Felipe Bezerra e Marco Antonio Borsoi: Edifícios residenciais, Recife e Natal

Morar com vista para o mar

Duas maneiras distintas de solucionar a volumetria de torres residenciais na região Nordeste são apresentadas pelos arquitetos Felipe Bezerra, Marco Antonio Borsoi e Tereza Simis. Bezerra assina, em Natal, os projetos dos prédios Metrópolis e Porto Arena, destinados a público de renda média, e faz das caixas - ora salientes, ora elementos de junção - um recurso para quebrar a monotonia das fachadas, em composição que, de certa forma, o faz um rebento tardio do pós-modernismo. Borsoi, trabalhando para o segmento de alto padrão em Recife, é formalmente mais contido no edifício Joel Queiroz. Situadas em regiões de onde se avista o mar, as três edificações têm implantação que busca o melhor aproveitamento da ventilação natural e da insolação.

TORRES NATALENSES
Herdeiro do nome do conjunto de habitações populares implantado na metade dos anos 1970 na zona sul de Natal, o bairro Candelária ganhou projeção nas décadas seguintes. Posicionado entre Ponta Negra e o centro cidade, e cortado por uma via expressa, ele se valorizou e consolidou um novo polo, atraindo dezenas de empreendimentos. Projetados pelo arquiteto natalense Felipe Bezerra, o Metrópolis e o Porto Arena são condomínios residenciais das safras mais recentes dessa ocupação. Vizinhos na alameda das Mansões, ambos foram concebidos por encomenda da Ecocil, uma das mais antigas empresas de construção civil do Rio Grande do Norte.
O plano inicial era construir o Metrópolis e em seguida, no restante do terreno original, um prédio comercial, conta Bezerra. A análise do mercado mostrou, porém, que seria mais viável empreender outro condomínio residencial, que veio a ser o Porto Arena. Embora o produto tivesse mudado, permaneceram aspectos já consolidados no Metrópolis, como a orientação das torres para o nascente, com vistas para a praia de Ponta Negra (onde fica o morro do Careca, cartão-postal da cidade), de modo a serem favorecidas pela circulação do ar. Os dois empreendimentos são direcionados para público de renda média. O Metrópolis tem em cada andar quatro apartamentos de 55 metros quadrados e dois dormitórios; no Porto Arena, as unidades medem 55 (dois dormitórios) ou 96 metros quadrados (três dormitórios) e são no máximo três por pavimento.
Bezerra considera fundamental dar à arquitetura nesse segmento uma qualidade superior à média do mercado. “A ideia foi fazer edifícios simples, o mais próximo possível de um quadrado”, conta ao discorrer sobre a configuração do Metrópolis, que é constituído por quatro torres isoladas com o mesmo gabarito e caracterizadas pelas linhas retas. Como é permitido pela legislação, em algumas unidades expandiu‑se a área construída, criando caixas salientes e pintadas em tons diferentes do predominante.
O Porto Arena, desenhado dois anos depois, conta com três torres (conectadas pela base comum no térreo e no primeiro andar, e em alguns pavimentos no terço inferior da fachada) tratadas como edificação única. Também se valendo da legislação de uso do solo, a solução permitiu reduzir o recuo entre os volumes. Na planta, os dois prédios laterais têm a forma aproximada de um retângulo irregular, e o central (onde estão as unidades menores) possui linhas curvas nas faces mais extensas. “Os edifícios deveriam conversar entre si e procuramos fazer com que apresentassem coerência arquitetônica”, afirma Bezerra. No Porto Arena, produto um degrau acima de seu antecessor, foram especificados elementos cerâmicos (em tons claros e escuros) no revestimento de parte das fachadas. Em alguns pavimentos, o arquiteto recorre novamente às caixas, mas não como recurso estético. Suspensas, elas acomodam terraços e espaços para refeições, tornando-se elemento de união entre os edifícios. Essa plasticidade incomum já vinha sendo expressada em outros projetos do autor.

