Flávio Kiefer: Centro Histórico de Vila de Santa Thereza, Bagé, RS

Sobre as ruínas do antigo, novo teatro é protagonista

Além de recuperar a história do fundador, projeto revitaliza trecho de vila operária de quase 50 mil metros quadrados e induz a renovação de todo o conjunto

Com projeto de Flávio Kiefer, foi inaugurada, no final de 2008, a primeira fase do processo de restauro e revitalização de uma gleba histórica de cerca de 50 mil metros quadrados, localizada a sete quilômetros do centro de Bagé, nos pampas gaúchos. Agora batizado como Centro Histórico de Vila de Santa Thereza, o complexo começou a ser construído em 1897 pelo português Antônio Nunes de Ribeiro Magalhães, conhecido como Visconde Magalhães.

Trata-se da vila operária modelo, de um empreendimento que chegou a ter 800 funcionários. Em sua época, Magalhães foi o segundo maior proprietário de terras do estado, em sua maioria destinadas à criação de gado. Na vila de Bagé, ele processava a carne bovina em charqueadas - salgando-a, em procedimento comum antes da refrigeração. Além das instalações industriais, das casas dos operários e da residência de Magalhães, a vila tinha estação de trem, hospital, farmácia, fábrica de gelo, padaria e armazém. Englobava também carpintaria e ferraria, e ali se produziam tijolos, ladrilhos hidráulicos e cal.

O português era tão progressista que, antes da chegada da luz em Bagé, a Vila de Santa Thereza já tinha sua própria energia gerada por uma pequena usina hidrelétrica. O lazer dos funcionários não foi esquecido: além da quadra de tênis, o complexo abrigava o Teatro Santo Antônio. Para terminar a vila, foi construído um coreto e uma capela consagrada a santa Teresa de Ávila, em cumprimento a uma promessa de Thereza, a mulher do proprietário.

O fundador morreu em 1926, mas o complexo industrial funcionou até 1962, época do último abate. A partir de então, ficou parcialmente abandonado. Até que, por iniciativa da Associação Pró-Santa Thereza, fundada em 2003, Kiefer foi contratado para intervir em uma área central da gleba. O contato partiu da assessoria cultural Telos, que havia trabalhado com o arquiteto no Centro Cultural Erico Verissimo, em Porto Alegre.

A área de intervenção do projeto de Kiefer - financiado pela Braskem Copesul - é formada por três construções vizinhas: duas casas geminadas a oeste, as ruínas do teatro no centro e a capela a leste. Partindo de informações da consultoria cultural, o arquiteto transformou a antiga edificação residencial (onde morava um dos filhos de Magalhães) em museu. Este vai centralizar as pesquisas e o acervo da memória local, e servirá também como apoio a visitantes. Além da sede da Associação Pró-Santa Thereza, a construção abriga área de exposições, um pequeno auditório (34 lugares), sala para cursos, café e serviços.

Quando Kiefer foi pela primeira vez ao local, a igreja estava em reformas. Ele restaurou a edificação - desenhada em 1909 por Pedro Obino (filho de italianos) -, que, além de missas e casamentos, poderá “receber, por exemplo, concertos de música de câmara”, propõe o arquiteto.

Do ponto de vista arquitetônico, o teatro é a peça mais interessante do conjunto. O arquiteto encontrou ruínas e ponderou não ser pertinente reerguêlo, mesmo porque havia poucos dados sobre a antiga construção. “Tínhamos o limite das fundações e a informação de que eram dois pisos”, conta.

Para que o novo edifício dialogasse com os vizinhos, a primeira peça idealizada pelo arquiteto foi uma mesa metálica que reconstituiu o perfil da antiga volumetria do teatro - “não de forma científica, pois não tínhamos a altura exata”, lembra Kiefer. Sob a mesa, o arquiteto criou a atual sala, que em sua maior parte é fechada com alvenaria pintada na cor creme - a mesma do restante do complexo -, embora alguns setores auxiliares mais baixos, como foyer e camarins, sejam de concreto aparente.

Com habilidade, a nova volumetria se alinha aos vizinhos, principalmente quando vistos de frente. O bloco de concreto do foyer possui gabarito semelhante ao do museu, enquanto a sala do teatro propriamente dita se aproxima da altura da platibanda da igreja. Por outro lado, a cota da mesa metálica cria uma escada entre as três construções, ao mesmo tempo que forma uma transição entre o alpendre da igreja e o alinhamento do museu.

Para reforçar o caráter público do espaço externo, Kiefer propôs uma esplanada frontal, que dá monumentalidade ao local. Para o arquiteto, o conjunto - que possui ainda sanitários e anfiteatro - poderá ser o indutor da recuperação de toda a gleba, tendo como eixo condutor a linha da antiga via férrea.



Flávio Kiefer

Flávio Kiefer graduou-se (1979) e fez mestrado (1998) na UFRGS. É professor da Ulbra. Entre outros projetos, é autor da Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, e da Casa de Cultura de Esteio



Ficha Técnica

Centro Histórico de Vila de Santa Thereza
Local Bagé, RS
Início do projeto 2004
Conclusão da obra 2008
Área do terreno 47.914,41 m²
Área construída da intervenção 2.042 m²
Arquitetura, gerenciamento de projetos e fiscalização da obra Flávio Kiefer (autor); Marcelo Kiefer e Roberta Lopes (colaboradores); Pedro Pan (desenho)
Consultoria cultural Telos - Fernando Schuller e Pedro Longhi
Estrutura Padoin & Sachs - Jayme Padoin, Renato Sachs, Geraldo Raffin Padoin e Tomás Velho Rodrigues
Instalações Filippon - Marcos Filippon e Daniel Filippon
Luminotécnica Maria Cristina Maluf
Paisagismo Lair Ferreira
Comunicação visual Bloco Arquitetura
Consultor cênico João Acir
Orçamento e administração Planitec - José Carlos Goulart
Gerenciamento Ramos Andrade Engenharia - Daniel Andrade
Execução Aguiar Engenharia - Divino Aguiar
Fotos Fabio Del Re

Fornecedores

Tederke (estruturas metálicas);
Coral (tintas);
Docol (metais);
Deca (louças);
La Fonte (fechaduras)

Texto de Fernando Serapião| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 352
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