FINESTRA

Desafios da correta especificação das fachadas de vidro

Esse foi o tema central do Glass Façades Day, evento que reuniu na capital paulista especialistas de arquitetura e construção para compartilhar soluções inovadoras e tendências oferecidas pela indústria

Localizada na zona sul de São Paulo, a CasaE - residência que apresenta soluções inovadoras e sustentáveis da Basf e seus parceiros - foi o cenário do Glass Façades Day, iniciativa da Ci & Lab, empresa especializada em projetos de vidros aplicados na construção civil, bem como na investigação e solução das patologias que podem acometê-los. A correalização foi da revista PROJETO e a organização da Ânggulo Comunicação Estratégica.

Os palestrantes que passaram pela CasaE, no dia 31 de outubro de 2017, tiveram a missão de apresentar ao público a correta e eficiente especificação de fachadas de vidro das mais diversas tipologias, além de trocar experiências e abordar desafios. Abriram os painéis sobre o tema os seguintes representantes de entidades do setor: Maria Teresa Faria e Godoy, da Associação Brasileira de Escritórios Arquitetura (AsBEA); Clélia Basseto, da Associação Brasileira de Distribuidores e Processadores de Vidros Planos (Abravidro); Felipe Faria, do Green Building Council Brasil; e Eduardo May Zaidan, do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon - SP). Eles foram unânimes em ressaltar os avanços advindos da publicação da norma de desempenho NBR 15.575 – Edifícios Habitacionais, em 2013. Antes, não fazia parte da formação técnica dos arquitetos pensar no desempenho dos materiais.

O primeiro painel foi ministrado por Júlio Lanza, responsável pelo desenvolvimento de mercado de arquitetura de Películas de Alta Performance da Eastman Chemical Company na América do Sul, e Betânia Danelon, gerente técnica comercial no Rio Grande do Sul da Guardian Glass, que destacaram a importância da especificação de acordo com as normas técnicas e em conjunto com uma equipe multidisciplinar, visando a criação das melhores soluções de projeto e do fortalecimento da relação entre indústria e profissionais.

Os arquitetos traçaram um panorama da evolução mundial das fachadas de vidro, mostrando que o material, antes utilizado apenas para fins estéticos, passou a ter também papel fundamental na performance das edificações, ou seja, “no conforto dos usuários cada vez mais informados sobre o tema”, ressaltaram. No Brasil, exemplificaram os profissionais, a diversidade de clima impulsionou o mercado a fabricar produtos cada vez mais adequados para cada tipo de situação.

Projetos com fachadas de vidro

Em seguida, o arquiteto Douglas Tolaine, sócio do escritório Perkins + Will, apresentou o painel Arquitetura de Alta Performance em Fachadas de Vidro. Foram detalhados projetos da empresa na capital paulista, como o do Laboratório Fleury Itaim, com 7,5 mil metros quadrados, e o retrofit do Brazilian Financial Center (BFC), com 65 mil metros quadrados.

No primeiro caso, a especificação do vidro buscou aliar performance, eficiência e estética. Trata-se de um edifício configurado como dois cubos brancos conectados por uma galeria interna. O fechamento branco translúcido busca comunicar a mensagem de assepsia ao ambiente externo, mas também oferecer privacidade aos pacientes, sem prejudicar a entrada de luz natural e o conforto térmico. Áreas de circulação, por sua vez, receberam vidros low-e prata, que apresentam alto nível de transparência e baixa reflexão. Brises foram utilizados como elementos adicionais nos trechos onde a incidência solar é mais intensa.

Já o projeto de retrofit do edifício corporativo e comercial do BFC com estrutura de concreto, situado na avenida Paulista, teve a aplicação de vidro nas fachadas para oferecer mais iluminação, conforto térmico, minimizar ruídos e facilitar a manutenção. Visando a melhor experiência ao usuário, o Perkins + Will realizou estudos de insolação e trabalhou em conjunto com as empresas de esquadrias, vidro e ar-condicionado. Foram especificados dois tipos de vidro: low-e prata com 10 milímetros e laminado incolor extra clear com 12 milímetros. Duas lâminas de diferentes espessuras buscaram atender à ABNT NBR 10.152 - Níveis de Ruído para Conforto Acústico.

Respondendo à platéia, Tolaine comentou que a unidade do Perkins + Will no Brasil tem usufruído do conhecimento e soluções de fachadas de vidro compartilhados pelos 2.300 arquitetos que integram o escritório de origem norte-americana no mundo todo, mas ponderou que, apesar da indústria brasileira ter evoluído nos últimos anos, ainda há muito que avançar, principalmente na questão da planicidade do vidro.

Outros dois cases detalhados no encontro pela arquiteta Betânia Danelon foram o edifício residencial Vitra, do Studio Libeskind (desenvolvido com o apoio local do Pablo Slemenson Arquitetura), e o São Paulo Corporate Towers, do Pelli Clarke Pelli Architects, em parceria com o aflalo/gasperini arquitetos, projetos que se destacam na paisagem da capital paulista por suas volumetrias e envoltórios de vidro.

