FINESTRA: RRA l Ruy Rezende Arquitetura, Nova sede do Infoglobo, Rio de Janeiro

Tecnologia térmica a serviço da informação

Similar ao dinamismo do trabalho desempenhado no interior da nova sede do Infoglobo, também as fachadas externas da edificação, envidraçadas, são recobertas com brises que desempenham duplo movimento - deslizam horizontalmente e são constituídos por aletas giratórias - em resposta às mudanças periódicas da insolação. Uma construção, assim, que se move continuamente, amparada por sofisticada tecnologia, estudos apurados e competência arquitetônica

Fachadas com brises móveis são o destaque do projeto da nova sede da Infoglobo, inaugurada em 2017 e concebida pelo escritório RRA l Ruy Rezende Arquitetura. A envoltória pode ter diferentes configurações em resposta à incidência solar e os brises mudam de posição, movimentando-se horizontalmente, para contemplar o sombreamento.

A distribuição dos quadros metálicos sobrepostos a vidros verdes traduz na arquitetura o dinamismo da fábrica de informação, de onde saem as notícias dos jornais O Globo e Extra. Localizada na rua Marques do Pombal, no Rio de Janeiro, a nova sede (são 1.700 postos de trabalho) está instalada no terreno que já abrigou o antigo galpão das rotativas, onde os impressos eram rodados. No interior do edifício, fachadas envidraçadas somadas à claraboia sobre o átrio central permitem que a luz natural permeie todos os ambientes.

“O programa da nova sede da Infoglobo estava totalmente alinhado com a missão do Grupo Globo: um grupo de mídia que cria, produz e distribui conteúdos de qualidade que informam, educam e divertem. O projeto deveria atender aos novos tempos, acompanhando a forma de trabalhar das pessoas, os processos, a necessidade de interação das mídias e as redações integradas. A arquitetura proposta deveria ter sintonia com a cidade do Rio de Janeiro, no seu jeito carioca de ser”, explica o arquiteto Ruy Rezende, sócio fundador do escritório RRA l Ruy Rezende Arquitetura.

A área e volumetria máximas permitidas para a construção eram praticamente idênticas às necessárias para o projeto. Para otimizar os espaços, então, o projeto arquitetônico procurou qualificar as áreas livres internas, criando vazios interconectados. “Tal solução gerou o conceito da praça como centro gravitacional do prédio. Internamente, todo o edifício se desenvolve no entorno desse átrio central, integrando atividades e pessoas. As áreas de trabalho foram pensadas de modo a permitir as alterações de layout necessárias e outras formas de trabalhar, que mudam em curto espaço de tempo, sendo, portanto, as mais livres possíveis de elementos construtivos e completamente moduladas”, detalha Ruy Rezende.

No terreno plano de pouco mais de de 4,3 mil metros quadrados de área, ergueu-se o edifício de cerca de 29 mil metros quadrados, distribuídos em seis pavimentos (mais subsolos). A implantação ocupou praticamente todo o limite do terreno e as questões de insolação e ambientais ganharam soluções criativas com avançadas tecnologias no tocante às suas aplicações e forma de utilização dos materiais, conforme a necessidade de cada face do prédio.

De acordo com o arquiteto, foram realizados estudos de insolação nos 365 dias do ano e, com esse conjunto de informações, escolheram-se os tipos de vidro das fachadas e claraboia do átrio central. Adicionalmente, foi desenvolvido um estudo de sombreamento que considerou o adesivamento da claraboia com desenho de elementos circulares, garantindo assim uma solução complementar, caso necessário. Os estudos de tipo de vidro e a utilização de um dos princípios do isolamento térmico natural foram suficientes para tratar questões térmicas. Após as análises dos mapas solares e de acumulação de calor, foram escolhidos quais materiais e como eles seriam empregados em cada fachada. A face sudeste do prédio, por exemplo, tem um vidro sem os mesmos requerimentos das outras fachadas.

