Sanaa: Museu do Louvre, Lens, França

O Louvre fora do palácio

Nas últimas duas décadas, grandes museus do mundo abriram sucursais em lugares distantes de suas sedes originais, disponibilizando seus preciosos acervos e suas marcas, a fim de se tornarem indutores da revitalização urbanística e publicitária.

O movimento iniciado quando o nova-iorquino Guggenheim aportou na então decadente cidade industrial de Bilbao, na Espanha, teve continuidade com o Centro Pompidou em Metz e, em dezembro último, com o desembarque do Louvre em Lens, no norte da França. 

A fórmula baseia-se na elaboração de projetos que pressupõem recursos formais e materiais espetaculares para a criação de uma imagem midiática, pois cumprem o papel central de fomentar o imaginário das massas que constituem a sociedade de consumo contemporânea.

O sucesso dessas operações costuma ser medido pelo quão fotogênica é a edificação resultante, mas o projeto elaborado pelo escritório Sanaa para a filial do Louvre é uma exceção a essa lógica. Lens é uma localidade modesta, que contrasta com a magnificência do acervo da instituição parisiense.

A proposta da dupla japonesa Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa não cria uma construção que cause impacto por sua contraposição ao lugar; pelo contrário, o edifício do Louvre integra-se à paisagem sem impor sua presença. Ela não se pauta pela simples criação de uma imagem arquitetônica midiática, mas explora maneiras distintas de interpretar a história contada através dos objetos do acervo.

O projeto estabelece relações muito sutis com o entorno e com a arte que apresenta, a partir do elemento material que o caracteriza mais fundamentalmente: a pele de alumínio anodizado e polido, cuja superfície reflete e desfoca o que está diante dela.

Esse invólucro se insere sublimemente na paisagem, de modo que os planos das fachadas se mesclam e se desmaterializam sob a névoa e a luminosidade comuns nessa região.

COMO NO MASP
O conjunto edificado é composto basicamente por cinco grandes caixas com suaves inflexões, fragmentadas segundo os programas de cada espaço e agrupadas sem que haja um sequenciamento linear. Ele foi implantado num terreno onde décadas atrás explorava-se uma mina de carvão, de modo que a intermediação entre a edificação e a malha urbana de Lens se dá por um grande parque elaborado conjuntamente com o museu.

Trecho do interior do edifício de interação mais franca com o contexto envolvente, o bloco central tem perímetro todo envidraçado e abriga o hall de acesso, cuja função de comunicação entre os distintos espaços do museu se assemelha à do Carrousel idealizado por I. M. Pei em sua intervenção no Louvre parisiense.

Esse espaço do museu de Lens é fragmentado por “bolhas” de vidro (dando origem a diversas camadas de reflexão e transparência) onde se localizam os setores de apoio da instituição e serviços como a cafeteria, a pequena loja e a livraria.

Tendo como referência o bloco de acesso, por um lado há dois volumes que abrigam o local para exposições temporárias e o auditório. Na porção oposta, encontram-se o pavilhão expositivo de vidro, para artistas locais, e o principal espaço do museu: a Galeria do Tempo, salão de 125 metros de comprimento em sutil declividade (remanescência da topografia do terreno), que acolhe parte do rico acervo da instituição.

Contrapondo-se à palaciana sede parisiense, dividida em departamentos organizados por critérios temporais, temáticos e geográficos, em Lens os seis milênios da arte que constituem a coleção permanente se apresentam em um único espaço, a uma só vista.

Como na proposta expositiva de Lina Bo Bardi para o Museu de Arte de São Paulo (Masp), os quadros não estão dispostos nas paredes do perímetro da Galeria do Tempo, de modo que a arte coabita o espaço do público, o miolo do salão.

O visitante não se põe diante de uma única obra, mas do conjunto, com as pessoas movimentando-se por entre os objetos expostos. As paredes de alumínio, mesmo material utilizado nas fachadas, tornam essa galeria uma versão do século 21 do Salão dos Espelhos de Versalhes: a imagem que se reflete de maneira embaçada e difusa é a história da humanidade, ali apresentada por meio daqueles preciosos objetos.

O novo esgarça o antigo. O alumínio desfaz a nitidez que temos do nosso patrimônio, disformando a narrativa elaborada no Louvre enciclopédico. A grande contribuição do Sanaa, em Lens, é contrapor-se à imagem literal e à óbvia espetacularidade que têm sido tônica nos museus‑franquias recentes.

A dupla japonesa, através da matéria que constitui a pele de sua edificação, insinua uma possibilidade de interpretação de nossa história, que se distingue da excessiva clareza da sociedade contemporânea baseada na informação. A fenomenalidade proposta restitui certo mistério à nossa compreensão do mundo.

Sanaa: O escritório japonês Sanaa ficou mundialmente conhecido quando seus sócios, Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, conquistaram o Prêmio Pritzker em 2010. Fundado em 1995 e atuando no Japão, Europa e América, figuram no portfólio do escritório projetos como o do Museu de Arte Contemporânea de Nova York e outros prêmios, como o Leão de Ouro pela melhor mostra, em 2004, da Bienal de Arquitetura de Veneza, da qual Sejima foi curadora em 2010



Ficha Técnica

Museu do Louvre
Local: Lens, França
Área construída: 28.000 m2
Área do parque: 20 hectares
Cliente: Região Nord-Pas-de-Calais
Arquitetura: Sanaa - Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa (autores); Yumiko Yamada, Yoshitaka Tanase, Louis-Antoine Grégo, Rikiya Yamamoto, Kohji Yoshida, Lucy Styles, Erika Hidaka, Nobuhiro Kitazawa, Bob van den Brande, Arrate Arizaga Villalba, Guillaume Choplain, Osamu Kato, Naoto Noguchi, Shohei Yoshida, Takashige Yamashita, Takashi Suo, Ichio Matsuzawa, Andreas Krawczyk, Angela Pang, Jonas Elding, Sam Chermayeff, Jeanne-François Fischer e Sophie Shiraishi (equipe)
Paisagismo: Mosbach Paysagistes - Catherine Mosbach, Atelier 122, Delphine Elie, Jessica Gramcko, Etienne Haller, Jennifer Mui, Solène Leray, Pauline Rabin, Le Gall, Marie Ross, Jean-François Seaju e Eiko Tomura Museografia Studio Adrien Gardère - Adrien Gardère, Lucie Dorel e Mathieu Muin
Gestão da obra: ExtraMuros - Michel Lévi, Antoine Saubot, Mathilde Bedu, Delphine Isart, Valérie Le Berre, Takako Sugi, Naori Yamazoe, Dimitri Feve, Emmanuel Flament, Julien Gervais, Perre Keszler, Manuel Martins e Camile Spender (equipe); Antoine Belin – Joëlle Martin, Séverine Estela, Noémi Canlers (equipe)
Fotos: Hisao Suzuki

Texto de Francesco Perrotta-Bosch| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 397
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