PERFIL

Gui Mattos Arquitetura

Primeiro o polo aquático e, em seguida, o surfe perderam um candidato a atleta profissional. Embora depois de formado ainda tivesse se dedicado por mais um ano ao esporte, foi mesmo a trilha da arquitetura – “sempre fui fascinado pelos espaços”, ele conta - que Gui Mattos acabou percorrendo. Formado em 1986 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos (FAU Santos), Mattos lidera hoje um escritório que conta com mais de 20 colaboradores, responsáveis por projetos consistentes e maduros. “Persigo a não repetição. Não tenho fórmula estrutural, construtiva e, tampouco, formal. Procuro algo que sempre vista bem o propósito do projeto”, afirma o arquiteto ao discorrer sobre a maneira que desenvolve seus trabalhos

Equipe do escritório Gui Mattos Arquitetura, por Leonardo Chen

O balanço que se projeta em direção à via, sombreando o acesso ao edifício da rua Estados Unidos, no Jardim América, em São Paulo, sugere existir ali a mão de um bom arquiteto. E, de fato, há. A construção foi projetada, na década passada, por Isay Weinfeld. Não fosse o funcionário que, quase sempre presente, indica e abre a porta, não seria exatamente fácil identificar a entrada da enigmática caixa que, sucedida por uma antecâmara fechada, leva ao interior da construção.

O térreo é compartilhado pelas galerias de arte Studio Nóbrega (para a qual o conjunto foi projetado) e ArtEEdições, e os dois pavimentos superiores são ocupados pelas instalações do Gui Mattos Arquitetura, escritório cuja equipe é atualmente constituída por 24 colaboradores, liderados pelo arquiteto que dá nome ao estúdio e que, sem maiores esforços de divulgação, vem seguidamente conquistando admiradores e a atenção da mídia especializada. Sua agenda era intensa no início de dezembro passado, mês em que a uma crise de labirintite se seguiu a apresentação do estudo inicial de uma capela, encomendada pelos netos para uma senhora altiva e elegante, e a viagem para Miami, para uma visita ao local de um trabalho em prospecção. Com o projeto do espaço ecumênico para momentos de recolhimento e meditação, como o autor o designa, Mattos revelou, pouco tempo depois da reunião com a família, que satisfazia assim uma de suas vontades como arquiteto.

Outra ambição que confidenciou alimentar é a de desenvolver o projeto de um aeroporto. “Quem sabe, um dia, apareça um louco para isso”, brincou.

De Santos ao Litoral Norte

Não são insanos os clientes que contratam o escritório. Ou assim alguém consideraria, por exemplo, o empresário Otávio Zarvos, mentor e sócio da incorporadora Idea!Zarvos. Ou ainda que Alex Atala, proprietário e chef dos aclamados restaurantes D.O.M e Dalva e Dito (para quem Mattos projetou o D.O.M. Hotel - veja adiante), não possui juízo? Zarvos recorre aos serviços do estúdio para os projetos de seus empreendimentos há mais de uma década - o 4 x 4, primeiro prédio residencial lançado pelo empresário em 2006 (PROJETO 353, julho de 2009) foi projetado por Mattos. Já Atala é um dos clientes mais recentes. Ambos os projetos foram desenvolvidos na capital paulista, mas a trajetória de Mattos como arquiteto - e, simultaneamente, construtor - começou no litoral Norte de São Paulo. “Minha faculdade prática foi lá”, avalia.

Nascido em São Paulo numa família composta por quatro irmãos, Mattos mudou-se para o Guarujá quando, no início da década de 1980, ingressou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos. A mudança não foi só de cidade. No litoral, o jovem que sonhava em tornar-se atleta profissional (no polo aquático, disputou torneios pelos clubes Harmonia e Paulistano) trocou de esporte: passou para o surfe. Como ia para a faculdade no período vespertino, passava todas as manhãs surfando no mar do Guarujá. O desejo de tornar-se profissional desse esporte perdurou mesmo após o término da faculdade, e ele conseguiu até patrocínios num período em que a modalidade ainda não tinha a atual projeção.

