PERFIL

LoebCapote Arquitetura e Urbanismo

“Vai ser uma renovação de energia”, antevia, no início de agosto, o arquiteto Luís Capote, sócio do LoebCapote Arquitetura e Urbanismo, ao falar sobre a mudança de sede do escritório para a rua Groenlândia, 80, no Jardim América, em São Paulo, programada para o final daquele mês. “Jogamos muita coisa fora. Muita, muita, muita”, enfatizava o arquiteto. Para Roberto Loeb, o outro sócio, seria a oitava mudança de endereço, desde que, ainda na década de 1960, ele constituiu o primeiro escritório. Para Capote, a terceira, porém a primeira de que participa como sócio. “Recebemos uma proposta que consideramos interessante e vendemos”, conta Capote sem revelar maior apego ao sobrado da rua José Maria Lisboa, onde trabalhou por mais de 15 anos. Loeb e Capote têm como braços direitos (e associados) Damiano Leite e Chantal Longo. Como uma afinada orquestra, esse time “interpreta” tanto programas específicos, como o de uma fábrica de tintas para impressão de papel moeda, quanto os interiores de uma multinacional. A diversidade de projetos é, desde sempre, intrínseca ao escritório. Já a produção arquitetônica coletiva, em equipe, é mais recente - ganhou vigor quando uma nova geração de profissionais juntou-se ao talentoso Loeb


Da esquerda para a direita: Chantal Longo, Roberto Loeb, Luis Capote e Damiano Leite

Armazenado em tubos de papelão no sótão aberto, parte do acervo do escritório Loeb Capote Arquitetura e Urbanismo, somado aos livros da biblioteca, ocupavam ambientes do piso superior do sobrado da rua José Maria Lisboa, no Jardim Paulista, em São Paulo. Eles permaneciam intactos na segunda quinzena de julho deste ano, ainda que dezenas de caixas sobre as mesas e sacos pretos espalhados pelo chão sinalizassem a iminente mudança do escritório.

Dessa vez, porém, não seria mais uma das alterações que, ao longo de quase 15 anos, foram sendo realizadas no imóvel - ora expandindo, ora encolhendo - desde que o escritório o ocupou como sede em 2004. Muitos anos antes, porém, parte do edifício já abrigava o acervo do arquiteto Roberto Loeb, formado em 1965 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e que poucos anos depois constituiu, com outros dois sócios, seu primeiro escritório, o GLL Arquitetura. Foi nessa construção que os trabalhos de Loeb ganharam maior dimensão e complexidade.

Foi também ali que, a seu convite, Luís Capote tornou-se seu sócio, o que contribuiu para que o escritório passasse a produzir arquitetura de forma mais coletiva e, profissionalizando-se, fosse menos sujeito aos altos e baixos que, em geral, acompanham a trajetória dos escritórios brasileiros.

Do Mackenzie ao Unibanco

Filho de imigrantes húngaros, Loeb cursou a universidade em época áurea da arquitetura brasileira, quando Brasília estava sendo inaugurada. Em São Paulo, naquela época, Carlos Milan, Vilanova Artigas, Fábio Penteado, Pedro Paulo de Melo Saraiva e Paulo Mendes da Rocha, entre outros, protagonizavam um movimento que se tornaria conhecido como Escola Paulista. “O momento era de forte vontade de construir espaço público e uma linguagem arquitetônica típica da nossa cultura”, diz Loeb.

Telésforo Cristófani (de quem foi aluno e com quem trabalhou) e Fábio Penteado - “sobretudo pela sua constante participação em concursos”, destaca Loeb - foram profissionais que tiveram influência na sua formação, assim como o estágio realizado no escritório de Rino Levi, onde teve oportunidade de acompanhar as obras do Paço Municipal de Santo André.

Pouco depois de formado, Loeb montou - em conjunto com Flávio Mindlim Guimarães e Marklen Siag Landav - o GLL Arquitetura, onde desenvolveu dezenas de projetos de estandes para feiras e exposições. “Tratando-se de uma construção muito rápida, se podia avaliar imediatamente a sua eficiência”, lembra. A experiência abriu as portas para que o escritório fosse contratado pelo Ministério das Relações Exteriores para realizar exposições em outros países.

