FINESTRA: Paulo Brazil E. Sant’Anna Arquitetos Associados, Centro P&D+I Klabin, Telêmaco Borba, PR

Marco humanizado

O papel estratégico do vidro no projeto DO centro de tecnologia da Klabin, localizado em Telêmaco Borba, no Paraná, correspondeu à demanda para que a arquitetura propiciasse a imersão intelectual dos pesquisadores. Setorizado em dois blocos interligados - um dedicado aos laboratórios e o outro, A exposições e auditório - o complexo está inserido em terreno amplamente arborizado e que soma 15 mil metros quadrados de área. Ver o entorno, assim, sem abrir mão do conforto ambiental nos interiores, foi prerrogativa do projeto

Com cem anos de atuação no mercado de papel e celulose, a empresa brasileira Klabin S/A foi transformando-se e adaptando-se ao longo das décadas, preservando seu passado, trabalhando seu presente e visando seu futuro. A prova disso é a conclusão do Projeto Puma, que permitiu à empresa um salto de produtividade entre 2014 e 2016, passando de 1,7 milhão de toneladas de papel para 3,5 milhões de toneladas de papel e celulose por ano. Em paralelo à construção da nova fábrica, a Klabin vislumbrava seu novo Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I Klabin).

Responsável pelo projeto arquitetônico, o arquiteto Paulo Brazil lembra que os primeiros estudos e projetos do PD&I foram feitos em 2014. “A demanda era um centro de  tecnologia que mostrasse o novo momento da empresa, tendo como diretriz a integração do conjunto arquitetônico com a paisagem circundante. Mas o que era para ser apenas um espaço destinado à pesquisa com um pequeno auditório transformou-se em um conjunto de dois blocos, sendo um destinado aos laboratórios e o outro a um espaço expositivo digital, que aborda o passado, o presente e o futuro.”

Construído em Telêmaco Borba, interior do Paraná, a cerca de 30 quilômetros do Projeto Puma e perto da unidade Klabin Monte Alegre, inaugurada na década de 1940 para a produção de papel, o novo centro de tecnologia permitirá a ampliação de horizontes de pesquisa para novas oportunidades de negócios da empresa. Segundo Paulo Brazil, o desafio imposto induziu-o a pensar o conjunto como um marco humanizado destinado à necessária imersão intelectual dos pesquisadores, expresso em sua intenção plástica e construtiva, em sintonia com os edifícios da empresa implantados ao longo das décadas de 1940 a 1960.

No terreno de 15.000 metros quadrados, com vasta vegetação e desníveis em direções variadas, adotou-se uma implantação gradativa, horizontalizada e totalmente vedada com vidros, sem interferir na vegetação. O vidro ocupa um papel importante no projeto. Além do seu aspecto termoacústico, ele possibilita descortinar a paisagem do entorno; no horizonte, a partir da face oeste, é possível avistar a chaminé da fábrica do Projeto Puma. “A utilização de uma única pele, que circunda e delimita seu perímetro por contínuas marquises de visitação, define por si só o partido arquitetônico. Estrutura, volumetria e
vedos definem o desenho arquitetônico, possibilitando ao mesmo tempo a relação necessária dos usuários e visitantes com a paisagem circundante”, explica o
arquiteto.

Com cerca de 3.000 metros quadrados, a área construída é distribuída em dois  blocos principais com acessos independentes, interligados por passarelas. O bloco principal, destinado aos laboratórios, possui três pavimentos: piso inferior, térreo e piso superior. Projetado e construído de forma a absorver os desníveis do terreno, o bloco em concreto armado possui balanços de 3 metros que promovem o sombreamento e favorecem a ventilação cruzada no piso inferior, onde está a infraestrutura dos laboratórios, e acomodam a edificação à topografia.

Nos balanços, que circundam todo o perímetro do bloco, encontram-se as passarelas de visitação do piso térreo. São corredores que permitem o acesso aos laboratórios sem a interferência do uso dos mesmos devido à aplicação de divisórias com vidros incolores instaladas internamente. No piso superior, onde estão os equipamentos dos laboratórios, a fachada recebeu caixilhos produzidos com vidros aramados que promovem a ventilação cruzada permanente, favorecendo a redução de carga térmica do conjunto auxiliada pela cobertura em balanço.Trata-se de uma placa côncava solta do corpo do bloco, constituída por uma estrutura metálica em balanço revestida com painéis de alumínio composto branco. Para promover a entrada de luz natural no interior do edifício, a cobertura possui três pontos de iluminação zenital prismática.

Uma passarela suspensa vedada com vidros faz a ligação do bloco maior com o bloco anexo composto por um auditório para 80 pessoas e áreas de eventos, exposições e infraestrutura distribuídos em dois pisos. O conjunto tem orientação leste/oeste e o bloco anexo, instalado a oeste, tem sua entrada voltada para o norte. É nesta face que a pele de vidro com pé direito triplo tem inclinação negativa para auxiliar na redução da incidência solar e atender ao aspecto estético do edifício ao indicar onde se queria chegar com a haste.O bloco está sob uma cobertura metálica, revestida com painéis de alumínio composto, que segue a mesma linha de proteção solar dos laboratórios. Porém, no anexo, a placa solta do corpo do edifício é convexa e seus balanços variados.

Na face norte, a cobertura avança 3 metros para fora, e a oeste o avanço é de 1,5 metros. A combinação da cobertura em balanço com os vidros de proteção solar e brises metálicos, aplicados na envoltória do anexo, garante alto desempenho térmico para o edifício. Tal solução se deu após detalhados estudos de incidência solar, realizados no inverno e no verão pelo escritório de arquitetura, para verificar a insolação e obter a redução de carga térmica interna.

