Shieh Arquitetos: Escola, Osasco, SP

Rejuvenescido para nova ocupação

Somadas aos brises, as chapas metálicas perfuradas que resguardam as faces envidraçadas da edificação foram alguns dos elementos aos quais o escritório Shieh Arquitetos Associados recorreu para reconfigurar e qualificar um antigo edifício administrativo, convertendo-o na mais recente escola da Fundação Bradesco, em Osasco, SP. Além de habilitar o conjunto para receber a nova ocupação, o projeto trouxe frescor e boa arquitetura num entorno onde a mediocridade construtiva é regra

Embora haja exceções - e os projetos do arquiteto Luiz Paulo Conde para a instituição e o Hospital Edmundo Vasconcelos, em São Paulo (projeto original de Oscar Niemeyer) são exemplos delas -, os prédios ocupados pelas empresas do grupo Bradesco costumavam refletir, de certa maneira, o modo de vida de seu fundador, Amador Aguiar. Sólidos, simples e austeros, a rigor eles não possuem relevância arquitetônica. Situados na rua Deputado Emílio Carlos, em Osasco, região metropolitana a oeste da capital, os prédios utilizados até há poucos anos pela Bradesco Vida e Previdência eram parte desse quadro.

Desde o início de 2017, porém, aqueles que passarem pelo número 970 daquela via - que fica próxima à sede da corporação, em Cidade de Deus - irão se surpreender com a profunda transformação levada a cabo em um desses edifícios - o que fica mais próximo da rua - para adequá-lo a um novo programa: a Unidade I da Escola de Ensino Médio da Fundação Bradesco. E, mais ainda, com o notável resultado arquitetônico dessas modificações, que, até por contraponto, faz com que a edificação sobressaia numa vizinhança desprovida de atrativos.

O processo de reconfiguração do antigo prédio administrativo começou em 2015, quando a Fundação Bradesco convidou escritórios paulistanos experientes em projetos de edifícios escolares a apresentarem propostas para a reconfiguração do conjunto. Para Leonardo Shieh, um dos sócios do Shieh Arquitetos Associados, que teve o projeto selecionado, desde o início ficou claro que a intervenção recomendada representava uma quebra de paradigmas em relação ao que a Fundação Bradesco construíra, até então, para esse tipo de programa.

A solução procurou aproveitar ao máximo a estrutura da edificação existente, mas valeu-se de recursos plásticos e construtivos que rejuvenesceram e dotaram o edifício de uma arquitetura leve, elegante e contemporânea. Entre as intervenções efetuadas, o arquiteto cita o sombreamento das fachadas para assegurar conforto térmico e a filtragem da luz que incide nas salas de aula, a adoção de grandes átrios verticais, a inclusão de novas escadas internas, a construção da passarela de entrada, além da liberação do térreo inferior, que transformou-se em um grande pátio com jardim.

Em razão do grande fluxo de estudantes e da limitação de pátios, a estratégia adotada pelo estúdio posicionou salas de aula no primeiro e segundo andares. O térreo inferior (onde ficava o estacionamento) foi ocupado pela praça de acolhimento e refeitório - nesse caso, a intervenção abriu o máximo possível de espaços para jardins e recantos de utilização. “Para a biblioteca e área de estudos, com toda simbologia que elas têm dentro de uma instituição de ensino, foi reservado o espaço superior, junto à fachada frontal do edifício - como se a leitura se debruçasse sobre a rua e convidasse as pessoas a desfrutarem da instituição”, comenta Leonardo.

O projeto também envolveu alterações na forma como a edificação se relaciona como o terreno - dessa forma, o desnível com a rua frontal foi tratado como um jardim escalonado, recebendo uma arquibancada que se apresenta como uma arena orientada em direção à porção coberta da praça, integrando pátios externos, cobertos e o refeitório.

Para a inserção dos átrios centrais, foram demolidos trechos das lajes. “Cobertos por sheds de iluminação e ventilação, e abertos lateralmente, os átrios propiciam abundante circulação de ar por ventilação cruzada e efeito chaminé”, pontua o arquiteto. Para Leonardo, o ponto chave da proposta foi a adequação das circulações verticais. “Aproveitando os átrios, foram criadas duas proeminentes escadas, possibilitando a demolição da existente. Como maneira de garantir o acesso de cadeirantes ao edifício, foi proposta a substituição da passarela em concreto, muito íngreme, por uma peça em estrutura metálica que adentra ao edifício”, ele detalha.