No Vitra, o vidro aparece em todas as faces, buscando traduzir sua forma escultórica e distingui-lo dos edifícios residenciais paulistanos. A solução a ser aplicada deveria possibilitar privacidade, conforto térmico, luz natural adequada e economia de energia, visando atender os requisitos para a certificação Aqua. A Guardian Glass forneceu 11 mil metros quadrados de vidros low-e RB40 on clear, que bloqueiam cerca de 65% de calor e possibilitam privacidade durante o dia, já que a visibilidade através do vidro durante esse período ocorre apenas da área interna para a externa.

Para o edifício corporativo, a opção foram vidros low-e insulados AG43, visando alto impacto visual, atemporalidade e alta eficiência energética (fator solar de aproximadamente 30%). Cerca de 60 mil metros quadrados de vidros, somados ao uso de brises, possibilitaram a certificação LEED Platinum 3.0 Core and Shell. Segundo Betânia, a forma em espiral da edificação resultou em uma variedade de formatos e ângulos de vidros desafiadores.

Outro projeto do aflalo/gasperini, o edifício Jatobá, foi detalhado no Glass Façades Day. Com fachadas inteiras em vidro (7 mil metros quadrados), o empreendimento deveria cumprir todos os requisitos de performance, sem abrir mão da estética. A orientação solar definiu os diferentes tipos de vidros aplicados no projeto: cada face recebeu um tratamento específico utilizando tamanhos e cores diferentes. O arquiteto Júlio Lanza, da Eastman, destacou a utilização de uma linha de PVBs coloridos na fachada nas frentes de viga e paredes cegas, variando o uso entre o PVB branco do tipo Polar White e, em outras partes, vidros laminados na coloração marrom, resultado, segundo o arquiteto, de extenso estudo ao longo do projeto, ocasionando a combinação de outras três películas de PVB do portfólio da empresa.

Renato Costa, gerente de Projeto na FLPP - Faria Lima Prime Properties S/A, abordou o empreendimento B32, situado em terreno de 13 mil metros quadrados no Jardim Paulistano, São Paulo, e que contará com uma torre de escritórios, teatro e praça pública. Os vidros especificados serão do tipo insulado em toda a área de fachada cortina. Segundo ele, ter uma fachada mais transparente e menos reflexiva é o principal objetivo e maior desafio do projeto. “Buscamos conciliar a alta transmissão luminosa desse vidro com as questões de conforto visual”, explica.

Normas técnicas

Fabíola Rago Beltrame, diretora do Instituto Beltrame da Qualidade, Pesquisa e Certificação (Ibelq), abordou o tema esquadrias e a correta utilização dos vidros, apresentando a NBR 10.821- Esquadrias Externas para Edificações. Revisada e publicada em 2017, a norma técnica está dividida em cinco partes: Terminologia; Requisitos e Classificação; Métodos de Ensaio; Requisitos de Desempenho Adicionais (acústica e conforto térmico); e Instalação e Manutenção. A NBR 10.821 guia fabricantes brasileiros na produção de portas, janelas e fachadas de alumínio, PVC, aço, madeira, entre outros materiais, e tem como objetivo beneficiar construtoras e consumidores, que terão orientação na hora de comprar o produto ideal para sua necessidade, com garantias de qualidade. Além disso, busca criar um ambiente de isonomia competitiva.

A analista de Normalização da Abravidro, Clélia Elisa Bassetto, comentou a importância do atendimento às normas técnicas na aplicação de vidros na construção civil e da especificação correta de todo o sistema (vedação, fixação, ancoragem etc.). A atualização da NBR 7.199, com publicação pela ABNT em 2016, visou tornar as regras mais claras para que sejam cumpridas com mais facilidade por vidraceiros e especificadores de vidro em todo o país. Além de buscar eliminar dúvidas de interpretação - principalmente em relação à indicação dos vidros para cada tipo de aplicação -, o novo texto está de acordo com as mais reconhecidas normas internacionais. A antiga norma não citava os vidros em fachadas aplicados no pavimento térreo, com ou sem desnível.

Ficou estabelecido que a partir do primeiro pavimento e no pavimento térreo, dividindo ambientes com desnível superior a 1,5 metro, o vidro deve ser laminado, aramado, ou insulado (composto com os vidros anteriores). No pavimento térreo, além desses, também é permitido o temperado. Já em fachadas acima de 1,1 metro em relação ao piso, podem ser usados todos esses citados anteriormente mais o “float”’ ou impresso (encaixilhado ou colado em todo o perímetro). Fachadas inclinadas, no entanto, seguem as mesmas regras de claraboias, marquises e coberturas, com o uso de vidros laminados, aramados e insulados (em sua composição, a peça interior deve ser laminada ou aramada).

Com a revisão da NBR 7.199, portas, vitrines e divisórias também ganharam especificação mais clara. Nesses casos, todo vidro instalado abaixo de 1,1 metro em relação ao piso, seja interno ou externo, em qualquer pavimento, deve ser de segurança. Encerrando o evento, Cintya Mourão, diretora executiva da Ci & Lab, apresentou exemplos de patologias que podem acometer os vidros: fraturas, choques, distorção óptica, diferença de cores, delaminação, entre outras. Segundo ela, nem tudo é defeito de fabricação: 90% das manchas, por exemplo, são ocasionadas nos canteiros de obra, principalmente devido ao armazenamento incorreto do material. Cada tipo de vidro, ressalta Cintya, tem uma norma específica a ser seguida.



Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 441
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