Grupo SP: Edifício residencial Itacolomi 445, São Paulo

Vazio em bairro consolidado

Uma cobiçada porção de terra surgiu em São Paulo, no bairro de Higienópolis, quando em 2010 veio abaixo uma edificação térrea e adaptada para função comercial. Seus vizinhos: dois edifícios residenciais, um deles projetado pelo polonês victor reif. Sua atual destinação: prédio de apartamentos dúplex, um por andar, concebido pelo Grupo SP. “O projeto do Itacolomi 445 procura reforçar o protagonismo do bairro, abrindo-se para a sua paisagem de arquitetura expressiva e bem construída e permitindo, simultaneamente, que o entorno inunde os seus espaços internos”, assinala Álvaro Puntoni, um dos autores

Quando teve início o projeto de Álvaro Puntoni e equipe, em 2008, existia ainda o Movimento Um. Constituído pela imobiliária Axpe e pela incorporadora Zarvos (leia PROJETOdesign 353, julho de 2009), além de um sócio construtor e outro do mercado financeiro, sua proposta era criar edifícios de apartamentos que qualificassem a paisagem urbana da zona oeste de São Paulo. O Itacolomi 445, segundo projeto do Grupo SP para a empresa - antes dele, conceberam o edifício Simpatia 236 -, era a primeira (e viria a ser a única) incursão do Movimento Um no bairro nobre de Higienópolis, consolidado e constituído por belos edifícios residenciais das décadas de 1950/60.

Com a dissolução do grupo, o empreendimento da rua Itacolomi ficou sob a responsabilidade da Idea!Zarvos. Ligado aos preceitos do Movimento Um, desde o início pretendia-se que a arquitetura comunicasse o vazio - as boas qualidades dos espaços abertos no bairro já densamente ocupado. Os arquitetos, então, desenvolveram algumas versões de encadeamentos espaciais para que o prédio servisse a públicos variados e com tamanhos distintos de unidades residenciais. Através da sequência de pares de pisos, portanto, investigavam-se formas de integrar moradas dúplex a estúdios ou apartamentos simples.

A posição das janelas, a existência de varandas idênticas, frontais e posteriores, e o desenho da estrutura (preparada para receber a carga de pavimentos extras) são indícios das proposições iniciais dos arquitetos, que, no final, cederam ao conceito de criar o restrito conjunto de seis apartamentos, um a cada dois andares. A organização final determina a localização de áreas sociais à frente e íntimas nos fundos. E, dada a redução das possíveis demandas individuais por rearranjos espaciais, a ideia de fazer correr aparentes as tubulações deu lugar à existência de prumadas centrais e periféricas, dispostas junto ao núcleo de circulação vertical e às fachadas laterais.

Para arquitetos e empreendedores, assim, vê‑se que é dinâmica a experiência de atuar no mercado imobiliário. Embora esteja sempre respeitada a proposta de se construir o máximo possível de área para que o negócio se viabilize economicamente, o público-alvo não é um dado estático, e tampouco o são as determinações legais.

Foi no andar térreo que pouco se alterou o projeto desde a fase conceitual. É um banco de concreto que faz a interface com a rua, e, no lugar de portarias ou muros, o que separa a propriedade privada do exterior é um vazio que, um pavimento abaixo do nível da rua, acomoda parcialmente um jardim. A entrada do edifício ocorre através de uma passarela de concreto, centralizada no lote. Convicções favoráveis a uma convivência mais generosa entre moradores e transeuntes são, assim, determinações de projeto que resistiram na obra: “Um espaço aberto com pé-direito duplo no pavimento térreo expressa a preocupação em construir uma relação entre o edifício e seu entorno, com uma praça que estende à calçada”, complementa Puntoni.

O térreo é quase todo livre e, em determinados ângulos, visível desde a rua em toda a sua extensão, com as colunas aparentes de concreto de um lado e do outro - os arquitetos determinaram a transição da seção quadrada dos pilares do interior dos apartamentos para a seção circular no térreo - e um jardim suspenso na lateral esquerda posterior, implantado no que seria uma piscina. Na frente do lote, o apartamento do zelador tem paredes externas revestidas com barras de madeira, o mesmo material que recobre as varandas frontais, executadas na largura total do prédio, enquanto a posição do volume da circulação vertical - revestido por mural de ladrilho hidráulico desenhado pela artista plástica Kimi Nii - setoriza, aos fundos, uma varanda mais reservada.

Para homenagear e se integrar à ambiência arquitetônica do bairro, há ainda pastilhas cerâmicas no revestimento das fachadas, ordenadas em padrões gráficos nas cores branca, azul e vermelha, e um painel decorativo feito com azulejos. Em destaque no térreo, o painel divide espaço com a vegetação e com as tubulações aparentes de hidráulica, que, junto às fachadas laterais, testemunham a relativa despretensão com que foi idealizada a arquitetura do edifício Itacolomi 445.

O apartamento de cobertura coroa o edifício com seu volume recuado em relação ao corpo principal. Nele, o fechamento de madeira - à semelhança do térreo - é elemento de destaque. “Este edifício, genérico na sua concepção e sistêmico por sua mobilidade, é específico na inserção e metafórico na forma com que trava diálogo com a história circundante”, concluem os arquitetos.


Grupo SP
Álvaro Puntoni, João Sodré e André Nunes formaram‑se na FAU/USP em 1987, 2005 e 2010. Eles integram o Grupo SP. Jonathan Davies graduou‑se na Belas Artes, em São Paulo, em 2002



Ficha Técnica

Edifício Itacolomi 445
Local São Paulo, SP
Data do início do projeto 2008
Data da conclusão da obra 2014
Área do terreno 328,50 m2
Área construída 3.500 m2
Arquitetura Grupo SP - Álvaro Puntoni, João Sodré, Jonathan Davies e André Nunes (autores); Fabricius Mastroantonio, Julia Caio e Alexandre Mendes (colaboradores)
Interiores Ana Costa
Estrutura Sayeg
Fundações Infraestrutura
Instalações PHE
Ar-condicionado Arbi
Caixilhos ArqMate
Paisagismo Camila Vicari
Painel artístico Kimi Nii
Manual do proprietário ProConsult
Incorporação Idea!Zarvos
Construção Engeform
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Jatobá (azulejos e cerâmicas, revestimento externo)
Vallvé (banheira do spa)
Sulzer Pumps Wasterwater Brasil (bombas de drenagem, recalque e incêndio)
Jacuzzi (bombas da piscina)
Nitsche (comunicação visual)
Nobreinox (cuba de aço inox)
Arol (corrimão da escadaria, guarda-corpo do terraço)
Otis (elevadores)
MCR (empreiteira de mão de obra civil e mão de obra do revestimento externo)
Adalume (esquadrias de alumínio)
Westaflex (exaustão do lavabo)
Yale La Fonte (fechaduras e dobradiças)
Sistema (forros e paredes de gesso)
Stemac (gerador)
Casa Seca (impermeabilizações)
Megaeng (instalações hidráulicas, elétricas e de gás)
Pial Legrand (interruptores, tomadas de energia e espelhos)
Hansgrohe (louças e metais sanitários)
Arabesco (mármores e granitos)
BRG (pintura)
Figueiredo (portões automatizados, telefonia e interfonia)
ABN (portas de madeira)
DM2 (portas corta‑fogo)
Taboão (rufos)
Arquivetro (vidros)
Lucia Lyra Gomes (brises em TS)

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 412
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