passou a contar com apenas um, servido por banho aberto que tem como divisória uma parede de cobogós desenhados pelas arquitetas, além de um cômodo reversível, servido por portas de correr de aço cortén. “Gostamos de desenhar exclusivamente para cada cliente e para cada espaço, pois, apesar da praticidade que elas oferecem, nem sempre conseguimos usar soluções industriais para tudo”, comenta Isabel, explicando que nos projetos do escritório é comum conceberem também as peças de mobiliário.


O dormitório do casal foi projetado com o banho aberto, com a divisão marcada por cobogós desenhados pelas arquitetas (Foto: Tomás Cytrynowicz)


Com estrutura de concreto aparente, as arquitetas do Sub Estúdio criaram um cômodo reversível, que se fecha com portas de aço cortén (Foto:Tomás Cytrynowicz)

Já para Danilo Terra e Pedro Tuma, do escritório Terra e Tuma Arquitetos Associados, há um critério prioritário a se seguir: “a nossa interpretação está inicialmente vinculada à qualidade do espaço e às suas articulações”, revelam. Terra dá como exemplo a Casa Mipibu, construída em 2015 em São Paulo, que tem os dormitórios posicionados no térreo e os ambientes sociais no pavimento superior, de forma a proporcionar maior privacidade, conforto térmico e silêncio às áreas íntimas, além da integração dos espaços sociais com a laje de cobertura.

Neste projeto, os blocos de concreto foram utilizados inclusive como acabamento da residência - o elemento se tornou marca da produção dos arquitetos e, eventualmente, até mesmo demanda de contratação. “As pessoas pensam que temos todo o domínio sobre as escolhas dos projetos, mas, tratam-se sempre de decisões conjuntas com o cliente”, pontua Terra.

No terreno comprido e estreito onde está situada a Mipibu, se destaca a preocupação em fazer a construção interagir com a rua, o que demandou a personalização dos fechamentos e gradis. Os caixilhos tiveram suas dimensões, sistemas, tipo e espessura de vidro - entre outras características -, desenvolvidos para o interior da residência, em processo decorrente de estudo realizado com a equipe do escritório, visando o melhor custo benefício para cada caso.

Entre as características plásticas dos projetos do Terra e Tuma está a evidência da alvenaria estrutural, uma das alternativas mais econômicas do mercado. Eles salientam que, contudo, esse tipo de estrutura apresenta limitações como a impossibilidade de se embutir sistemas elétrico e hidráulico, e a menor resistência quando aplicada em grandes alturas e vãos.


Os arquitetos do escritório Terra e Tuma desenharam os fechamentos e gradis da Casa Mipibu para que houvesse maior interação da edificação com a rua (Foto: Nelson Kon)


Os pavimentos dos ambientes sociais e íntimos foram invertidos, o primeiro no superior e o segundo no térreo, proporcionando assim maior integração da área de convívio com a laje de cobertura (Fotos: Nelson Kon)

Já a arquitetura do escritório sediado em São Paulo, AR Arquitetos, de Juan Pablo Rosenberg e Marina Acayaba, tem como mote enaltecer a relação com o exterior, ressaltando-se nos interiores a visão de porções de natureza remanescentes na cidade, seja por meio de enquadramentos do céu, da criação de pátios ou do favorecimento da vista para o horizonte.

“O programa doméstico é trivial, no sentido de que agrega sala, cozinha, quartos, suíte, jardim, enfim, não foge disso. A questão é o que você faz com o projeto; nós buscamos transformar o domínio residencial em um espaço de surpresa, com transições entre o interior e o exterior”, detalha Rosenberg.

É o caso do Edifício Camburiú, em São Paulo (PROJETO 426, outubro de 2015), denominado como vila vertical, por ser composto por casas sobrepostas, que, resguardadas entre si, têm privacidade preservada. A volumetria do prédio alterna espaços abertos com outros cobertos e fechados, o que resulta em ganho maior de área útil na medida em que cada unidade está conectada com terraços. “Do ponto de vista do projeto, foi um exercício bem sucedido de adensamento em uma área da cidade com média densidade, localizada em encosta e com terreno acidentado”, pontua o arquiteto.