A identificação com a arquitetura veio já na infância, quando já se manifestava a habilidade para o desenho à mão. “Torrei muitas das minhas mesadas e a de meus irmãos em papel e lápis de cor”, lembra, observando que não se importava quando a mãe o colocava de castigo. Passava horas trancado desenhando e esquecia a punição. O arquiteto recorda quando, por volta dos dez anos, seu pai - empresário que atua na revenda de automóveis - contratou o projeto de uma residência (trabalho de autoria do arquiteto Marcos Tomanik) e da sensação que o volume de plantas e documentos técnicos lhe causou. Lembra-se também das dezenas de vezes que, durante anos, acompanhou o pai em visitas à obra da casa, no Morumbi, em São Paulo. Quando decidiu cursar arquitetura, os olhos do pai brilharam: “Acho que ele tinha vontade de ser arquiteto”, diz Mattos.

Autodidata   

Na faculdade, Mattos reconhece não ter sido um aluno brilhante - todo o tempo livre aproveitava para surfar, ele justifica - e não tem recordações muito vivas dos professores. Lembra-se, porém, que Maurício Nogueira Lima, Ruy Ohtake, João Walter Toscano e Oswaldo Correa Gonçalves lecionavam na FAU Santos. Quase não acompanhava os arquitetos internacionais, ele confidencia, mas recorda ter adquirido um livro com as obras de Kenzo Tange e se identificado com os trabalhos do japonês. A dedicação constante ao esporte e a não vinculação a correntes e movimentos da época contribuíram para que Mattos tenha, de certa maneira, percorrido uma trajetória à margem do establishment arquitetônico: “Fui quase um autodidata”, ele considera . Seus primeiros trabalhos foram residências de veraneio no litoral norte de São Paulo, as quais ele também construiu.

Depois da faculdade, Mattos morou por um ano em São Paulo, mas o convite de um amigo surfista para projetar uma casa em Maresias levou-o novamente ao litoral, dessa vez para Camburi, em São Sebastião. Ali ele comandava a obra e sua equipe de carpinteiros, pedreiros, eletricistas e encanadores. No litoral também projetou bares e restaurantes. O primeiro foi o Bar do Meio, em Maresias, construído com placas de Madeirit. “Não tinha nada de arquitetura, mas vendeu muita cerveja”, conta, aos risos.

Casa noturna em Maresias   

Nesse tipo de projeto, o que lhe trouxe mais reconhecimento foi o Sirena, casa noturna construída em Maresias. Um amigo contou haver um grupo que tinha intenção de construir uma boate na região e ele gostaria que Mattos desenvolvesse o projeto - outros membros do grupo preferiam confiar o encargo a outro profissional. Depois de receber a notícia, Mattos - que já fazia uso de computador e do programa DataCAD - passou uma noite em claro desenvolvendo a ideia do que acreditava ideal para a futura boate. “No dia seguinte pela manhã, falei para esse amigo que podíamos apresentar o projeto. Exibi alguns desenhos impressos e fotos de uma maquete ainda tosca feita no computador. O grupo ficou empolgado e decidiu me contratar”, recorda.

O terreno era grande, meio pantanoso. Ao visitá-lo com o cliente e o construtor, este apontou a área que considerava adequada para a construção. “Discordei. Coloquei a galocha, sai andando no meio do mato, achei uma clareira e gritei: é aqui que vamos fazer”, reconstitui. “Foi uma obra difícil, mas quando ficou pronta, era uma balada dentro da Mata Atlântica. Foi a primeira vez que eu fazia uma coisa com aquela dimensão. Deu frio na barriga”, revela.

O Sirena continua funcionando até hoje. “Trocou de mãos, foi reformado, virado de ponta-cabeça. Mas os que o conheceram nos primeiros cinco anos sabem que não tinha lugar igual”, comenta Mattos. Os trabalhos como arquiteto e construtor no litoral (realizados predominantemente para um público que residia em São Paulo) continuavam. Porém, depois de quase uma década, quando o primeiro filho fez três anos, decidiu retornar para São Paulo.

