Santiago Calatrava: Museu do Amanhã, Rio de Janeiro

Museu de dupla escala

Concebido pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, o Museu do Amanhã, na zona portuária carioca, tem partido escultural e grande escala, abrigando exposições audiovisuais de caráter intimista.

Foi inaugurado no final de 2015, no Rio de Janeiro, o Museu do Amanhã, projeto de Santiago Calatrava com a parceria local do escritório Ruy Rezende Arquitetura. Iniciada em 2010, a concepção da obra pelo arquiteto espanhol se relaciona com a remodelação urbana do entorno da praça Mauá, assim como com o projeto global de requalificação da região portuária da cidade, do qual o museu se beneficia a partir de espaços livres e visuais desimpedidas resultantes da demolição da Perimetral. É nesse contexto que Calatrava defende o partido escultórico, em conformidade com a linguagem característica do seu acervo de trabalhos. Erguido paralelamente ao píer que o abriga, o museu é cercado por espelhos d’água, vias de circulação para ciclistas e pedestres e até uma área verde com espécies típicas da mata atlântica. A fruição pública da paisagem envoltória é complementada pelas praças e equipamentos de estar do espaço urbano lindeiro, totalizando 38,5 mil metros quadrados de área de implantação.

Ao longo do desenvolvimento da arquitetura o projeto foi ganhando programa, que culminou com a curadoria, coordenada pela Fundação Roberto Marinho, de um centro de ciências e humanidades.

Se, por um lado, as características escultóricas da obra se referem tanto às dimensões superlativas quanto à linguagem arquitetônica de exceção, com curvas virtuosas e assimétricas entre si conjugadas à provisão de sofisticados mecanismos automatizados, por outro a exposição que irá abrigar tem partido hermético e intimista, baseado na expografia audiovisual. Um grande invólucro, assim, contendo sequência linear de pequenos núcleos expositivos na nave central do segundo pavimento da edificação, é o princípio configurador do Museu do Amanhã, o que caracteriza sua dupla escala.

O museu soma 15 mil metros quadrados de área construída e 330 metros de comprimento - as duas extremidades longitudinais da cobertura totalizam 150 metros de balanço. Como ele está implantado parte sobre o mar e parte sobre o aterro, portanto em terreno poroso, sua construção demandou o reforço da fundação do píer, inserindo‑se estacas metálicas com tratamento especial anticorrosivo e estacas-raiz, capazes de atingir grandes profundidades em busca de solo firme ou rochoso. O subsolo - sob o mar - abriga as dependências técnicas, entre as quais os tanques de águas potável e marinha, esta utilizada para auxiliar no resfriamento do sistema de climatização. Após o uso, já filtrada e armazenada nos cerca de 90 mil metros quadrados de espelho d’água que cercam o complexo, ela deverá retornar à baía.

Estruturalmente, o projeto é composto por dois conjuntos interconectados, a cobertura metálica e o invólucro de concreto que a sustenta e veda o museu. Ambos concebidos e dimensionados com o elevado grau de complexidade e personalização próprio do partido escultural. A cobertura foi produzida em partes - 48 no total - a partir de perfis tubulares fabricados em Portugal. A montagem de cada seção ocorreu no próprio canteiro, com o posterior transporte vertical até os mais de 20 metros de altura de instalação.

A conjunção de quatro dessas unidades corresponde a um módulo que, disposto transversalmente à edificação, recobre superior e lateralmente o topo da fachada, de modo a sombrear os interiores. Embora com perfil semelhante, cada módulo é único em geometria e dimensão e, exceto no espaço central (sobre o eixo da mostra principal, que demanda vedação à luz), constitui-se por aletas que permitem a passagem da claridade e para a captação de energia solar. Os módulos estão dotados de cerca de 5,5 mil células fotovoltaicas e, automatizados, assumem comportamento dinâmico, movendo-se em direção da insolação favorável. Com esse sistema, que demandou análise dos esforços dos ventos sobre as junções metálicas nas diversas posições de cada aleta, pretende-se suprir o museu com parte da energia elétrica necessária para a sua iluminação, desenvolvida por Monica Lobo, do LD Studio.

A transição entre cobertura e base de concreto ocorre através de pontos de contato concentrados na porção central do edifício, de modo a configurar os balanços perimetrais de 75 metros cada, que tiram partido da vista panorâmica da baía da Guanabara, de um lado, e para a praça Mauá, do outro. Também o invólucro de concreto tem geometria assimétrica, tanto no que se refere à diferenciação entre as fachadas laterais esquerda e direita quanto em relação às curvas de cada uma delas. Isso em parte porque, sendo dotado de rampas laterais de acesso público, independentes da mostra da nave central, o museu teve janelas concebidas a fim de enquadrar pontos específicos do entorno, como o mosteiro de São Bento e o morro da Conceição. As rampas laterais, então, se unem em átrio elevado na porção posterior da edificação, oferecendo vista para o mar e para a área externa do pavimento térreo.

