Jirau Arquitetura e Urbanismo: Condomínio Residencial, Caruaru, PE

Personalização e identidade em moradias para baixa renda

Quartos voltados para o quintal e salas inundadas de luz são algumas das características desse conjunto de sobrados construído em Caruaru, Pernambuco. Cobogós nas fachadas para melhor ventilação e cores vibrantes rompem com a ideia da ausência de identidade em moradias destinadas à população de baixa renda

Casas térreas com dois quartos, banheiro único, cozinha - às vezes integrada - e sala (ou salas) compõem, quase invariavelmente, o modelo das habitações de interesse social edificadas no interior do Nordeste. Essa situação vem, ao longo dos últimos anos, sendo constatada pelo escritório Jirau Arquitetura e Urbanismo, que tem sua sede em Caruaru, cidade onde também foi implantada a maior parte de seus projetos. De acordo com os arquitetos Pablo Patriota e Bernardo Lopes, sócios do escritório, esse modelo é tão repetido que, por vezes, inibe os empreendedores de procurarem alternativas.

A arquitetura que o escritório se propôs a praticar foge desse padrão. O condomínio de sobrados - construídos no loteamento Novo Jardim, bairro São José, numa área de expansão urbana em direção ao leste - que a equipe do escritório projetou para a Vilar Construtora e Incorporadora é um dos mais recentes exemplos dessas opções. A tarefa de convencer a construtora a apostar em um desenho alternativo não foi difícil, admitem Patriota e Lopes.

Isso porque já existia uma relação de confiança entre o escritório de arquitetura e o construtor para a proposição de produtos e modelos distintos dos comumente ofertados para esse segmento de renda. A ideia de juntar os terrenos para potencializar o número de unidades com o uso de sobrados geminados, todos com acesso independente à rua, foi aprovada, relatam os arquitetos. Porém, como se tratava de um condomínio, era preciso criar uma área comum, condominial.

Foi então que eles imaginaram que ela poderia ser uma pequena praça, aberta e pública – um espaço para o lazer dos condôminos e de integração com o restante do bairro, permitindo que também os vizinhos pudessem se apropriar do local, dando a ele vida e uso efetivo, num bairro totalmente carente de espaços de convivência. A praça teria um espaço protegido por grades, para jogos e brincadeiras de crianças, e outro, para descanso à sombra das árvores, detalham os sócios do Jirau.

No entanto, o gestor de plantão do órgão municipal de licenciamento e planejamento - um não técnico, esclarecem Patriota e Lopes - rejeitou a ideia. “A cidade não quer essa praça”, teria dito a autoridade. Assim, morreu - de morte matada (a expressão é da dupla) - a tentativa de presentear a cidade com um espaço aberto, ainda que diminuto, lamentam.

O desenho das casas subverte a lógica tradicional local, pois os quartos estão voltados para o quintal, ao interior e à intimidade – fica para as salas a conexão com o exterior. “As salas inundam-se de luz, pois, além de estarem ligadas ao exterior, se conectam também ao quintal, que pode se transformar em um pequeno pomar, jardim ou em uma área festiva, com a instalação de uma churrasqueira ou pequena piscina.

As zonas social, de serviço e íntima estão bem delimitadas, pois, no térreo, encontram-se as salas, a cozinha e a área de serviço e, no pavimento superior, quarto, banheiro social e suíte”, descrevem os arquitetos no memorial.

Nas fachadas, o projeto incorporou o cobogó, um elemento típico da arquitetura moderna pernambucana. Este elemento permite a circulação constante de ar e cria um inusitado jogo de luzes e sombra na escada. Nas fachadas também são feitas composições de cores, quebrando a monotonia e a repetição exagerada da imagem do morar sem identidade.

Está também prevista a possibilidade de expansão da casa, com o projeto de uma suíte mais confortável, voltada para a rua. Por conta dessa expansão planejada, ofertada ao cliente no ato da compra, os dois banheiros originais são ventilados e iluminados por cima, através de uma abertura zenital. A concretização desse acréscimo permitirá a criação de uma garagem coberta ou o aumento da sala, ambos até o limite do recuo inicial obrigatório de 3 metros.

“A dinâmica do mercado, seus humores e as diversas mudanças de rumo nas políticas de financiamento sugeriram a modificação de parte das unidades, dos sobrados inicialmente pensados para unidades térreas, mantendo algumas características do sobrado original, como as salas que se abrem ao exterior e para o quintal, por exemplo”, informam os autores.

   

Jirau Arquitetos e Urbanismo

O Jirau Arquitetura e Urbanismo foi fundado em 2010 pelos arquitetos Pablo Patriota, Bernardo Lopes, ambos formados pela Universidade Federal de Pernambuco em 2006, e por Mariana Caraciolo, graduada em 2008 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco. Atualmente, a sociedade é constituída por Patriota e Lopes.



Ficha Técnica

Sobrados Novo Jardim Local Novo Jardim, Caruaru (PE)
Início do projeto 2014
Conclusão da obra 2016
Área do terreno 2.169,70 m²
Área construída 1.274,94 m² (cada unidade possui 73,21m²)

Arquitetura Jirau Arquitetura - Pablo Patriota, Bernardo Lopes e Mariana Caraciolo (autores)
Estrutura, fundações, elétrica e hidráulica Sebastião Neto
Construção Construtora Vilar
Fotos Antonio Preggo

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 4461
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora