PERFIL: Triptyque

8x residencial

Na concepção do Pop XYZ, conjunto residencial localizado na Vila Madalena, em São Paulo, os arquitetos do Triptyque utilizaram um recurso já presente em outros projetos de sua autoria e que, aqui, dada a conformação do lote, ganha relevância adicional. É a criação de um sistema independente de circulação vertical, composto por torre de elevadores/escada e passarelas que desembocam nas unidades residenciais. Com duas entradas – desniveladas 12 metros entre si – o terreno tem desenho irregular, com profundidade maior do que a largura em quaisquer das frentes consideradas. Ou seja, restava um miolo de lote de difícil qualificação pelo projeto, de onde partem os acessos para as moradias.

Além disso, segundo os cálculos da incorporadora Idea!Zarvos, a área construída resultaria em oito mil metros quadrados - totalizando 44 unidades residenciais -, escala que os arquitetos consideraram de necessária transição para o entorno. Há, em volta, sobrados comerciais e residenciais e um extenso conjunto habitacional construído em 1968 pelo BNH, o então Banco Nacional de Habitação, com seus 55 edifícios implantados horizontalmente em meio à considerável área verde.

Para a face sudoeste se voltam as aberturas de três, entre oito, pequenas torres residenciais em que os arquitetos fragmentaram a construção, somadas ao nono edifício, que é o bloco central de circulação. A mini torre corresponde à malha de sete por sete metros que acomoda cada apartamento, alguns simples outros dúplex - há também os de cobertura -, com um ou dois dormitórios, posicionados junto às entradas e à divisa maior do lote (vizinha à Cohab).

Duas torres estão em evidência na rua superior, recuadas da calçada para ceder espaço à frente comercial do projeto, mas as demais se agrupam em implantação na forma de L; e poderiam configurar um bloco de 16 x 12 metros, não fossem os desalinhamentos criados pelos arquitetos de modo a evidenciar a subdivisão do programa em núcleos menores. Este é o partido.

São afastamentos relativamente modestos, mas que ganham expressividade por algumas razões principais: primeiro, porque a malha que organiza o projeto é pequena; segundo, porque é recorrente a presença de varandas nos encontros entre apartamentos e, por fim, porque as variantes de layout fazem com que as fachadas tenham aberturas em aparente desordem, o que corrobora o aspecto fragmentado do conjunto.

Estando as varandas voltadas para fora e, sendo a sua função iluminar quartos e salas, o miolo do terreno recebe as janelas menores, dos banheiros.Mas o tratamento das fachadas internas converte a condição desfavorável em graça, já que tais aberturas de serviço perdem relevância quando imersas no padrão pixelizado - de traço e ponto - dos azulejos brancos e azuis que revestem internamente o conjunto. Seu brilho intenso reflete a luz do sol e, por causa das características do bairro e das angulações do conjunto, pode ser visto também ao longe.

Há, de fato, um contraponto entre dentro e fora que os arquitetos enfatizam através dos materiais - buscando referência no padrão das construções locais, selecionaram o chapisco e o azulejo para as fachadas. Por questões de segurança, contudo, adotaram uma alternativa à rugosidade elevada do primeiro, considerada inadequada para a aplicação a partir de certa altura - o gabarito da edificação é de 25 metros. Não fosse assim, seria mais acentuada a aparência de gruta que buscavam para o exterior da construção e também maior o contraste com a superfície plana da cerâmica.

As fachadas brilhantes servem também de pano de fundo ao que poderia se considerar uma décima construção, ou seja, a torre das passarelas que serpenteiam no miolo do lote com a sua presença intrigante. Trata-se de um adendo metálico e semi-aberto, vedado com grades de tela expandida na cor grafite e, assim, parcialmente desprotegido das intempéries - condição que aproxima os apartamentos da condição de casas térreas.

Também, no edifício Arapiraca, como os arquitetos preferem denominar o empreendimento - tomando emprestado o nome de uma das ruas de acesso -, a vegetação exuberante está presente, como é comum na obra do estúdio franco-brasileiro. Sobretudo na entrada rebaixada, o verde ocupa o espaço de pé direito duplo resultante do desnível entre o térreo, a alinhado com a cota superior e o chão (descontado o nível dos serviços coletivos), recuando-se em planta e corte a construção em relação à rua. Aqui, mais uma vez, abre‑se uma praça semipública para a cidade.



Ficha Técnica

Residencial Pop XYZ
Local São Paulo, SP
Data do início do projeto 2010
Data da conclusão da obra 2016
Área do terreno 1.633 m2
Área construída 6.532,75 m2

Arquitetura Triptyque - Carol Bueno, Greg Bousquet, Gui Sibaud, Olivier Raffaëlli (sócios); Luiz Trindade (coordenação geral); Beatriz Hipólito (chefe de projeto); Marcella Verardo, Bianca Coelho, Murillo Fantinatti, Isaac Safdie, Daniele Grossman, Paula Megiolaro, Pedro de Mattos, Alfredo Luvison, Michele Panhoni, Renan Bussi, Felipe Alves, André Mathias, Natasha Taylor, Felipe Smith, Paulo Rodrigues, Danilo Vicentini, Manuela Coelho, Beatriz Almeida, André Ribeiro, Andrea Novazzi, Vinicius Capela, Caco Cruz, Carla Gotardelo, Luis Canepa, Stephanie Elizabeth, Thais Beraldo, Maria Eugênia Gorga, Murillo Fantinati (colaboradores)
Incorporação Idea!Zarvos
Paisagismo André Paolielo, Rodrigo Oliveira
Estrutura Gama Z
Luminotécnica Estudio Carlos Fortes
Construção Lock Engenharia
Fotos Daniel Ducci

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 436
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