Laurent Troost: Casa Campinarana, Manaus

Casa na mata

Com baixa taxa de ocupação (são 65% de área impermeável preservada no terreno) e arquitetura eficiente no que diz respeito ao conforto térmico - essencial no clima extremo de Manaus -, a casa a seguir possui um telhado metálico suspenso por pilares inclinados ancorados a meia altura. Uma construção de linguagem contemporânea, inserida em região de mata amazônica

Elevada do chão, a casa Campinarana menciona o nome da tipologia de mata amazônica em que está inserida, caracterizada pela presença de árvores de pequeno porte e pelo solo argiloso - é uma antiga área alagada. Pertencente a condomínio fechado da área urbana de Manaus próxima ao rio, ela está construída em terreno de 20 metros de frente por 40 metros de profundidade, dentro do qual há um curso d’agua.

A fim de preservá-lo, bem como as árvores do lote, a construção não toca o chão e tem implantação em forma de dois blocos perpendiculares entre si, posicionados em clareiras.

O bloco transversal ao terreno é recuado da entrada e abriga no térreo os dormitórios e no pavimento elevado a sala e a cozinha. Já o bloco longitudinal é próximo à divisa direita da propriedade e nele se sucedem, no térreo, garagem, depósito, áreas de serviço e escritório, enquanto que no primeiro andar há a piscina e o terraço coberto.

Nas intersecções entre os blocos há vazios que otimizam a ventilação e a iluminação naturais e valorizam ainda a volumetria arquitetônica.

A estratégia para a disposição dos ambientes foi concentrar no bloco longitudinal as dependências onde a necessidade da proteção contra o sol é secundária, como garagem, depósito e banheiros, e no transversal aquelas em que o sombreamento é essencial.

Decidiu-se também pela implantação da sala no pavimento superior, de modo a nele criar os terraços e corredores que fazem a integração dos espaços internos com os externos, de estar e de lazer. Desses dois raciocínios de projeto é que deriva a criação de um grande telhado sobre o bloco transversal, com duas porções sobrepostas, com quatro águas cada, deslocadas verticalmente de modo a induzir a circulação do ar sob o telhado.

A cobertura tem área de projeção de 11 metros de largura por 18 metros de frente e é totalmente metálica. Ou seja, as vigas são feitas com perfil industrializado e também os fechamentos são em chapa de aço corten, material com baixa necessidade de manutenção e afeito à tonalidade avermelhada do solo argiloso.

A fim de evitar a infiltração de água, as chapas de aço, que perfazem 4 centímetros, são soldadas em linha contínua; ao colchão de ar se soma, no que diz respeito à proteção térmica, a presença de uma placa de poliestireno expandido de 15 centímetros de espessura dentro da cobertura. No total, assim, ela tem 23 centímetros de espessura.

Nas laterais menores do telhado há platibandas invertidas, ou seja, verticais, voltadas para o sol nascente e o poente; uma fresta contínua as distancia da parte inclinada, também ali deixando passar luz e vento.

Os beirais de frente e fundos do bloco transversal são de 2 metros, sustentados em cada face por quatro duplas de pilares em V, fixas na viga da laje entre os dois pavimentos.

A materialidade e o detalhamento da cobertura são uma releitura, afirma o arquiteto, dos telhados coloniais, adotada aqui com extrema inteligência no que se refere à sua sintonia com a estratégia de implantação. Ou seja, à cobertura cabe a função - técnica e estética - de ser o elemento de destaque da arquitetura. Talvez por isso o projeto venha acumulando prêmios, no Brasil e exterior, desde a sua execução.


Laurent Troost

Nascido em Bruxelas, na Bélgica, Laurent Troost tem mestrado em Arquitetura e Urbanismo pelo Institut Supérieur d’Architecture Intercommunal Victor Horta (ISAIVH), Bruxelas (2001), e pós-graduação em Geografia e Cidades pela Escola da Cidade, São Paulo (2010). Desenvolveu projetos de arquitetura e de urbanismo para vários escritórios de arquitetura importantes no Brasil, na Espanha, na Holanda e em Dubai, entre eles o Office for Metropolitan Architecture do Rem Koolhaas, o Studio Arthur Casas e o Bernardes Arquitetura. Desde 2013, é Diretor de Planejamento Urbano no Implurb (Prefeitura de Manaus).



Ficha Técnica

Casa Campinarana
Local
Manaus (AM)
Área do terreno 800 m2
Área construída 232 m2
Início do projeto 2012
Conclusão da obra
2018

Arquitetura Laurent Troost (autor); Raquel Brasil dos Reis (equipe)
Estrutura
Engº. Flávio de Carvalho
Paisagismo Laurent Troost, Hana Eto Gall, Edith Eto Gall
Complementares
Engº. Raimundo Onety
Construção Helena Rabello, Daniel Herzson
Fotos Maíra Acayaba

Fornecedores

MMCité, Dellano (mobília);
Flora Eto Paisagismo (paisagismo);
Gerdau (aço corten)

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 449
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