Teatros & Centros Culturais: Anos 90

Sobram museus, falta cultura

Sobram museus, falta cultura
Os países desenvolvidos produziram inúmeros espaços para a cultura, os chamados templos da arte, com projetos de Richard Meier, Frank Gehry, Álvaro Siza e Arata Isozaki, entre outros.

Essa tendência repercutiu no Brasil, em projetos de teatros, centros culturais e museus. Dois pontos são marcantes: a participação da iniciativa privada, que financiou grande parte das instituições; e a implantação de centros culturais em cidades pequena ou médias. Uma questão notável, embora afastada do cotidiano dos arquitetos, é a contradição entre os belos prédios construídos para abrigar museus que, porém, não possuem acervo nem curadoria adequada. O exemplo mais notável é o Museu Brasileiro da Escultura (Mube), em São Paulo.

Outros espaços são quase improvisados, mas funcionam bem - por exemplo, o Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro - graças à curadoria competente e à coordenação de eventos. Nos próximos anos, com a construção do Guggenheim no Rio de Janeiro e da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre (esta com projeto de Álvaro Siza), o país entrará de vez, embora tardiamente, na era dos museus.

Dois teatros se destacam nos anos 90: o de Araras (1990/91; PD 142), de Oscar Niemeyer, e o Unimep (1996/98; PD 237), de Paulo Zimbres. Ambos, coincidentemente, estão situados em cidades do interior paulista, possuem planta circular e duas salas de espetáculos.

Em São Paulo, a região sul da marginal do Pinheiros concentrou os dois principais edifícios destinados a espetáculos. O Teatro Alfa Real (1996/98; PD 220), da AIC Arquitetura, é um luxuoso empreendimento com capacidade para 1 200 espectadores. Próximo a ele, a flexível casa de espetáculos Credicard Hall (1996/99; PD 237), de Aflalo e Gasperini, abriga até 7 500 pessoas em sua planta em forma de um quarto de circunferência. O projeto do parque Villa-Lobos, com desenho de Décio Tozzi datado do final da década de 80, prometia ser um grande centro cultural voltado à música, mas teve concluído apenas o teatro de arena (1993).

Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, ganhou a Casa de Cultura (1990/92), projeto de Aurélio Martinez Flores financiado pelo Instituto Moreira Salles (IMS), o braço cultural do Unibanco. O centro cultural foi implantado em bairro residencial e abriga salas de exposições em dois pisos, abrigados em um volume branco com um rasgo na fachada para o acesso. A escadaria vence a inclinação da rua de maneira peculiar. Outra instituição financeira que criou espaços para a cultura foi o Itaú, que construiu em São Paulo o Instituto Cultural Itaú (1989/95; PD 193), com projeto de Ernest Mange.

Em Ipatinga, no interior de Minas Gerais, os jovens arquitetos Gustavo Ribeiro, André Abreu e Anna Ávila foram os responsáveis pelo desenho de um centro cultural (1997/98; PD 229) financiado pela Usiminas, empresa que tem sede na mesma cidade. O entorno industrial levou o edifício a voltar-se para um pátio interno. A bela volumetria curva tira partido do formato do terreno, com destaque para o volume da caixa do palco do teatro.

O centro cultural construído na cidade gaúcha de Esteio, próximo a Porto Alegre, é uma das realizações governamentais de destaque no período. A prefeitura local financiou a Casa da Cultura (1991/92; PD 165), com desenho de Flávio Kiefer. O projeto reúne teatro, cinema, biblioteca, oficinas de artes e salas de exposição. Distinguem-se o grande vestíbulo urbano e a divisão do programa em dois volumes - de tijolo para o acesso, de cerâmica no centro cultural.

Em Curitiba, o destaque em obras públicas fica por conta do Memorial de Cidade (1992/96; PD 206), de Luís Fernando Popp e Valéria Bechara - autores ainda de outro projeto público no centro histórico da cidade, o Conservatório de Música Popular (1993). No térreo do memorial, uma grande praça coberta, com palco, pode abrigar diversas manifestações populares; um pilar de concreto central, em alusão às formas do pinheiro-do-paraná, apóia vigas de metal e três pisos para exposições.

Suzano, na Grande São Paulo, construiu o Centro de Educação e Cultura Francisco Moriconi (1990/92; PD 165), projeto de Flávio Marcondes e Maria Cecília Pastore. O espaço abriga biblioteca, escola de dança e oficinas de arte, em um volume com vazio central. Em Tocantins, o Espaço Cultural de Palmas (1994/1996), de Paulo Henrique Paranhos, destaca-se pela grande cobertura que protege os volumes semi-enterrados e forma um relevo artificial.

Em Fortaleza, foi construído um grande centro cultural público: o Dragão do Mar (1994/99; PD 233), de Delberg Ponce de Leon e Fausto Nilo. Ocupando duas quadras, os diversos edifícios - museu, teatro, planetário, cinema e auditório - são interligados por uma grande passarela metálica. Em Belo Horizonte, os arquitetos Álvaro Hardy (Veveco) e Mariza Coelho projetaram o anexo do Museu Abílio Barreto (1994/98), ocupando pequena porção do grande terreno em que fica localizada a sede da instituição, construída em 1883. O anexo abriga registros históricos e um centro cultural em quatro pisos.

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 251 Janeiro de 2001

Centro Cultural Usiminas, em Ipatinga-MG,
por Gustavo Ribeiro, André Abreu e Anna Ávila
Foto: Rui Cézar
Teatro de Araras-SP, de Oscar Niemeyer
Foto: Nélson Kon
Teatro da Unimep, em Piracicaba-SP, por Paulo Zimbres
Foto: Rubens Mano
Casa da Cultura, Poços de Caldas-MG,
de Aurélio Martinez Flores
Foto: Tuca Reines
Casa da Cultura, Esteio-RS, por Flávio Kiefer
Foto: Flávio Kiefer
Memorial da Cidade, em Curitiba,
por Fernanco Popp e Valéria Bechara
Foto: Lina Faria
Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza-CE, por Delberg Ponce de Leon e Fausto Nilo
Foto: Gentil Barreira
Museu Abílio Barreto, Belo Horizonte,
projeto de Álvaro hardy e Mariza Coelho

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 251

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