Herzog & de Meuron: Arena do Morro, Natal

Arquitetura para o coletivo

A inauguração, em abril, do ginásio poliesportivo desenhado pelo escritório suíço Herzog & De Meuron para o bairro Mãe Luiza, em Natal, é o passo inicial de uma proposta urbana que pretende prover a comunidade de espaços coletivos de recreação, esporte, cultura e educação. O equipamento é o centro de um eixo previsto para atravessar o bairro na direção do mar, e, a despeito da simplicidade dos materiais - todos aparentes -, sua excelência reside no rigor do detalhamento construtivo e no caráter ambíguo, meio monolítico, meio permeável, do projeto. Qualificado pela brisa e transparência contida.

Primeiro projeto de Herzog & de Meuron construído no Brasil, o ginásio poliesportivo na comunidade carente Mãe Luiza, na capital potiguar, possui ampla cobertura metálica e salas circulares para dança e educação cujas paredes de vedação se prolongam e desmembram nas divisas da edificação. Ambos os componentes são caracterizados pela semipermeabilidade de elementos ou arranjos vazados. A cobertura percorre todo o terreno, reproduzindo sua figura irregular e alongada e marcando presença no bairro. Completamente branca, ela faz contraponto à massa edificada do entorno. O ginásio é também a primeira etapa de um plano urbano que os arquitetos suíços projetaram para o local, em um processo de colaboração internacional e ampla participação comunitária.

A Fundação Ameropa, da Suíça, e o Centro Sócio‑Pastoral Nossa Senhora da Conceição, de Natal, são os proponentes do projeto, que tem como parceiros a prefeitura e o governo estadual, este último responsável pela escola Dinarte Mariz, onde está inserido o ginásio. Em 2006, a entidade assistencial brasileira levou à fundação suíça - pertencente a uma indústria de grãos e fertilizantes cuja sede em Binningen, na Basileia, foi desenhada pelo escritório de arquitetura e inaugurada em 2001 - as diretrizes de um seminário realizado naquele ano em Mãe Luiza, para a discussão pela comunidade do seu futuro e desenvolvimento. Cultura, esporte, lazer, atividades profissionalizantes e segurança faziam parte das carências delineadas pelos participantes no evento, que apontavam, assim, para a criação de espaços de uso coletivo.

Mãe Luiza fica próximo do centro antigo de Natal. De um lado, é limitada por uma grande área verde inabitada - a reserva natural parque das Dunas - e, do outro, pelo mar, do qual se separa por um centro comercial de bom padrão e por trecho de dunas, paisagem sobre a qual se assenta a comunidade. Não há eixo possível de expansão territorial e são expressivas no local tanto as iniciativas de cooperação internacional (com a Suíça, desde 1995, através da associação Amis de Mãe Luiza) quanto a atuação de lideranças comunitárias. Credita-se a elas, por exemplo, a iniciativa para a implantação da escola secundária estadual Dinarte Mariz, que, com a construção do projeto de Herzog & de Meuron, passa a ser profissionalizante (inserida no programa federal Brasil Profissionalizado).

Diante da configuração linear do bairro, foi no eixo transversal que os suíços desenharam a linha de desenvolvimento urbano. Tendo como epicentro o ginásio, denominado Arena do Morro, trata-se da sequência de novas edificações ou ampliações de outras existentes, que desemboca em uma passarela sobre uma grande área vazia, em direção ao mar. “A passarela é um novo tipo de espaço público em Mãe Luiza.
Como uma longa praça pública coberta, ela atravessa o denso tecido urbano e articula os diversos espaços entre o oceano e as dunas”, citam os arquitetos. No estudo que fizeram da área, eles identificaram contradições importantes no cotidiano do bairro, como a disponibilidade de infraestrutura (há pontos de ônibus, a escola, vias carroçáveis) e a qualidade paisagística do entorno em meio à pressão imobiliária, acessos deficitários ao miolo da comunidade e ausência de equipamentos coletivos. A espinha dorsal do projeto urbano, denominado Visão para Mãe Luiza, portanto, é destinada ao estabelecimento de tal programa (cultural, educativo e esportivo), otimizando estruturas existentes mas ocupando também áreas livres remanescentes, como o misto de rocha e duna que cerca o farol, a atração turística local.

Assumindo o papel de catalisador, o ginásio começou a ser construído em 2012, com a obra custeada pela Ameropa e o projeto doado pelos arquitetos. É um edifício ambíguo, ao mesmo tempo escultural e de presença marcante na paisagem, mas generosamente integrado ao entorno, o que resulta da permeabilidade visual de seus elementos construtivos.

A cobertura, de estrutura e telhas metálicas, é organizada em duas águas longitudinais, com as placas onduladas de alumínio espaçadas transversalmente “como se fossem uma pilha de painéis soltos, mas sobrepostos, deixando aberturas que permitem iluminação e ventilação natural e ao mesmo tempo abrigando da chuva”, define o memorial do projeto. O grande telhado, que se estende por todo o perímetro do terreno, complementa a estrutura que existia no local (pilares e treliças) para um possível cobrimento futuro (não realizado) da quadra de esportes. No projeto de Herzog & De Meuron, a cobertura metálica cresceu no sentido das extremidades externa e interna do lote, respectivamente de esquina e vizinha da escola.

