PERFIL

Reinach Mendonça

Amigos desde a adolescência e formados na turma de 1980 da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), Henrique Reinach e Maurício Mendonça já tinham alguma bagagem profissional e certa clientela quando decidiram se associar, em 1987. Apesar dos obstáculos impostos pela montanha-russa da economia brasileira daquela época, os sócios permaneceram unidos e conseguiram manter o crescimento estável do escritório ao longo dos anos. Hoje se orgulham de sua equipe e dos programas oficiais de desenho utilizados em todos os computadores. “Tudo aqui é uma beleza agora, mas já houve tempo em que a gente via o fim do mês chegar sem saber como pagar salários e aluguel”, lembra Reinach. Com quase 40 anos de formados e com a amizade ainda mais sólida, Reinach e Mendonça se declaram avessos ao rótulo de especialistas em residências, perseguem novos desafios e dão passos decisivos para o futuro do escritório

Henrique Reinach (à esquerda) e Maurício Mendonça (Foto: Ana Ottoni)

De frente para uma grande praça no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, o edifício horizontalizado de apenas três andares e seis conjuntos de escritórios abriga a sede do Reinach Mendonça Arquitetos Associados, que ocupa meia laje de dois pavimentos interligados. Brises metálicos, elementos vazados e as copas das árvores já crescidas oferecem proteção contra o sol da tarde. A luz natural e uma brisa fresca ajudam a compor interiores bastante agradáveis.
Projetado por Henrique Reinach e Maurício Mendonça, o edifício é considerado um divisor de águas na história do escritório. “Saímos de três salas alugadas para uma sede própria. O terreno foi adquirido em sociedade com investidores, donos da outra metade do prédio. Nós administramos a obra e nos mudamos para cá em 2001”, conta Reinach. “Esse projeto foi decisivo para ganharmos o Prêmio Asbea 2003 - Escritório do Ano, pelo conjunto de nossa obra”, completa Mendonça. Naquela edição do prêmio promovido pela Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea), o escritório foi laureado duas vezes na categoria Edifícios de Serviços com os projetos de sua sede e da Academia Sumaré Sports, além de ter recebido menções honrosas por duas residências, uma em São Paulo e outra em Barueri (SP) [PROJETO 286, dezembro de 2003].

Incentivo familiar

Para chegar a esse ponto da carreira, os sócios percorreram juntos uma longa trajetória. Eles se conheceram ainda na adolescência no Santa Cruz, um tradicional colégio da zona oeste de São Paulo. “Ficamos amigos rapidamente jogando basquete e tênis”, conta Mendonça.
Quando concluiu o ginásio (atual ensino fundamental) na década de 1970, Mendonça, que então morava em Lucélia, cidade do interior paulista, aceitou o convite para vir para São Paulo com um irmão de seu pai, e fazer o colegial (atual ensino médio) no Santa Cruz, escola onde o tio era professor. “Eu tinha 15 anos nessa época. Meu tio deve ter pensado que eu não daria em nada se continuasse no interior e resolveu me ajudar”, comenta entre risos.
Nos trajetos diários entre a casa em que morava, na Vila Madalena, e a escola, no Alto de Pinheiros, Mendonça se encantava com as residências que foram construídas a partir da década de 1960 na região. Algumas delas, ele descobriu mais tarde, haviam sido projetadas por ícones como Siegbert Zanettini, Eduardo Longo e Sidônio Porto. “Eu ficava torcendo para meu tio fazer caminhos diferentes para eu poder ver outras casas.” Vem dessa época o hábito que Mendonça ainda mantém de aproveitar todo momento livre para desenhar suas casas dos sonhos: “Eu tenho uma pasta só para esses projetos imaginários”, revela.
Também na vida de Reinach existe um tio de papel determinante. Arquiteto, o irmão de sua mãe projetou a nova casa da família, no bairro paulistano de Cidade Jardim, para onde se mudaram em 1967. “Eu tinha 9 ou 10 anos e me lembro de ter ficado impressionado com a casa de arquitetura agradável e muito contemporânea para sua época. De concreto aparente, tinha portas camarão e portas com bandeira. A antiga era térrea, muito simples. Eu me lembro de perceber a diferença entre as duas. Foi ali que nasceu meu interesse pela arquitetura”, conta Reinach.
Do primeiro para o segundo ano do colegial, os alunos do Santa Cruz deveriam optar pela carreira que seguiriam no futuro, a fim de ter aulas direcionadas a seus objetivos. Ambos escolheram arquitetura e dois anos depois eram aprovados no vestibular da Faculdade de Arquitetura e Urbanisno da Universidade de São Paulo (FAU/USP).