Os sócios do GLL projetaram pavilhões temporários recorrendo a estruturas infladas e componentes metálicos, num constante exercício de construir e desmontar espaços não definitivos. “Tivemos a oportunidade de fazer ensaios e experiências espaciais muito intensas. Realizamos cerca de 40 exposições fora do Brasil”, estima Loeb.

O salto para projetos de maior escala, contudo, veio no início dos anos 1970, quando o escritório venceu um concurso realizado pelo Unibanco para a criação do complexo administrativo que construiria na rodovia Raposo Tavares, em São Paulo. Sua proposta distribuiu o programa em seis edifícios interligados por uma cobertura espacial, solução que o escritório vinha adotando nos pavilhões temporários para feiras e exposições. O projeto do Unibanco foi elaborado com os sócios, mas coube a Loeb acompanhar as obras até a sua conclusão, quando a sociedade já estava desfeita. A partir de então, o arquiteto fundou escritório com nome próprio.

O Centro de Informática da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo é um dos trabalhos memoráveis do primeiro período solo de Loeb. Foi a linguagem desse e de outros trabalhos desenvolvidos nos anos seguintes que motivou o, à época, editor da PROJETO, Vicente Wissembach, a incluí-lo no grupo de profissionais “não alinhados”, referência à autonomia de sua produção em relação à arquitetura modernista. Datam do mesmo período vários projetos de arquitetura de interiores (sobretudo para espaços corporativos) nos anos 1980.

Entre as competições internacionais de arquitetura - embora não tenha vencido nenhuma -, um dos pontos altos foi a proposta para o Centro Nacional de Artes Indira Gandhi, em Nova Delhi, na Índia. A arquitetura de Loeb já chamava a atenção naquele período também no meio acadêmico. Para Vinícius Andrade, sócio do escritório Andrade Morettin Arquitetos, que, no final dos anos 1980 cursava arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), havia nos projetos de Loeb uma “chave diferente”.

Andrade conta que ele e colegas de turma (entre eles, seu futuro sócio Marcelo Morettin) “descobriram” algumas obras do arquiteto nas publicações da biblioteca, mas foi quando André Leirner os levou para conhecer o escritório onde fazia estágio - o de Loeb - que eles estabeleceram contato mais próximo com a sua produção. “Era uma arquitetura gerada a partir de um raciocínio climático, com uma preocupação mais tropical e leve, com sistemas metálicos e pré-fabricados, diferente do que víamos na escola”, lembra Andrade.

Poupatempo e natura

A década de 1980 não foi exatamente a mais profícua em termos de volume de projetos para o escritório de Loeb, panorama que começaria a mudar apenas no início dos anos de 1990, quando o arquiteto foi contratado para projetar o Centro de Cultura Judaica (atual Unibes Cultural), no Sumaré, na zona oeste de São Paulo.

O Centro de Processamento de Dados do Unibanco - também na rodovia Raposo Tavares - e a sede da Basf, em São Bernardo do Campo (SP), projetada em parceria com Ricardo Julião, são outros projetos importantes do período. Porém, o projeto de maior repercussão naquela década - até muito mais do ponto de vista social do que de sua arquitetura -, é o Poupatempo.

Questionado sobre o que diferencia LoebCapote de outros escritórios, Loeb argumenta que é a criação de conceitos diferenciados para cada oportunidade de projeto. E menciona como exemplo esse trabalho, com o qual desenvolveu não apenas a arquitetura (das unidades Sé e Santo Amaro), mas o modelo do centro de atendimento à população, que reúne, num único local, quase todos os tipos de serviços prestados pelo governo estadual.

“Lembro-me de percorrer repartições para obter um documento e, em geral, ser atendido por funcionários num balcão elevado, sujeito a sua conveniência e humor. Em geral, depois de muita espera, pedia-se algum documento que você não sabia se deveria entregar. Não queria que acontecesse o mesmo com quem procurasse atendimento no Poupatempo”, reflete.

O Poupatempo, ao contrário, nasce da ideia de criar um lugar receptivo e acolhedor. Também em 1996, Loeb teve a oportunidade de criar para a Natura - à época uma da principais indústrias nacionais de cosméticos e, hoje, uma das mais importantes empresas do mundo em produtos de beleza e perfumaria - a unidade industrial implantada em Cajamar, na região metropolitana de São Paulo.