Na outra direção, uma das águas desemboca no muro de divisa com uma série ininterrupta de construções residenciais e a outra flutua sobre a face da edificação visível a partir da rua. Interessante o desalinhamento dos terminais das telhas, explicitando a sua montagem, o uso de elementos padronizados e o aspecto simbólico ressaltado pelos autores: “Essa cobertura traz uma nova escala para Mãe Luiza. É uma forma simples desempenhando funções complexas: a proteção contra o vento, a chuva e a luz direta, combinadas ao favorecimento da incidência da luz indireta e da ventilação natural”. Com os modelos em escala real construídos no local, pode-se testar a força do vento e a consequente vibração da cobertura, o que resultou no reforço de sua área periférica.

Ao redor da quadra foram dispostas salas circulares para atividades didáticas, performáticas ou de simples recreação, como no caso do terraço com vista para o mar, posicionado na esquina sobre o acesso público. O fechamento desses espaços, assim como dos muros - lineares ou de perfil sinuoso - deles derivados, é feito com blocos vazados de concreto, empilhados. São dois módulos básicos, o côncavo e o convexo, especialmente desenhados para este projeto. Formados por lâminas verticais dispostas diagonalmente, podem ser utilizados isoladamente ou componíveis entre si, dependendo do nível de privacidade desejado.

Feito com tonalidade similar à do concreto dos blocos vazados, o piso monolítico da quadra, pátio e arquibancadas que a cercam (capacidade para 420 espectadores sentados) teve acabamento executado em granilite conforme um desenho orgânico e contínuo. “A estrutura é simples e aberta, refletindo e respondendo aos materiais e métodos de construção locais”, analisam os autores.

Desde abril de 2012, modelos em escala 1:1 foram sendo testados na obra e, questionados sobre possíveis melhoras do projeto a partir da análise de tais artefatos, os arquitetos destacam: “Os mockups nos ajudaram a definir a geometria do bloco e a mistura exata do concreto; para o granilite, nos permitiu corrigir a cor resultante dos ingredientes - cimento e pedra -, assim como detalhes das bordas dos bancos. Através deles, foram definidas diferentes qualidades superficiais do material, no interior e no exterior do edifício”. Tirar o máximo proveito da simplicidade, assim, é uma das marcas do projeto, como exemplifica a delicada demarcação gráfica do piso da quadra poliesportiva em tonalidade pouco mais escura do que a geral.

A repercussão que vem tendo o projeto já rendeu bons frutos. Um passo importante foi dado para o estabelecimento do plano maior: a rua verde em que os arquitetos pretendem transformar o braço esquerdo (alameda Sabino Gentili) da via princial bifurcada está em obras - espaços ajardinados, pequeno comércio e vias projetadas para o tráfego de pedestres deverão introduzir, paralelamente à avenida, um passeio ao longo de todo o eixo longitudinal de Mãe Luiza.


Herzog & de Meuron
O escritório Herzog & de Meuron é liderado por cinco sócios: Jacques Herzog, Pierre de Meuron, Christine Binswanger, Ascan Mergenthaler e Stefan Marbach. Jacques Herzog e Pierre de Meuron fundaram o escritório em Basileia, em 1978, mas há unidades também em Hamburgo, Londres, Madri, Nova York e Hong Kong. Um time internacional está trabalhando em projetos na Europa, Américas do Norte e do Sul e Ásia. Entre os seus projetos, de várias escalas e naturezas, destacam‑se a Tate Modern (Londres, 2000), cuja extensão, também de autoria do escritório, está prevista para ser inaugurada em 2016, e o Estádio Nacional de Pequim, desenvolvido para a Olimpíada de 2008. O Pritzker (2001), o Riba (2007) e o Imperial (2007) são os seus principais prêmios.



Ficha Técnica

Arena do Morro
Local Natal, RN
Data do início do projeto 2011
Data da conclusão da obra 2014
Área do terreno 5.207 m2
Área construída 1.861 m2
Cliente Fundação Ameropa e Centro ­Sócio‑Pastoral Nossa Senhora da Conceição
Arquitetura e urbanismo Herzog & de Meuron - Jacques Herzog e Pierre de Meuron (autores), Ascan Mergenthaler (responsável pelo projeto) e Markus Widmer; Equipe Tomislav Dushanov (associado, diretor do projeto ) - Maria Vilela (coordenadora do projeto), Diogo Rabaça Figueiredo, Daniel Fernández Flores, Stephen Hodgson, Melissa Shin, Kai Strehlke e Edyta Augustynowicz (tecnologias digitais)
Planejamento arquitetônico Herzog & De Meuron
Equipe local de planejamento Plantae (arquitetura executiva, engenharia elétrica, paisagismo, engenharia hidráulica e engenharia estrutural)
Consultoria de iluminação Luminárias Projeto
Consultoria de sustentabilidade Plantae
Consultoria de tráfego urbano Ritur
Obra de arte Flávio Freitas
Construção AR
Fotos Iwan Baan

Fornecedores

AR (serralheria)
Revindústria (piso e revestimento de granilite)
Sherwin‑Williams (tintas)
Vulcano (estrutura metálica)
Pavbloco (blocos de concreto)
EEPC (qualidade do concreto)

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 410
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