Vida de estudante

Na faculdade eles tiveram contato e passaram a admirar professores como Eduardo de Almeida, Joaquim Guedes, Carlos Lemos, Siegbert Zanettini, Rodrigo Lefevre e Cândido Malta Campos Filho. Entre os colegas que hoje têm projeção profissional estão César Hirata e Kiko Farkas, que atuam na área de design gráfico, e Fernando Meirelles e Marcelo Machado, que seguiram pelo caminho do cinema.
Quando entrou na faculdade, Mendonça deixou a casa dos tios e foi morar em uma república com amigos. Muitas vezes ele almoçava na residência da família de Reinach, que ficava perto do campus. “A gente ia de carro procurando casas em obra projetadas pelos nossos professores. Pedíamos para visitar o canteiro e ficávamos fazendo perguntas, queríamos saber como se fazia tudo. Naquela época o Zanettini estava bombando, tinha muitas casas dele por ali, e também do Eduardo de Almeida e do Ruy Ohtake”, lembra Mendonça.
Para obter algum dinheiro extra, Mendonça fazia bicos. Entre o primeiro e o quarto ano, manteve juntamente com amigos da faculdade, um ateliê onde davam aulas de linguagem arquitetônica para estudantes que pretendiam entrar na FAU. “Alugávamos uma casa perto da USP e fazíamos propaganda nos colégios particulares. Tenho colegas dois ou três anos mais novos que eu que frequentaram o ateliê e me conhecem desde aquela época”, recorda. Vez por outra aparecia o pai de algum conhecido para encomendar um projeto, geralmente uma casa de praia. Os estudantes desenvolviam o estudo e a parte criativa, e o cliente procurava um engenheiro para fazer a parte estrutural e assinar a responsabilidade pelo projeto.

Começo de carreira

A partir de 1979, ainda como estudante, Reinach passou a estagiar na Coordenadoria do Bem-Estar Social (Cobes) da prefeitura de São Paulo, atuando em um projeto de urbanização de favelas.
Quando concluiu a faculdade, em 1980, ele continuou na prefeitura. Algum tempo depois surgiu a proposta da construção habitacional por ajuda mútua, mais conhecida como mutirão. O engenheiro Guilherme Pinto Coelho (1957-1982), que havia trazido a ideia das cooperativas uruguaias para o Brasil e pouco depois viria a falecer em um acidente, convidou Reinach para fazer a parte de arquitetura. “Eu continuei na prefeitura, mas trabalhando também em uma equipe independente para fazer esse projeto que acabou se transformando em um conjunto de 400 casas no bairro da Freguesia do Ó”, ele conta.
Logo ao sair da FAU, Mendonça foi procurado pelo primo de um amigo para projetar uma casa em Alphaville. O cálculo estrutural e a construção estavam a cargo do calculista de estrutura Walter do Nascimento Filho, titular do escritório Enge-W. “Como nos demos muito bem, Walter me convidou para constituir o departamento de arquitetura do escritório. Trabalhar lá foi um grande aprendizado porque eu ia fazendo os projetos e ele já ia me elucidando a questão estrutural”, conta.
Nesse meio tempo, Reinach e Mendonça continuaram amigos próximos e chegaram a dividir uma casa na rua Rodésia entre 1981 e 1983. Mais tarde viriam a ser padrinhos de casamento um do outro.
Mendonça permaneceu na Enge-W, repartindo seu tempo entre indústrias, galpões, estruturas metálicas padronizadas e seus projetos independentes. Em 1986 fundou sozinho seu primeiro escritório de arquitetura, incentivado pela euforia do Plano Cruzado e pelos projetos que tocava, entre eles um que Walter havia lhe passado de uma loja de ferramentas com mais de 15 mil metros quadrados que seria aberta na avenida Marquês de São Vicente. Naquele momento, ele chegou a convidar Reinach para ser seu sócio, mas o amigo ainda estava envolvido com os projetos de mutirão e recusou a proposta.
Porém, Jânio Quadros havia assumido a prefeitura em janeiro de 1986 e algum tempo depois alterou a estrutura dos projetos de habitação popular. Sem interesse em continuar no serviço público, Reinach se afastou em 1987 e procurou o amigo para saber se o convite de algum tempo atrás ainda estava de pé. Assim, foi constituído o escritório Reinach Mendonça Arquitetos Associados.