A grande praça central, com 370 metros quadrados e pé direito de 17 metros, está protegida por uma claraboia que, por razão do gabarito de altura, é praticamente coplanar com o piso da cobertura, ainda que não se possa caminhar sobre ela. A claraboia é um retângulo com medidas de 28,50 metros de comprimento e 14 metros de largura, estruturado por vigas de cabos tensionados e hastes rígidas. Tal estrutura serve de suporte para os quadros de vidros insulados de 32 milímetros na cor verde – sendo o externo de 4 milímetros de controle solar incolor + PVB incolor + vidro verde de 6 milímetros + câmara de ar de 12 milímetros + vidro interno de 5 milímetros incolor + PVB incolor + vidro incolor de 5 milímetros.

Os vidros foram aplicados em perfis de alumínio com acabamento eletrostático na cor branca. “No projeto foram levados em consideração todos os pontos que pudessem efetivamente reduzir as cargas térmicas internas ao prédio, a qualidade do ar, o uso racional da água e suas fontes para reúso, e as melhores condições para se viver nesses espaços, as visadas, as paisagens, entre outros pontos. O estudo apurado e amparado por uma gama de profissionais de diversas áreas, dando resposta às questões levantadas pelo projeto, permitiram um refinamento do mesmo que se traduz em um prédio com alta eficiência energética na sua operação e manutenção, para além de elevado conforto ambiental aos seus usuários”, explica Rezende.

Fachadas internas

Para tirar proveito da praça central e permitir que a luz natural permeasse os ambientes, sem perder a privacidade e o conforto ambiental, no interior do edifício foram adotadas peles de vidro unitizadas. O arquiteto optou por deixar abertas para a praça as áreas transitórias dos pavimentos, sugerindo uma maior integração com ela e com o átrio do prédio. Dois volumes envidraçados avançam a pele de vidro sobre o átrio - são duas caixas de vidros. A primeira ultrapassa 2,60 metros o plano da fachada interna e tem 8,80 metros de largura. Ela é o prolongamento da laje do quarto pavimento e abriga uma sala de reuniões. A segunda, medindo 5,66 metros de largura, avança a fachada 5,13 metros nos terceiro, quarto e quinto pavimentos. Esses espaços abrigam pontos de encontro voltados para o átrio e a praça do segundo pavimento.

Para a vedação das faces internas optou-se por dois tipos de vidro. O laminado de 10 milímetros, verde no vão luz, e um laminado, temperado e serigrafado, de 13,52 milímetros, aplicado na espessura de laje. Segundo a diretora de marketing e produto da GlassecViracon, Claudia Mitne, “o projeto teve exigências bem complexas de soluções em vidros de alto desempenho energético, segurança estrutural e design. Tais exigências se traduziram em vidros de controle solar com dupla camada de prata, fornecidos parte em vidros duplos insulados (compostos com laminados em ambos os lados) e parte somente em vidros laminados. Eles atendem aos aspectos de segurança, uma vez que são vidros estruturais laminados com película SentryGlass, que confere maior resistência às chapas. A estética e o design foram contemplados por meio da transparência, opacidade, cor e espessura do mix de configurações e quantidades”. Para essa obra, a Glassec forneceu cerca de 7 mil metros quadrados de vidro.

Fachadas externas

A envoltória é composta por quatro fachadas e duas empenas cegas. A necessidade de cada face resultou em diferentes configurações definidas a partir do estudo de dez soluções, considerando a relação custo/benefício dos elementos de sombreamento externo e interno, fachada de vidro, iluminação interna e ar-condicionado. Segundo Vitor Reis, projetista sênior da Schüco do Brasil, no projeto a vedação do edifício recebeu o sistema de fachada unitizada TropTec UC 64 SG.NI, com módulos típicos de 1,25 x 3,33 metros, produzidos com vidro insulado 32 milímetros colado com silicone estrutural em perfis de alumínio. As juntas de 12 milímetros entre os caixilhos foram vedadas na vertical com gaxetas de EPDM e, na horizontal, com silicone.

