PERFIL: Gui Mattos Arquitetura

Luminosidade e harmonia com o entorno

A vila Madalena, bairro da zona oeste de São Paulo é, pode-se dizer, a “praia” da Idea!Zarvos, que fez do bairro, de tradição boêmia e perfil alternativo, o principal território de suas realizações. Os empreendimentos orquestrados pela incorporadora na região ganharam projeção, entre outras qualidades, por terem sido projetados por escritórios de arquitetura que raramente eram contratados para trabalhos no mercado imobiliário.

Estimular esses estúdios a desenvolverem uma arquitetura autoral e plasticamente mais atraente está no DNA da incorporadora - no site da empresa, os sócios Otávio Zarvos e Felipe Carvalho explicam que tudo que a Idea!Zarvos construiu vem do que eles realmente vivem. “São apartamentos onde os sócios gostariam de morar e escritórios onde se sentiriam inspirados para trabalhar”, reitera referindo-se aos edifícios que idealizou.

A vila Ipojuca - que no site da Idea!Zarvos é tratada como Alto da Lapa -, também na zona oeste, porém na margem oposta da rua Cerro Corá, via que define os limites entre os dois bairros, é um dos cenários da expansão territorial da empresa. Um dos mais recentes edifícios residenciais da empreendedora a ser concluído - em meados de dezembro, suas primeiras unidades estavam sendo ocupadas -, o Flora, pertence a essa nova fronteira.

Se existem semelhanças entre as duas vilas paulistanas, uma delas é a topografia acidentada e o sinuoso traçado de suas ruas. Porém, ao contrárioda vida urbana pulsante e diversificada da vila Madalena, na vila Ipojuca - historicamente ocupada por operários e imigrantes - predominam as residências e o comércio de bairro. A verticalização que ali ocorreu é quase toda formada por prédios residenciais de arquitetura medíocre.

Como o bairro possui esse perfil mais familiar e tranquilo, o produto que a incorporadora definiu para a configuração plástica e arquitetônica do Flora apresenta-se em harmonia com ele. De autoria do escritório Gui Mattos Arquitetura, o projeto expressa uma arquitetura serena e sem estardalhaços. Placidez e luminosidade são duas virtudes de sua composição. “Não quero causar confusão para provocar emoção”, observa o arquiteto Gui Mattos.

O Flora fica no início da rua Votupoca e, conforme observa a incorporadora em seu site, foi projetado para captar o máximo de luminosidade em todos os seus ambientes. A construção ocupa um terreno em L com frentes para duas ruas - aquela voltada para a rua Mota Pais é ocupada pela área de lazer do Flora e faz limite com outro prédio residencial da Idea!Zarvos, o Árbol, projetado pelo escritório Carvalho Araújo, de origem portuguesa.

A solução desenvolvida pelo estúdio de Gui Mattos é constituída por um embasamento retangular ocupado pelos três sobressolos de garagem (uma caixa, na definição do autor), complexidade que precisou ser equacionada pelo projeto, sobretudo no que se refere à legislação do Corpo de Bombeiros. Sobre a caixa, apoia‑se a torre de nove pavimentos onde estão distribuídos os 25 apartamentos com dimensões variáveis.

Mattos recorda que foram testadas algumas soluções para atender à solicitação da incorporadora, que ainda avaliava qual seria o produto ideal para uma região de perfil diferente daquela em que costumava atuar. A solução adotada foi a do edifício com um núcleo de circulação vertical na parte de trás, com uma configuração de andar que conta com o andar tipo se configurando com duas unidades maiores posicionadas nas pontas e um apartamento menor no centro do andar.

Nas unidades maiores, as salas com aberturas piso teto ficam ligeiramente recuadas em relação aos dormitórios e à cozinha/serviço e foram imaginadas para operar como um tubo de luz/ventilação.

“Dentro de um desenho mais alinhado e contemporâneo, buscamos uma materialidade mais amistosa, condizente com o perfil mais familiar do bairro”, explica Mattos, ponderando que essa análise justifica o tijolo aparente como principal material de revestimento.

As salas/tubos possuem aberturas para as duas faces da construção - a principal, voltada para a rua Mota Pais, é acoplada a uma ampla varanda que proporciona áreas de sombreamento, o mesmo ocorrendo nas unidades menores. Embora quase não existam recortes na fachada, esses elementos marcam a horizontalidade dos pavimentos e contribuem para, discretamente, personalizar a edificação, sem, no entanto, romper com a sobriedade local. As janelas do tipo venezianas que fecham os dormitórios também contribuem para trazer movimento à fachada.

Como os sobressolos ocupam praticamente toda a área do lote e a caixa poderia impactar negativamente o entorno, a equipe de arquitetura envolveu-a com uma tela aramada, que serve de base para a vegetação - quando esta atingir maturidade, diluirá a presença do volume na via e o tornará mais agradável à vizinhança. A vegetação também tornará mais agradável o acesso e a permanência (ainda que curta) dos moradores nos pisos de garagem.



Ficha Técnica

Edifício residencial Flora
Local São Paulo(SP)
Início do Projeto 2013
Conclusão da Obra 2017
Área do terreno 1.405 m2
Área construída 5.529 m2

Arquitetura Gui Mattos Arquitetura - Gui Mattos (autor); Leonardo Chen (arquiteto responsável); Artur Mei, Larissa Teixeira, Paula Bartorelli, Manuela Albuquerque (equipe); Estúdio de Arquitetos (desenvolvimento) Paisagismo Camila Vicari, Rodrigo de Oliveira
Luminotécnica OfficeLUX
Estrutura Pedreira (concreto); Tecsteel Consultoria (metálica)
Fundações Apoio Assessoria
Elétrica FE Projetos Elétricos
Hidráulica CRIArq Projetos
Climatização Teknika Consultoria
Aquecimento Chaguri Consultoria
Esquadrias Crescêncio Petrucci Consultoria
Gerenciamento CHP Coordenação de Projetos
Incorporação Idea!Zarvos
Construção Lock Engenharia
Fotos Fernando Guerra

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 441
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