Administração de obras

No começo tudo parecia caminhar bem. Alugaram o segundo andar de um sobrado e contrataram alguns estagiários. Menos de um ano depois, já na ressaca de sucessivos planos econômicos malsucedidos, vários projetos foram cancelados e a dupla não tinha como pagar aluguel e salários. A saída foi demitir os estagiários. “Eu fiquei muito envergonhado e dizia para mim mesmo que não queria ser esse cara que precisava negociar para menos a indenização de pessoas que viviam pior do que eu. Como se não bastassem essas dificuldades, ainda tinha o senhorio, que ficava ameaçando nos despejar para conseguir aumento de aluguel”, lembra Mendonça. "Por muitos anos foi uma atitude heroica manter o escritório”, resume Reinach.
Para segurar as pontas e fazer caixa, os sócios desenvolviam pequenos projetos e administravam as obras. Foram quase 13 anos nesse ritmo, o que lhes garantiu crescimento estável e grande conhecimento de obras e sobre contratação e gerenciamento da mão de obra. “Dessa forma o escritório foi poupando dinheiro até que em 1998 foi possível comprar o terreno e construir a sede onde estamos hoje. Depois disso, deixamos de administrar obras”, detalha Reinach.

Projetos marcantes

Reinach e Mendonça nunca contaram quantos projetos desenvolveram em mais de 30 anos de sociedade. Embora muitos sejam residenciais, ambos dispensam o rótulo de arquitetos de casas. “Somos profissionais, podemos fazer projetos de qualquer tipologia. Gostamos de desafios. Cada projeto que entra aqui, e que a gente nunca fez, nos leva a pesquisar, a entender e a ver como funciona”, diz Mendonça. Para Reinach, é muito fácil se especializar, mas isso não traz prazer e acaba sendo essencialmente comercial. “Quando a gente escolhe essa profissão é porque queremos criar conhecimento, criar desafios, criar coisas novas”, declara.
Entre os projetos marcantes na trajetória do escritório, a Residência de Piracaia (casa de campo de Reinach) foi a primeiro a ser publicado na revista Projeto [PROJETO 155, agosto 1992] e conquistou o Prêmio Jovens Arquitetos do IAB em 1993. “Essa casa é de grande importância porque tem muito da paixão que tínhamos na época pelo Mario Botta. Era uma alternativa à linguagem modernista muito rígida e àquelas coisas horríveis pós-modernistas que muita gente fazia.
Foi a partir dessa casa que começamos a ganhar visibilidade, que as pessoas começaram a prestar atenção em nosso trabalho”, pontua Mendonça. Outro projeto significativo foi a Residência RN. “Um dia recebemos a ligação de um colega do Santa Cruz que trabalhava no mercado financeiro e morava em Londres. Ele nos contratou para fazer a reforma completa da casa que havia comprado em São Paulo. Era um cliente de muito bom gosto, sofisticado e suas exigências nos colocavam no alto padrão. Ele nunca perguntava preço, acatava nossas sugestões e escolhia tudo pela qualidade. Esse trabalho foi muito enriquecedor porque aprendemos a projetar e a executar obras em alto padrão e também porque nos rendeu vários outros projetos”, conta Reinach.
Depois vieram a sede do escritório, projeto de 1998 concluído em 2001, e a Casa de Vidro, vencedora ex-aequo do Prêmio IAB-SP 2004 e uma das primeiras do condomínio Quinta da Baroneza, em Bragança Paulista (SP). Ela foi publicada na revista PROJETO 303 (maio 2005) e, em 2007, ainda foi capa do livro Casas de Vidro, da Editora Monsa.
Na área corporativa, o destaque é o projeto de 2006 do escritório Souza, Cescon Avedissian, Barrieu e Flesch Advogados (desde 2018 denominado Cescon, Barrieu, Flesch & Barreto Advogados). São três andares de 800 metros quadrados no edifício E-Tower, no bairro Vila Olímpia, em São Paulo, interligados internamente por uma escada de vidro escultural (PROJETO 333, novembro 2007).
Outro trabalho importante data de 2007. Um cliente brasileiro comprou os três apartamentos do andar em um prédio de frente para o Central Park, em Nova York, e contratou Reinach Mendonça para unificar o imóvel (PROJETO 363, maio 2010). “Ficamos um ano e meio indo para lá, acompanhando a obra e nos relacionando com construtora, fornecedores e diversos profissionais. Foi uma experiência muito rica que nos trouxe familiaridade com trabalhos no exterior e rendeu outro projeto em Nova York e mais dois em Miami”, relata Reinach.