De volta à capital                                                                                                 

Nessa mesma ocasião, Mattos tomou a decisão de encerrar o ciclo de construtor e focar o seu trabalho em projetos. Seu primeiro escritório paulistano ocupava a edícula de uma residência na avenida Brasil, que o pai convertera em uma revenda de carros. “Comecei o escritório com um estagiário, depois outro, demorou um bom tempo até ter coragem para contratar um arquiteto.” Já em São Paulo, Mattos projetou várias residências e restaurantes, “de dez a quinze”, calcula. “Hoje, nenhum está de pé, mas, na época, vários fizeram sucesso”, assegura. Nesse retorno, projetou para Otávio Zarvos (a quem conheceu na época do polo aquático) um condomínio de residências no Morumbi, todas comercializadas. Algum tempo depois, Zarvos - que ainda não havia constituído a incorporadora que tem seu sobrenome - encarregou-o de projetar um edifício residencial em Pinheiros.

O 4 x 4 - nome que reflete a modulação adotada no trabalho - (PROJETO 353, julho de 2009) foi uma espécie de predecessor da forma de atuar que depois distinguiria a Idea!Zarvos. O principal diferencial do condomínio era o fato de que as unidades não tinham plantas predeterminadas - nem mesmo as áreas de banheiros e cozinhas. O empreendimento foi o primeiro dos oito projetos desenvolvidos pela equipe para a incorporadora até o momento.

Sem fórmulas prontas   

No que diz respeito à expressão plástico-arquitetônica, não se deve procurar repetições entre os projetos do Gui Mattos Arquitetura. Mas suas soluções têm sido consistentes, e se a intenção é apontar pontos em comuns estes são a busca pela integração com a paisagem, grandes vãos, aproveitamento da luz natural e ventilação, e funcionalidade, como se observa nos conjuntos comerciais Módulo Bruxelas (PROJETO 398, abril de 2013) e Une (PROJETO 438, julho/agosto de 2017).

“Não tenho fórmula estrutural, construtiva e, tampouco, formal. Procuro algo que sempre vista bem o propósito do projeto”, pontua o arquiteto. Não se deve esperar, portanto, que Mattos projete casas ou edifícios apenas em estrutura metálica ou concreto. “Posso fazer um ou outro se considerar adequado. Da mesma maneira, farei coisas redondas, quadradas, triangulares, procurando sempre soluções alternativas. Porém, ninguém me verá reinventando a roda”, observa, destacando que, no escritório, a busca é por um projeto que funcione e dentro da expectativa de custos do cliente.

“O bom arquiteto é o que se adapta às situações do projeto e resolve as situações. Não adianta apenas o cliente dizer que gostaria de construir barato. Se quer construir com custos menores, estudamos como fazer para viabilizar, mas o cliente tem que abrir a cabeça para nossas sugestões. Gosto dessa troca com cliente e acho que nos alimentamos disso”, discorre.

Modus operandi   

“O escritório gosta de fazer coisas bacanas, baratas e rápidas. Mas só é possível escolher duas, porque, juntas, as três não funcionam. Para ser barata e bacana, é preciso tempo de pesquisa. Se quiser rápida e bacana, vai custar caro, por ficar à mercê de quem pode entregar com qualidade e rapidez. E se quiser barata e rápida, vai sair uma porcaria”, discorre Mattos para explicar como, de uma maneira geral, o escritório se comporta com relação aos encargos que lhe são confiados.

No estúdio, o atendimento inicial aos clientes é, quase invariavelmente, realizado pelo arquiteto e as primeiras ideias de como solucionar determinado programa também decorrem da sua leitura do programa. José Rocha, Leonardo Chen, Riccardo Buso, Ana Guimarães e Fernanda Alencar, atuais coordenadores de equipes, são unânimes em apontar a notável capacidade de Mattos em encontrar, por exemplo, o ponto mais adequado do terreno para implantar o projeto.

Ao contrário de outros profissionais que costumam esboçar a solução inicial com a ajuda de croquis, nessa fase Mattos já recorre ao computador - para modelar como se costuma de dizer no jargão da profissão. Elimina-se, assim, a etapa que consiste em transferir o desenho à mão para ser esboçado no computador. A adoção de um único programa para responder às diferentes etapas do projeto é uma das características que distingue o escritório.

No momento seguinte, a solução inicial é submetida à equipe - segundo os coordenadores, se convencido, Mattos não tem dificuldade em recuar caso uma outra ideia funcione melhor. “Gosto dessa primeira criação. Mas teve vezes que a viraram do avesso e não por sugestão minha. Não sou um louco vaidoso, egocêntrico que fala que aqui só sai do meu traço. Se acho legal, pode ser um estagiário que dê uma ideia”, diz Mattos.