LINHAGEM MODERNISTA
Também produto do mercado imobiliário - no caso, um braço do grupo Queiroz Galvão -, mas para público de renda mais alta, o edifício Joel Queiroz, recém‑concluído, está localizado na avenida Boa Viagem, no bairro do mesmo nome, na capital pernambucana. Desenhado pelos arquitetos Marco Antonio Borsoi e Tereza Simis, conta com 22 pavimentos (com apartamentos que medem de 187 a 280 metros quadrados, para três ou quatro dormitórios) e tem a materialidade definida por faixas de granito preto e cinza esverdeado, pastilhas cerâmicas grafite e brancas, esquadrias brancas e vidros verdes. As linhas retas estabelecem um contraste com a volumetria curva, monolítica, escultórica e branca presente nos elementos edificados do parque Dona Lindu, projeto por Oscar Niemeyer e com o qual o prédio faz fronteira. Para Borsoi, a forma adotada na torre funciona como moldura e limitador urbano da massa construída junto ao parque, espaço público que representa um respiro em um bairro altamente adensado.
O autor classifica o Joel Queiroz como legítimo representante da tipologia do prédio solto, alto, estreito e comprido, que redefine a imagem e o caráter da orla. “O edifício com quatro fachadas vem, a partir dos anos 1960/70, caracterizando a resposta pernambucana de matriz modernista, que enfatiza a elaboração arquitetônica como objeto cultural e estético”, conceitua. Em resposta à dimensão do lote (20 x 70 metros), a planta posicionou os dormitórios na lateral voltada para o parque e orientou os ambientes de serviço para o terreno lindeiro, enquanto salas e varandas abrem-se para a praia. “O esquema responde satisfatoriamente às condições naturais de ventilação, insolação e visibilidade”, observa Borsoi, acrescentando que o escalonamento dos seis últimos pavimentos, além de atender ao melhor aproveitamento do potencial construtivo, possibilitou criar unidades de diferentes dimensões. 


Felipe Bezerra Arquitetos
Titular do escritório que tem seu nome, Felipe Bezerra formou-se pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 1997. Sua empresa, uma das mais conceituadas da capital potiguar, apresenta porfólio com expressiva quantidade de projetos nas áreas residencial e institucional

 
Marco Antonio Borsoi e Tereza Simis
Marco Antônio Borsoi graduou-se em 1976 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e presidiu o Departamento de Pernambuco do Instituto de Arquitetos do Brasil. Tereza Simis formou-se, em 1990, pelas Faculdades Unidas de Pernambuco



Ficha Técnica

Residencial Metrópolis
Local Natal, Rio Grande do Norte
Data do início do projeto 2005
Data da conclusão da obra 2009
Área do terreno 16.545,20 m²
Área construída 22.398,38 m²
Arquitetura Felipe Bezerra Arquitetos - Felipe Bezerra (autor); Andrier Maia Varela (colaborador/coordenador); Giuliano Bezerra Caldas (colaborador)
Paisagismo Melissa Sales Paisagismo
Estrutura e fundações George Maranhão
Engenharia e Consultoria Estrutural Elétrica e hidráulica Área Construção Ecocil
Fotos Dijah Abreu Júnior

Residencial Porto Arena
Local Natal, Rio Grande do Norte
Data do início do projeto 2007
Data da conclusão da obra 2014
Área do terreno 7.580,57 m²
Área construída 25.098,91 m²
Arquitetura Felipe Bezerra Arquitetos - Felipe Bezerra (autor); César Henrique de Oliveira Ciríaco (colaborador/coordenador)
Paisagismo Melissa Sales Paisagismo
Estrutura e fundações José Ayrton Cunha Costa e Pedro Mitzcun Coutinho
Elétrica e hidráulica Área
Ar condicionado Refriser
Proteção e combate a incêndio Aset
Construção Ecocil
Fotos Dijah Abreu Júnior 

Edifício Joel Queiroz
Local Recife, PE
Data do início do projeto 2011
Data da conclusão da obra 2014
Área do terreno 1.428,66 m²
Área construída 7.360 m²
Arquitetura e interiores Marco Antonio Borsoi e Tereza Simis (autores); Alessandra Pryston e Héllen Rodrigues (colaboradoras)
Paisagismo
Natiflora Luminotécnica Karlla Simonetti
Acústica Brennand
Estrutura Engedata
Fundações Engesolos
Elétrica e hidráulica Centrex
Ar condicionado DCS
Construção Queiroz Galvão Desenvolvimento Imobiliário

Fornecedores

Residencial Metrópolis
Otis (elevadores)
Ello (esquadrias e vidros)
Supergerss, Tecnogesso (forros)
DVN (mármores e granitos)
Elizabeth (pisos e revestimentos)
Fucksa (portas)
Iquini, Ibratin (tintas)

Residencial Porto Arena 
Isoeste, Brasilit (cobertura)
Polimix (concreto)
Italínea (cozinhas)
ThyssenKrupp (elevadores)
Protequi (equipamentos de segurança)
Ello (esquadrias e vidros)
Rolim Machada, BMB (estrutura)
Vila Nova (forros)
Copesolo (fundações)
Químia (impermeabilização)
Sorte Luz, Osram (lâmpadas) 
Potiguara Pré‑Moldados
(pavimentação)
A Pedreira (pedras)
Revest, Natal (mármores e granitos)
Elizabeth (pisos e revestimentos)
Fucksa (portas)
Iquini, Ibratin, GR (tintas)

Edifício Joel Queiroz 
Portobello, Tarkett (piso)
Cortizo Aluminium, Squadra (esquadrias)
Saccaro, Itálica Casa (mobiliário)
Atlas (revestimento cerâmico)
Granos (granito)
Atlas Schindler (elevadores)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 414
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