Entre aqueles que consideram os seus melhores trabalhos, os arquitetos destacam o Retrofit 9 de Julho, iniciado em 2007 e concluído em 2010. Com quase 40 anos de uso, o empreendimento Escritórios Europa, na capital paulista, foi originalmente projetado por Júlio Neves em acordo com os princípios da Escola Paulista. O conjunto era formado por duas torres interligadas por uma marquise improvisada. O projeto contemplou a abertura de um segundo subsolo, a modernização das instalações e a construção de um imponente hall de entrada de pé direito triplo para unificar os acessos, além das polêmicas fachadas envidraçadas, condição exigida pelo novo proprietário para garantir vista panorâmica para Z1, zona residencial. O projeto foi um dos vencedores do Prêmio Asbea 2010 (PROJETO 370, dezembro 2010).
Também com excelente repercussão no mercado é o projeto de incorporação imobiliária do edifício residencial Fidalga 800, entregue em 2011, em São Paulo. Seu grande diferencial foi dispor as unidades de frente e lateralmente, eliminando os apartamentos de fundos a fim de garantir a todos visão panorâmica para o bairro Alto de Pinheiros (PROJETO 386, abril 2012). O projeto que abriu portas para as empresas de loteamento foi o Bosque do Horto, da Cipasa Urbanismo, em Jundiaí (SP), concluído em 2016.
Atualmente o escritório tem 16 trabalhos em fase de projeto executivo. São residências na capital, casas de campo, reformas de apartamentos e dois grandes projetos, ambos de 2018. O primeiro são as novas edificações do Parque Geminiani Momesso, no interior do Paraná, das quais apresentamos no final desta matéria a residência do proprietário. Trata-se de um parque privado que há dez anos vem sendo moldado pelo projeto paisagístico e ambiental de Rodolfo Geiser e Christiane Ribeiro e que agora está sendo preparado para a visitação pública do seu acervo de esculturas ao ar livre. O outro abrange as novas instalações do Clube Laranjeiras, em Paraty (RJ), que devem ser construídas em 2020.

ENTREVISTA

Qual é o diferencial do escritório?
Henrique Reinach - Nosso mote é não fazer a famosa especialização da equipe. Seria muito fácil ter alguém que só faz fachadas ou só faz 3D. Procuramos, porém, oferecer uma formação global, humanista, queremos trabalhar com pessoas inteiras, mais completas, mesmo que isso signifique perder alguma produtividade. Todo mundo aqui faz de tudo e isso vale para o Maurício e para mim também. Nós dois nos relacionamos com o cliente, desenhamos e cuidamos da administração.
Maurício Mendonça - Poderíamos ocupar só metade da área do escritório, mas queremos que todos tenham qualidade de vida. Passamos o dia inteiro aqui, temos que nos sentir bem, e não apertados em cubículos como vemos por aí.

Ocorrem atritos nas discussões de projeto?
HR - Já nos trabalhos em equipe na FAU percebemos que poderíamos ser sócios. Sempre tivemos um entendimento especial para discutir, nos contrariar e marcar posição sem brigar e sem um ficar chateado com o outro.

O que é o Studio RMAA?
MM - Nossa ida para o andar de baixo [no final de 2017, trabalhando em contato direto com o conjunto de 12 arquitetos do escritório] coincidiu com a fundação do Studio RMAA do qual todos os arquitetos são sócios. HR O Studio foi criado com duas finalidades, já com olho no futuro. Uma é fazer com que haja integração profissional aqui, e outra é criar a possibilidade de prestação de serviços com preços mais acessíveis para pessoas que estejam na fase de vida parecida com as dos arquitetos que trabalham aqui ou para um mercado que não consegue pagar o nosso valor. Temos duas empresas aqui e uma ajuda a outra.

Como vocês veem o futuro do escritório? 
HR - Recentemente eu convidei o Gabriel, filho do Maurício, para trabalhar aqui. Eu sempre gostei muito do Gabriel e acompanhei o crescimento dele durante os nove anos em que fez um trabalho muito competente no Brasil Arquitetura, do Marcelo Ferraz e do Francisco Fanucci. No fim, o Maurício acabou concordando. 
MM Eu percebi que trato todo mundo igual, quase como filhos, e hoje vejo a possibilidade de o escritório crescer com a contribuição dele. Aqui o Gabriel é um sócio igual aos outros, sem regalias. Mas se alguém me perguntar o que penso em termos de sucessão, eu diria que quero ver o Gabriel tocando o escritório em sociedade com o Tony, ou a Giovanna ou o Rodrigo, e que eles se entendam tão bem quanto o Henrique e eu. Mas isso eu não posso controlar, só posso propor.

Texto de Nanci Corbioli| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 449
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