Tais galerias laterais inclinadas são o prolongamento do espaço público no interior do edifício, que parte da praça sombreada da entrada principal - coberta por cúpula envidraçada - e passa pelo átrio e pelos ambientes de livre acesso do térreo. O paisagismo, assim, reforça tal desmembramento do exterior no interior do museu, utilizando-se o mesmo material e paginação de piso em um e no outro.

PROGRAMA
Sob a direção geral da Fundação Roberto Marinho, o museu tem curadoria do físico e doutor em cosmologia Luiz Alberto Oliveira (o jornalista Leonel Kaz, curador do Museu do Futebol, em São Paulo, participou da fase de concepção curatorial), direção artística de Andrés Clerici e concepção museográfica de Ralph Appelbaum. A temática é a da história da tecnologia, seu passado e transformações atuais, bem como o questionamento científico do futuro da humanidade. Já a forma expográfica é prioritariamente interativa, utilizando-se recursos audiovisuais, exibições e jogos nos vários núcleos da exposição principal. São eles: Cosmos, uma espécie de planetário em que se aborda a relação do ser humano com o estudo da astronomia e do universo; Terra, espaço para a reflexão do que os curadores denominam as três dimensões da existência - matéria, vida e pensamento; Antropoceno, que discute a atividade humana como uma força geológica de transformação do ambiente; e Amanhãs, focado nas tendências populacionais mundiais e na convivência intercultural. A visita, então, culmina com Agora, uma geodésica projetada por Hélio Olga em que se pretende incentivar o engajamento na transformação e consciência ambiental.
O museu possui ainda uma sala de exposições temporárias no térreo; um centro de referência profissional para aconselhamento, recrutamento e capacitação de estudantes e profissionais que desejam se dedicar à ciência, à tecnologia e à inovação; um observatório, onde os resultados das últimas pesquisas sobre fenômenos naturais e sociais do planeta serão exibidos.


Santiago Calatrava
Nascido em 1951, em Valência, na Espanha, Santiago Calatrava formou-se arquiteto em 1974 pela Escola Técnica Superior de Arquitetura, em sua cidade natal, e engenheiro em 1979, em Zurique, na Suíça. Entre os prêmios que recebeu está a Medalha de Ouro do Instituto Americano de Arquitetos, em 2005. O Estádio Olímpico de Atenas, onde foram disputadas as competições da Olimpíada de 2004, é um de seus projetos



Ficha Técnica

Museu do Amanhã
Local Rio de Janeiro
Data do início do projeto 2010
Data da conclusão da obra 2015 (previsão)
Área do terreno 34.600 m2
Área construída 15.000 m2
Arquitetura Santiago Calatrava
Fundação Roberto Marinho - Hugo Barreto e Lúcia Basto (direção geral)
Curadoria Luiz Alberto Oliveira
Direção de criação e identidade visual Andres Clerici
Coordenação geral Deca Farroco
Gerenciamento do projeto de arquitetura Ruy Rezende Arquitetura
Gerenciamento do projeto museográfico Vasco Caldeira
Coordenação de conteúdo Leonardo Menezes
Concepção curatorial inicial Luiz Alberto Oliveira e Leonel Kaz
Consultoria museográfica Ralph Appelbaum
Coordenação técnica Márcio Guerra, Ana Ribeiro e Taissa Thiry
Estrutura Projeto Alpha (metálica); Engeti (concreto)
Luminotécnica LD Studio
Sonorização Audium
Ar condicionado e ventilação mecânica Consultar
Certificação Leed Casa do Futuro
Tratamento da água de reúso Planep
Tratamento da água do mar Aqualar
Instalações elétricas e especiais Lumens
Instalações especiais Jugend
Instalações prediais PI e JLP
Paisagismo Burle Marx & Cia.
Fundações e contenções Infraestrutura
Combate a incêndio Dimensional
Acústica Harmonia Acústica
Fluxo Bosco e Associados
Vidros e esquadrias QMD
Impermeabilização Cetimper
Manutenção de fachada PB
Sistema fotovoltaico Ebea
Consultoria de concreto WG Corrêa
Consultoria de resíduos sólidos Ambiente Responsável
Pavimentação TecPAv
Comunicação visual ORB LLC - Andres Clerici, Sean Callen, Coca Albers, Carlos Mauricio Rodriguez e Mona Kim
Projeto de mobiliário Ivan Rezende Arquitetura
Programa educativo Percebe
Plano museológico Expomus
Construção Concessionária Porto Novo

Fornecedores

Martifer (fabricação e montagem das esquadrias de alumínio e vidros e da estrutura metálica)
Peri (fôrmas e escoramentos)

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 428
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