Pensando na personalização dos seus projetos, o escritório também interfere no desenho de linhas - de serralheria e luminotécnica, por exemplo - existentes no mercado. Neste sentido, costumam utilizar a luz artificial como reinterpretação da luz natural - “ao criar um domo ou uma iluminação zenital, reproduzimos a luz do dia, à noite”, conta Rosenberg.

Outro elemento sob medida são as esquadrias, que, no Edifício Camburiú, desempenharam papel de destaque. Utilizando como base uma linha padrão de alumínio, o escritório adaptou três tipologias de caixilhos que se alternam no projeto, dando à volumetria uma plasticidade variada. De acordo com o arquiteto, o escritório trabalha com experimentações, mas valoriza materiais em seu estado natural, como a madeira, o cimento, o alumínio e o ferro. “Já o tipo de estrutura vem como resposta às necessidade do projeto, do ponto de vista de custo, prazo ou mesmo da natureza do que estamos buscando”, enfatiza.


O escritório AR Arquitetos privilegia a iluminaçnao natural e personaliza a luz artificial para reproduzir a sensação da luz do dia (Foto: Maíra Acayaba)


A volumetria do Edifício Camburiú alterna espaços abertos com outros fechados (Foto: Juan Pablo Rosenberg)


As esquadrias foram personalizadas, garantindo uma plasticidade variada ao projeto (Foto: Maíra Acayaba)

MATERIAIS E SISTEMAS

De acordo com Gustavo Campos, executivo de marketing e vendas da Schüco do Brasil, fabricante de janelas, portas e fachadas, apesar da empresa possuir uma vasta gama de produtos, “o desenvolvimento de perfis e soluções customizadas fazem parte do nosso dia a dia”. Para atender o mercado brasileiro de projetos residenciais, a marca criou uma linha específica, chamada TropTec , que além de prescindir de isolamento térmico, conta com geometria e dimensões inferiores às utilizadas em países europeus, uma vez que clima tropical não demanda alta performance do sistema.

Além da parte estrutural, soluções de tecnologia - como os sistemas de aquecimento (à gás ou fotovoltaicos), de reuso da água, entre outros - proporcionam maior eficiência aos projetos residenciais. Segundo o arquiteto do AR, tratam‑se de soluções corriqueiras, que, disponíveis no mercado brasileiro, com custo acessível, são largamente utilizadas em seus trabalhos.

Neste aspecto, outro item a ser considerado nos projetos é a automação, como a possibilidade de integração dos controles de iluminação, áudio e vídeo. “Existem vários sistemas, desde os mais robustos, que demandam muita infraestrutura, até os mais acessíveis, que, por serem soluções sem fio, não necessitam de instalações auxiliares”, esclarece Michele Rodrigues, gerente de marketing e comunicação da Somfy Brasil, empresa de automação e sistemas de segurança residenciais.

De acordo com Michele, o mercado brasileiro de automação ainda se baseia na procura pela integração e controle de aparelhos de áudio e vídeo; “já em países da Europa, notamos a maior valorização do conforto térmico e da economia de energia, associados aos controles de iluminação natural e artificial, e com motores de acionamento das persianas, por exemplo”, ela observa.

Os arquitetos também devem estar atentos em seus projetos à Norma de Desempenho de Edificações, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) que, desde 2013, estabelece exigências de conforto e segurança para imóveis residenciais. Associando qualidade dos produtos ao resultado que conferem ao consumidor, suas regras dividem responsabilidades entre fabricantes, projetistas, construtores e usuários.

Denominada NBR 15575, a Norma de Desempenho é composta por seis partes, uma de requisitos gerais da obra e outras cinco referentes aos sistemas que compõem o edifício: estrutural, de pisos, de cobertura, de vedação e sistemas hidrossanitários. Para cada um destes itens, foram estabelecidos critérios de qualidade e procedimentos, tornando possível mensurar o atendimento às regras.

Por exemplo, a estrutura de uma parede deve suportar, sem apresentar falhas ou rachaduras, impactos de uma determinada força; sistemas de coberturas devem resistir ao fogo; tubulações hidrossanitárias aparentes devem suportar até cinco vezes o seu peso próprio; vedações têm que garantir uma redução específica da temperatura verificada no lado exterior do edifício, além de oferecer proteção acústica, entre outros critérios. Somam-se, assim, nos projetos residenciais, demandas de ordem subjetiva e objetiva que os tornam únicos.

PRODUTOS

Texto de Gabriela Nunes| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 433
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