As edificações que, em meio à mata, surgem como agradáveis surpresas, tornaram-se um marco da arquitetura fabril brasileira e são, nesse sentido, um dos principais trabalhos da sua trajetória profissional.

Sócio

A diversidade de programas e linguagens - centros culturais, projetos sociais, complexos fabris e arquitetura de interiores corporativos - que já estava presente na sua produção intensificou-se a partir do início dos anos 2000, o que coincidiu com importantes alterações na organização do escritório. Uma das mais significativas refere-se à gestão implementada pelo arquiteto Luís Capote, sócio de Loeb desde 2004.

Há uma grande diferença de idade entre ambos - Loeb nasceu em 1941 e Capote em 1975. Capote integrou a equipe de Loeb nos primeiros meses de 2000 - no ano seguinte foi convidado para treinar na equipe que disputaria vaga no campeonato mundial de taekwondo, na Itália - quando, após novo período de baixa nos trabalhos do escritório, foi contratado para desenvolver o projeto do Santander Cultural, em Porto Alegre. O trabalho era um desafio e Capote explicou a Loeb que abriria mão da convocação se pudesse contar com a sua permanência no escritório.

Recebeu o aceite e, a partir daquele momento, mergulhou no trabalho. “Estava com dois ou três anos de formado e fui incumbido de fazer a coordenação geral do projeto”, recorda Capote. “Montei uma equipe jovem e trabalhávamos quase 24 horas por dia. Cheguei a ficar sem folga por 50 dias.” Capote ingressou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie na metade de 1993, depois de cursar brevemente Engenharia e ao mesmo tempo em que foi convocado para o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR).

Foi por intermédio de Fernando Campana, que o apresentou a Silvia Ribeiro, que ele começou a trabalhar no escritório de Loeb. Embora o projeto para o qual fora chamado não tenha prosperado (e algumas pessoas tivessem deixado a equipe), quando o escritório foi contratado para o Santander Cultural, Capote lá estava.

Gestão

Encerrado o Santander, o problema que afligia Capote reapareceu: a falta de trabalho. “Sempre havia essa instabilidade”, conta. Só depois de um ano veio a revitalização do Itaú Cultural, ao término da qual Loeb convidou Capote para se tornar sócio. O arquiteto condicionou o seu ingresso na sociedade à conquista de autonomia para equacionar a gestão, tendo recebido carta branca de Loeb. “Demiti pessoas, fiz negociações com bancos e me tornei sócio em 2004”, detalha. “Arquitetura sempre fiz, mas precisava também cuidar da gestão. E é algo que faço até hoje.”

A preocupação com o cotidiano do escritório, Capote atribui, em parte, à experiência de ter trabalhando com o avô numa loja de ferragens e parafusos. Também foi por iniciativa de Capote que, em 2005 - durante o projeto da Fator 5, uma indústria nacional de cosméticos -, a equipe incorporou uma nova tarefa às suas atividades: o gerenciamento de obras.

O arquiteto conta que, naquela ocasião, seu então sogro, proprietário de uma empresa de desenvolvimento de projetos técnicos, o incentivou a assumir tal função na construção da fábrica que seria erguida em Arujá (SP). Loeb e Capote consideraram ser uma oportunidade para regularizar a entrada de recursos no escritório.

Inicialmente houve parceria com a empresa de projetos técnicos, mas, depois foi preciso que o escritório assumisse a totalidade da atividade na Fator 5. “Aprendemos na raça”, confessa Capote.

A experiência conferiu ao escritório confiança para, ao ser um dos 30 participantes da concorrência para o projeto do Centro de Tecnologia da Mahle, em Jundiaí (SP), agregar esses serviços à sua proposta comercial. Para o sócio do LoebCapote tal estratégia contribuiu para que o escritório vencesse a licitação.

Associados

Ao contrário de Capote - que decidiu cursar arquitetura quase no final do ensino médio -, Damiano Leite conta que desde os 10 anos planejava ser arquiteto, sobretudo por influência da mãe, arquiteta. Leite formou-se pela FAU/USP em 2001, mas começou no escritório de Loeb em 2000, como estagiário. Fez parte da equipe que Capote coordenou no Santander Cultural.

