Renata Coradin e Fabrícia Zulin: Residencial Canhema II, Diadema, SP

Habitações com assistência técnica no coração de Diadema

“Não mexe com isso. É tão difícil fazer aprovação na prefeitura», aconselhou Manoel Boni, um dos líderes da Associação Oeste de Diadema, às arquitetas Renata Coradin e Fabrícia Zulin. Boni, que está à frente da entidade (fundada em 1996) que congrega moradores daquele município da região metropolitana de São Paulo, estava ciente do quanto costuma ser burocrática a aprovação de projetos. A dupla de arquitetas é responsável pelo desenho de arquitetura de quase uma centena de casas do Canhema II, loteamento residencial em que começaram a atuar em novembro de 2013

Adquirido em 2006 por um grupo de pessoas que fazem parte da Associação Oeste Diadema, o terreno do empreendimento Canhema II fica entre as ruas Karl Muller e Travessa Doutor Humberto. Entre a compra e o início do trabalho das arquitetas - de forma individualizada em cada lote -, o terreno fora fracionado em 98 lotes residenciais e teve o seu sistema viário planejado.

Em 2013, quando a associação recebeu o alvará para a execução das obras, Manoel Boni, um dos líderes da entidade, comentou com o engenheiro José Armando Loures Vieira, responsável pelo projeto de estrutura e pelas construções, a sua intenção de contratar o projeto de arquitetura das futuras residências.

Loures Vieira, então, sugeriu às arquitetas Renata Coradin e Fabrícia Zulin, na época sócias do escritório Habitar Arquitetas Associadas, que participassem do processo de seleção - a sua proposta foi a escolhida em uma assembleia que contou com a participação dos futuros moradores.

Individualizar os lotes (de dimensões que variavam entre 42 e 75 metros quadrados), entender a legislação vigente e identificar os grupos familiares que iriam ocupar o Canhema II foram as primeiras etapas do trabalho, explica Renata Coradin.

O terreno está próximo da região central de Diadema, conta com acesso relativamente fácil ao transporte público e dispõe de uma boa oferta de infraestrutura para a vida cotidiana. O escritório verificou também que o terreno pertence a uma Área de Especial Interesse Social, tem índice de aproveitamento igual a 3,0 e taxa de ocupação igual a 90%.

Combinados esses índices com outros aspectos da legislação e respeitando fundamentos que assegurassem um projeto de qualidade (como a boa iluminação e a ventilação para todos os ambientes), as arquitetas decidiram propor o escalonamento das edificações. Com base nessas informações, elas definiram duas tipologias de residências: uma unifamiliar e outra multifamiliar, para cada tipo de lote identificado.

Aprovação e acompanhamento da obra

Em resposta ao conselho de Boni, citado no início desta matéria, as arquitetas ponderaram que, se simplesmente passassem os desenhos aos futuros moradores, havia o risco de a maior parte deles ser arquivada - eventualmente seriam apresentados aos fiscais da prefeitura. Existia, porém, um obstáculo para a aprovação do projeto legal: quando foi liberado o fracionamento do terreno, as matrículas individuais dos lotes não foram concedidas em razão de dívidas do IPTU do terreno com a prefeitura.

A experiência de Renata Coradin e Fabrícia Zullin em lidar com o assunto e a compreensão dos técnicos de que se tratava de uma questão social fez com que fosse concedida uma espécie de selo para o início das obras das casas - parte dos moradores tinha urgência em construir, porque morava de aluguel ou com parentes.

Equacionada a situação - uma atitude pioneira, na avaliação do engenheiro Loures Vieira-, as arquitetas também avaliaram que, se as obras não fossem acompanhadas, haveria risco de as construções não seguirem o projeto. Para surpresa de ambas, os associados aprovaram em assembleia o pagamento de uma mensalidade para que, além da aprovação do projeto na prefeitura, elas acompanhassem as construções iniciadas em agosto de 2014.

“Era uma conta maluca, dependia do número de pavimentos e do tempo que iria durar a obra, que viabilizava minimamente ter alguém acompanhando. O que fizemos mais pela vontade de fazer dar certo do que para ter algum retorno”, recorda Renata Coradin.

Seleção pelo CAU/BR

O trabalho, então, se desenvolvia como contratação convencional até que, em 2015, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) lançou seu primeiro edital (chamada pública) de apoio à Assistência Técnica Habitacional de Interesse Social (ATHIS). “Ao ler o texto, considerei que o trabalho que estávamos realizando podia se enquadrar”, recorda Renata Coradin.

Junto com a sócia, ela preparou a documentação que o edital estipulava e submeteu-a ao conselho. O Canhema II foi um dos quatro projetos selecionados. “Começamos a perceber que o atendimento que estamos desenvolvendo junto aos moradores era assistência técnica”, comenta a arquiteta.

O apoio do conselho permitiu à Associação Oeste isentar os moradores do pagamento das mensalidades de acompanhamento da obra e aprovação legal dos projetos. “Com o recurso, conseguimos colocar uma equipe fixa no canteiro durante um ano para acompanhar as construções das moradias. Os associados pagaram pelo projeto, mas ficaram isentos de remunerar o acompanhamento das obras”, ela relata.

A arquiteta informa também que, no período durante o qual houve o aporte de recursos do CAU/BR, foram iniciadas 23 obras e houve o acompanhamento de 61. Foram também desenvolvidos 86 projetos executivos e 68 projetos legais.

 
Renata Coradin e Fabrícia Zulin

Renata Coradin é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2007), com extensão pela Universidade Técnica de Lisboa (2006), além de possuir especialização pela Fundação Politécnica da Catalunya, Barcelona, no Máster Laboratório de la Vivienda (2008-2010), e mestrado pela Universidade de São Paulo (2014). Fabrícia Zulin possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2007), com extensão pela Universidade Técnica de Lisboa (2006-2007) e mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (2013). Atualmente prepara doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (2018). Na época do projeto Canhema II elas eram sócias no escritório Habitar Arquitetas.



Ficha Técnica

Loteamento Canhema II Local Diadema (SP)
Área do loteamento 9.624, 94 m²
Cronograma do projeto 2013-2015 (fase 1: contratação coletiva pela Associação Oeste de Diadema); 2015-2016 (fase 2: Convênio de Apoio Institucional CAU/BR Modalidade Assistência Técnica); 2016-2018 (fase 3: contratação individual)
Arquitetura Habitar Arquitetas - Fabrícia Zulin, Renata Coradin (autoras); Claudia Karina de Resende (estagiária, fase 3); Studio Oficina Design Arquitetura - Alessandra Bedolini, Antônio Castelo Branco Teixeira Jr. (participação)
Engenharia José Armando Loures Vieira
Acompanhamento de obras Habitar Arquitetas; José Armando Loures Vieira; João Rafael de Almeida (estagiário 2014-2015), Woody Hernandez Colombo (estagiário 2015-2016); Felipe Garcia de Souza (participação do estudante de arquitetura e urbanismo, entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016)
Fotos Acervo Habitar Arquitetas (maio de 2017)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 4461
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