As faces sudeste, por sua melhor condição, possuem fachadas unitizadas com vidros de alta eficiência. Já as norte e noroeste, com maior incidência solar, receberam vidros laminados insulados de alta eficiência protegidos por brises móveis automatizados. O sistema consiste no deslizamento horizontal dos painéis preenchidos com lâminas giratórias. Acopladas a um eixo de aço inoxidável no painel, as lâminas possuem seção transversal do tipo asa de avião nas dimensões de 2,36 metros de comprimento, 15 centímetros de largura e 3 centímetros de espessura.

Uma haste de impulso instalada dentro da estrutura dos painéis permite que as lâminas dos brises abram e fechem. “Cada painel - dimensões de 2,50 metros de largura e 3,07 metros de altura - faz um movimento de translação horizontal nas fachadas e as venezianas (aletas metálicas) giram horizontalmente permitindo vista total ou fechamento total. As venezianas se fecham por automação de acordo com a incidência solar, conforme programação desenvolvida pelo escritório de arquitetura no que tange ao posicionamento horizontal e vertical, hora a hora, nos 365 dias do ano.

A automação também é responsável por uma abertura diferente dos painéis em cada dia do ano, que em uma analogia com o jornal, é sempre o mesmo, porém diferente todo dia”, explica Ruy Rezende. Os brises fazem parte do sistema ALB Sliding motorizado, projetado para controlar a entrada do sol e proteger a fachada da radiação solar direta, permitindo a entrada da luz natural e evitando o aquecimento excessivo do ambiente interno, proporcionando maior conforto térmico aos usuários e contribuindo para a eficiência energética do edifício (estima-se economia de energia com climatização da ordem de 20%).

Equidistantes 5 centímetros do pano de vidro, os painéis dos brises são instalados em trilhos e calhas fixados em uma estrutura metálica ancorada na frente das vigas. O trilho superior suporta o peso e possui o acionamento do motor (correia do motor e esticador da correia). Os rodízios na calha de retenção inferior são responsáveis por guiar o painel. Os rodízios suportam 126 quilos e permitem movimento suave, silencioso e de baixa fricção.



Ficha Técnica

Infoglobo
Local Rio de Janeiro (RJ)Início do projeto 2015
Conclusão da obra 2017
Área do terreno 4.340,38 m2
Área construída 29.251,07 m2

Arquitetura RRA | Ruy Rezende Arquitetura - Ruy Rezende (autor); Gilberto Gabriel (coordenador)
Fachadas QMD Serviços
Estrutura metálica Companhia de Projetos
Estrutura de concreto Sbrasil Engenharia
Acústica Harmonia Acústica
Impermeabilização Cetimper Consultoria de Engenharia
Ar-condicionado e exaustão mecânica Datum Consultoria e Projetos
Instalações especiais Jugend Controle Predial Eireli
Instalações prediais Interativa Engenharia
Luminotécnica RBF Rio Branco e Faccini Arquitetura de Iluminação
Paisagismo Benedito Abbud Arquitetura Paisagística
Certificações Leed CTE – Centro de Tecnologia de Edificações
Gerenciamento Engineering, Hill International
Manutenção de fachada PB Soluções em Sistemas de Ancoragem
Fundações e contenções Infraestrutura Engenharia
Parqueamento CCY Consultoria de Engenharia
Combate a incêndio Prinst Engenharia de Segurança Contra Incêndio, Fênix Soluções Contra Incêndio
Consultoria elevadores
Alberto Santanna
Irrigação
Aqualar Solutions
Manejo de resíduos sólidos Ambiente Responsável
Construção HTB
Fotos Bianca Rezende
Fornecedores
GlassecViraco, Cebrace (vidros); Arte Tubos (revestimento de aço inox); Schüco (sistema de fachada e brises); Strunor (fachadas); Companhia de Projetos (estrutura metálica)

 

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 441
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