Grupo SP: Casa em Itu, SP

Vazios que unem e animam

O projeto desta residência em Itu, no interior de São Paulo, tira partido da privacidade advinda do isolamento entre propriedades característico do condomínio fechado em que ela se localiza, de modo a distribuir a construção em núcleos pelo lote. Há, porém, a qualidade de estarem relacionados entre si através de alinhamentos, enquadramentos e uma bem proporcionada praça central de convivência, em torno da piscina, no que se destaca o sensível detalhamento paisagístico dos vazios entre as construções, hábil em criar vínculos entre elas

A implantação da casa tem como elemento articulador um volume longitudinal que percorre a frente do terreno. Com 3 metros de largura por 45 metros de comprimento, ele acomoda a rampa de suave inclinação (8,5%) que, partindo da cota da entrada, alinhada com a da praça interna de convivência, serve de acesso à garagem ou pátio coberto (cozinha externa), abaixo, e aos setores social e íntimo localizados em dois patamares sucessivos, acima.

Suas longas paredes são de concreto, assim como a laje de cobertura entre elas, posicionada a 5,6 metros de altura, estando a rampa metálica parcialmente engastada nas fachadas e parcialmente atirantada no teto. O volume é predominantemente opaco, o que o torna uma barreira visual de proteção à privacidade da casa, ainda que as aberturas inclinadas junto à rampa, em conjunto com janelas elevadas, iluminem fartamente os interiores.

No térreo (cota da praça), uma das extremidades do volume longitudinal abriga as dependências de empregados e serviços, sobre as quais, no primeiro pavimento, há uma suíte e a sala íntima. Na outra ponta, no nível intermediário da casa, está a cozinha integrada com a sala de estar.

Ambos os terminais do volume alongado de concreto são envidraçados e deles partem os eixos transversais da implantação, distanciados 19,5 metros entre si. Esse generoso vazio é a praça de convivência da casa.

Na parte alta do terreno estão as duas construções independentes onde se localizam, no térreo, vestiários e um estúdio de música, e no pavimento superior, outras três suítes. Interligados entre si por um hall envidraçado sobre a escada externa inserida entre os dois blocos, os quartos têm paredes de vidro voltadas para a piscina (fachada nordeste) e estão unidos ao volume da rampa através de uma passarela também vedada com vidro, em ambas as faces. Caminha-se pela casa, assim, ainda que no mais reservado dos seus ambientes, tendo-se a visão parcial da paisagem circundante e da natureza distante, como se as pessoas habitassem núcleos ao ar livre.

Um lance de rampa abaixo dos quartos, o segundo eixo transversal da casa é aquele da sala de estar, ambiente suspenso do chão e envidraçado em suas três faces externas. Nele, tirantes atuam junto com os pilares na sustentação da laje de piso, de modo a ampliar a transparência e a habitabilidade do pátio sob a laje. Resulta a presença de apenas dois pilares, localizados em vértices opostos do ambiente.

Sobre o volume da sala, um par de vigas suspende a laje de teto, apoiado por sua vez na parede de concreto voltada para a divisa de fundos do terreno. A angulação dessa empena é similar à da parede de concreto que veda a suíte maior, acima no lote, havendo em ambas uma fresta que as distancia do chão.

A acomodação da casa no terreno gera três pátios sucessivos, envolvidos pela vegetação mais densa das bordas. Na parte alta, há um gramado; no nível do deque da piscina - um volume de concreto que aflora do chão - existe o pátio com piso de mosaico português, mesmo material do terceiro pátio, abaixo.

O desenho do piso alterna áreas ajardinadas a outras secas que, em conjunto com escadas e bancos, criam os caminhos de interligação entre os vários setores, simulando vias que os cruzam. Nesse sentido, merece destaque o desenho do mosaico criado por Andrés Sandoval, o paisagismo de Tomás Rebollo e a estratégia dos arquitetos de fazerem de uma casa sem vizinhos próximos uma espécie de trecho da cidade. Com a sua riqueza de relações espontâneas.

 
Grupo SP

Constituído em 2004, o Grupo SP é fruto da associação de arquitetos formados em diferentes momentos que se reuniram para o desenvolvimento de concursos e projetos. Álvaro Puntoni é graduado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP, 1987). Sócio-fundador da Escola da Cidade (SP), é o seu atual coordenador do Conselho Pedagógico. João Sodré se formou também pela FAU/USP, em 2005. É professor da Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP) e da Escola da Cidade



Ficha Técnica

Casa em Itu
Local
Itu (SP)
Início do projeto 2014
Conclusão da obra 2018
Área do terreno 3.275 m2
Área construída 775 m2

Arquitetura Grupo SP - Alvaro Puntoni e João Sodré (autores); Alexandre Mendes, Bruno Satin, Gabriela Villas-Bôas, Micaela Vendrasco, Ricardo Froés, Paola Ornaghi (colaboradores)
Estrutura Eduardo Duprat
Elétrica e hidráulica JPD Instalações
Climatização MPM Ar Condicionado
Paisagismo Tomás Rebollo
Luminotécnica Ricardo Heder
Piso em mosaico Andrés Sandoval
Construção Reinaldo Francisco Ramos (Renner), CAS Construtora
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Giamix (concreto);
Santa Clara (estrutura metálica);
Arteal (caixilhos em alumínio);
Securit (cozinha);
Scaraveli Savioli (balcão refrigerado);
Deca (louças e metais)

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 449
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