Fachadas termoacústicas

Como o projeto arquitetônico demandava basicamente dois tipos de fachadas, foram definidos dois sistemas para atender aos requisitos arquitetônicos e termoacústicos: Structural Glazing, para o anexo, e Profilit duplo em praticamente todo o perímetro do prédio dos laboratórios e na passarela de interligação. Segundo o engenheiro Braulio Rodrigues de Figueiredo Filho, diretor técnico da Solucon, empresa responsável pelo projeto executivo, fornecimento e execução das fachadas de vidro e revestimentos de painéis de alumínio composto, foram feitos protótipos para analisar as diversas particularidades do projeto de fachadas.

Escolhido pelo arquiteto, o sistema Profilit foi o mais adequado para as fachadas horizontais com pé direito de 3 metros de altura. O sistema, composto por dois vidros de 6 milímetros na cor azul, com 40 centímetros de largura e 3 metros de altura, ntremeados por câmera de ar, permitiu o desenvolvimento das curvas arquitetônicas com mais facilidade. “A fixação é feita através da combinação entre perfis de alumínio e de nylon, sendo que estes últimos têm a função de manter os afastamentos uniformes entres os vidros. Por exigência do cliente, os vidros receberam películas de proteção antiestilhaçantes e, por medida de proteção, no interior da fachada, o sistema é acompanhado por um guarda-corpo de aço inox“, detalha o engenheiro.

No anexo, foi necessário encontrar uma solução com estruturas que atendessem às características da envoltória composta por três planos de fachada, sendo um deles inclinado, com a ocorrência de vão livre de 10 metros de altura, sem vigas intermediárias, de vidros curvos, no encontro dos planos retos e inclinados e de brises metálicos. Devido à diversidade de tamanho dos vidros, a curvatura dos mesmos exigiu o desenvolvimento de diversos moldes.

Para a fachada Structural Glazing, a solução foi utilizar sistema stick sobreposto e coincidente a uma estrutura de perfis metálicos em vigas W dimensionada para vencer a altura de 10 metros. Toda estrutura de aço foi envolvida por chapas de alumínio composto de forma a obter um acabamento igual ao dos perfis de alumínio. Os caixilhos, compostos por vidros laminados de 12 milímetros de controle STB120, colados aos perfis de alumínio com fita dupla- face VHB da 3M, foram fixados na estrutura por meio de parafusos. Nas juntas dos quadros foi utilizado silicone de vedação para garantir a estanqueidade da fachada.
Além dos vidros, a fachada stick recebeu brises nas três faces. Eles possuem uma estrutura composta por suportes de aço inox e perfis horizontais de alumínio. Afastados 20 centímetros da face de vidro para favorecer a redução da insolação leste e norte, os brises, com largura variável, chegam a ter 70 centímetros de largura na face de maior incidência solar. A estrutura de alumínio dos brises foi revestida com painéis de alumínio composto com acabamento de aço inox escovado.

O sistema de fixação dos brises ocorre através dos suportes de aço inox ancorados diretamente nos perfis W de aço por meio de parafusos inox. A estrutura de alumínio também foi fixada utilizando parafusos inox. Para a fixação do revestimento de ACM foi utilizada fita dupla-face VHB 3M específica para o material. O mesmo material, na cor branca, reveste as linhas horizontais que marcam as fachadas e os forros externos. As bandejas de ACM foram fixadas por presilhas de alumínio e parafusos inox ocultos, e posteriormente as juntas receberam vedação com silicone Dow Corning.



Ficha Técnica

Centro P&D+I Klabin
Local Telêmaco Borba (PR)
Início do projeto 2015
Conclusão da obra 2017
Área do terreno 15.000 m²
Área total construída 4.234 m²

Arquitetura Paulo Brazil E. Sant´Anna Arquitetos Associados - Paulo Brazil E. Sant´Anna (responsável técnico); Luiza Garry Leptich, Elisa Relva Basso, Carlos Eduardo Valbusa, Marco Antônio D’elia, Ricardo Marmorato, Laís Oliveira Xavier, Bianca Dunder (colaboradores)
Coordenação geral (Klabin) Carlos Augusto Soares do Amaral Santos (gerente corporativo de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação), Silvana Meister Sommer, Josilei Ferreira Lima
Acompanhamento técnico (Klabin) João Antônio Gomes Braga (gerência geral); Paulo André Tobich, Celso Ribas dos Santos, Alexandre Pigozzo Manso, Iduval Panzarin Filho, Osvaldo Meca da Silva (civil); Sinésio Barberine, Valtimi Machado (gerência de Elétrica); Rafael Barbieri Fidell (TI); Carine Kanbour Zaccaria, Diego Bueno Marques, Larissa Villela Teixeira (Comunicação)
Estrutura Garcia Engenharia
Instalações MSE Engenharia, Hidraluz Engenharia
Construção A. Yoshii Engenharia e Construção e Metalúrgica Savisk
Fotos Pedro Kok
Fornecedores Metalúrgica Savisk (estrutura metálica); Portobello e Tarkkett Fademac (pisos); OWA Sonex Brasil e Gypsun (forros); Gypsun Drywall, Solidor e Neocom System (divisórias internas); Cebrace e Pilkington Profilit @ (vidros); Solucon (esquadrias); LA Fonte - Assa Abloy Brasil (fechaduras e maçanetas); Deca (peças e metais sanitários); Atlas Schindler (elevador); Montelle Elevadores (plataforma de acessibilidade)

  

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 441
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