Como ele compartilha o espaço de trabalho com a equipe, a troca de informações e impressões é fluida Definido o conceito, o desenvolvimento das diversas fases do projeto é confiado a um dos coordenadores (Maria Julia e Fernanda respondem pelos projetos de interiores e Chen, Rocha e Riccardo, pelas equipes de arquitetura) que, daí em diante, farão o meio de campo com os clientes - eventualmente com a presença de Mattos.
 

ENTREVISTA

Sua equipe de colaboradores é estável, algo não muito comum nos escritórios de arquitetura. A que se deve e qual a importância desse fato?                           

Nosso principal ativo são as pessoas com quem trabalhamos e criamos relações por longos anos. Temos um tamanho que nos permite cuidar muito bem de cada projeto e mensurar de forma adequada o tamanho da equipe. Não tem sido nada fácil atravessar esses últimos anos de recessão, mas a escolha sempre é pelas pessoas.    

Ao contrário da maior parte dos recém-formados você não realizou estágios em escritórios de arquitetura. Aprendeu na prática, construindo casas e bares no litoral. Hoje você repetiria essas escolhas?     

Na época, 1986, eu ainda estava muito envolvido com outras atividades que me “amarravam” ao mar. Foi unir o útil ao agradável. Depois do convite de um amigo, para fazer sua casa no litoral apareceram outras e mais outras. Como tudo na vida, teve o lado positivo e o não tão positivo. Pude aprender muito no canteiro de obras, o dia a dia da construção, a prática do projeto versus a realidade da execução. De alguma maneira, fiz uma arquitetura autodidata.  Por outro lado, deixei de me envolver com algum escritório e participar de projetos com escalas maiores, em processos mais profissionais. Não sei onde estaria caso fosse ao contrário.  

Além dos integrantes da equipe, quem são seus interlocutores no meio arquitetônico? Existem profissionais brasileiros ou do exterior que você tenha em consideração?                                                                                                      
Tive oportunidade de trabalhar em dois projetos com o arquiteto mexicano Ricardo Legorreta. Aprendi muito no cuidado com o detalhe, no tratamento com os clientes e todos os envolvidos com a obra. Um verdadeiro maestro. Durante  anos, por sermos o escritório responsável pela padronização das revendas de automóveis Audi no Brasil, tivemos um intercâmbio bastante intenso com o departamento de desenvolvimento de design da matriz alemã. O que não é pouca coisa, se levarmos em consideração o porte mundial da Audi. Todas as experiências com outros profissionais são muito válidas. Gosto muito de observar os processos, de como são conduzidos os projetos. Do lado da arquitetura são inúmeras as fontes que servem de modelo. Para ser sincero, admiro qualquer profissional, de qualquer área, que busque a excelência e ainda mais os que a alcançam.  Diretamente na arquitetura tenho um filtro triplicado, para não “contagiar” nosso caminho.

Da sua experiência de mais de 30 anos, que recomendações daria para os iniciantes em arquitetura?                                                                                        

Tenho um sobrinho de 11 anos que falou que queria ser arquiteto e me perguntou o que deveria fazer. Disse para ele começar a perceber quais os lugares que, de alguma maneira, despertavam algo nele. De bom e de ruim. Observar quais eram as sensações e tentar relacioná-las com o local e guardar essas impressões em algum lugar dentro dele. Depois, para reforçar o aprendizado, tentar, da sua maneira, desenhar esses lugares trazendo à tona as respectivas sensações.  Com isso, acredito que ele vá adquirindo uma bagagem de emoções relacionadas aos espaços. Pura arquitetura.

Qual a projeção que você faz para seu escritório no futuro?                               

Em duas décadas vou estar com 75 anos! Serão 50 anos de arquitetura.  Espero ter muita saúde e lucidez para poder, junto com meus clientes, continuar a desenvolver espaços únicos. Ter a habilidade de interpretar os sonhos e, com sabedoria, projetar espaços funcionais e diversificados. Continuar a perseguir a solução que não está em nossas prateleiras. Reinventar, reinventar, reinventar. 

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 441
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