Na organização espacial, as salas de aulas e de usos especiais ocupam as áreas perimetrais dos pavimentos, deixando a porção central de laje para os ambientes que o escritório chamou de praças aéreas. “Vistas dessas praças, as paredes das salas de aula são peças especiais, com faixa superior de vidro e fresta de circulação de ar com chicane, para absorção de som. Os diferentes ângulos gerados em planta, por conta da posição das escadas de emergência existentes, são valorizados com as paredes, que se moldam ora como mesas e, em especial, como bancos”, informa o sócio do estúdio. Por vezes há também divisórias de vidro, por exemplo ao delimitar a biblioteca, situação qualificada pela identidade visual criada por João Nitsche.

No que se refere ao tratamento exterior, o projeto retirou as paredes de alvenaria, substituindo-as por grandes panos envidraçados, protegidos por chapas expandidas de alumínio na cor branca. Afastada 75 cm em relação à fachada existente, a chapa tem duas funções: filtrar a luz direta, repassando-a de forma difusa e homogênea para as salas de aulas, e pré sombrear o edifício para minimizar o ganho térmico. “O sistema da fachada é dividido em módulos articulados, o que propicia uma melhor orientação em relação ao sol, e facilita a manutenção e limpeza”, assegura Leonardo.

As chapas são fixadas através de estrutura metálica auxiliar que também apoia o piso de grade. O espaço entre as fachadas acomoda equipamentos, como o ventilador para insuflar o ar, as tubulações e drenos do ar condicionado. Considerada pelo escritório como questão crítica nas escolas, a acústica foi objeto de especial atenção. “Dentro das salas, o professor precisa das superfícies refletivas para ser ouvido, mas também necessita das absorventes para reduzir ruídos. A solução foi a adoção de pistas alternadas: forro de gesso liso e forro de gesso perfurado na direção do professor ao fundo da sala”, acrescenta o autor. 

  

Shieh Arquitetos Associados
Shieh Shueh Yau (FAU/USP, 1975) é sócio- fundador do escritório Shieh Arquitetos Associados, que completou 40 anos em 2016. É professor de arquitetura da Universidade São Judas Tadeu desde o início do curso, em 1990. Leonardo Shieh (FAU/USP, 2001) associou-se ao estúdio em 2006, após concluir mestrado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Também leciona na Universidade São Judas Tadeu desde 2008



Ficha Técnica

Escola de Ensino Médio Unidade I da Fundação Bradesco
Local Osasco, SP
Data do início do projeto 2015
Data da conclusão da obra 2017
Área do terreno 3.000,00 m²
Área construída 4.000,00 m²

Arquitetura e interiores Shieh Arquitetos Associados - Shieh Shueh Yau, Leonardo Shieh (autores); Irene Shieh, Karen Minoda, Nathália Grippa, Ricardo Azevedo, Yuhu Minami, Juliana Stendard (equipe); Lenita Pimentel (colaboradora)
Paisagismo Rosa Kliass e Luisa Mellis
Luminotécnica Franco Associados Lighting Design
Acústica Sresnewsky Acústica e Tecnologia
Estruturas Prodenge
Fundações MG&A
Elétrica e Hidráulica PHE Projetos
Ar condicionado, exaustão e ventilação Thermoplan
Esquadrias Dinaflex
Comunicação visual João Nitsche
Sustentabilidade Jörg Spangenberg
Imagens 3D Priscila Dianese
Gerenciadora Metroll
Construção Inova TS
Fotos Fernando Stankuns

Fornecedores

Divisórias Abatex e Neocom
Pendentes Bertolucci
Pisos externos Braston
Painéis de madeira Berneck
Lousas Board Solutions
Paisagismo Eco Verde
Piso vinílico Forbo
Piso cozinha, refeitório e sanitários Hunter Douglas
Revestimentos de banheiros Jatobá
Caixilhos Kiir
Forro Knauf
Luminárias Lumini
Equipamento de cozinha Macom
Mobiliário escolar Metadil
Revestimentos de paredes NS Brazil
Elevador Otis
Brises de alumínio expandido Permetal
Pisos de áreas técnicas Portobello 

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 437
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