Em 2012, Leite foi convidado para participar, como associado, das empresas LoebCapote Arquitetura e Urbanismo e Ybyraa - esta, braço do escritório responsável pelo gerenciamento de projetos e obras. Embora esteja vinculado ao gerenciamento das construções, ele também participa do processo criativo - a arquitetura do escritório é, cada vez mais, de natureza coletiva. “Nunca tivemos o mesmo tipo de projeto, a mesma equipe e tampouco as pessoas fizeram sempre atividades repetidas”, afirma.

Mais recente associada ao escritório - começou na equipe em 2009 e três anos depois tornou-se associada - Chantal Longo cogitou tornar-se arquiteta ainda na infância, numa fase em que o pai, hoteleiro, começou a construir um hotel em Botucatu (SP), cidade onde ela nasceu. Depois de trabalhar na construtora Resiplan, ficou sabendo de uma vaga no escritório paulistano e se candidatou.

Entrevistada por Loeb, Capote e Leite, foi incorporada à equipe que, à época, estava envolvida com o projeto do Centro de Distribuição da Avon, em Cabreúva (SP), e com o retrofit dos interiores administrativos da Ericson, em São Paulo, além das instalações da Cocamar, em Maringá (PR).

Segundo Chantal, suas principais atribuições no escritório são atualmente a coordenação das equipes, o desenvolvimento dos projetos e a coordenação desses com os clientes. “Não temos separação nítida e inflexível dos projetos. Na organização, eu e o Damiano nos complementamos na coordenação e desenvolvimento”, observa.

Indagada sobre o que a motiva hoje no trabalho, ela explica que, além das pessoas, é o fato de o escritório não atuar em um único segmento. É sempre um novo desafio, um novo projeto, uma nova experiência”, ela conclui.

ENTREVISTA

Quais as perspectivas para os escritórios de arquitetura?
Roberto Loeb Para mim, trata-se de um momento de reflexão sobre a construção do país através da conceituação de espaços urbanos e arquitetônicos. Contribuindo para o convívio, tanto na área urbana quanto na rural, a favor de uma vida mais justa, acessível. É um momento de transposição que vem se desenhando há mais de dez anos. Existem ótimos projetos - e ótimos arquitetos trabalhando pontualmente -, mas eu diria que está faltando a síntese política, da arquitetura como objeto de inclusão social. Tenho muita desconfiança de espaços extremamente funcionais, mas sem alma. Diferente da literatura - se você escrever um mau livro, o máximo que pode acontecer é não ser lido -, a arquitetura impacta no cotidiano das pessoas.

Qual a sua principal contribuição na trajetória do escritório?
Luís Capote Acho que entrei com sangue novo. Temos uma diferença muito grande de idade, o Roberto tem 78 anos e eu 44. Nossas visões são completamente diferentes em algumas coisas, mas acho que isso é bom porque as discussões acabam sendo produtivas. Vai fazer 20 anos que estou aqui. Tem hora que tem muito projeto e não tem equipe, tem hora que tem equipe e não tem projeto. É uma equação contínua e, como em qualquer convívio, há entendimentos e desentendimentos.

Como você define a arquitetura feita hoje pelo escritório?
LC Nós fazemos de tudo um pouco. Na área industrial, os projetos são diferentes um do outro. A Danone é uma fábrica de leite em pó, a Knor Bremse, de freios para caminhão e trens. É por isso que falamos em projetos complexos. Em uma indústria, o cliente sempre acha que sabe o que quer, mas, a rigor, ele vai descobrir aos poucos que não sabia.

Damiano Leite A arquitetura do escritório não tem uma estética definida. Acho que nossa característica é o envolvimento com os problemas dos clientes de forma a entender a fundo suas necessidades e, juntos, darmos uma solução, em vez de termos fórmulas e formas prontas. É cansativo, mas tem resultado bom.

Chantal Longo Um ponto que admiro é o estudo, o aprofundamento no uso e a busca por soluções que, de fato, atendem a necessidade do cliente. Nossa arquitetura é sempre reflexo disso. Às vezes, há coisas que nem mesmo o cliente estava enxergando e nós, com a experiência de outros projetos, conseguimos identificar e solucionar na arquitetura. É um trabalho sempre próximo do contratante, do passo a passo mesmo.

Texto de Adilson Melendez e Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 450
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