Triptyque: Retrofit do edifício RB12, Rio de Janeiro, RJ

Mais luz, menos calor

A reformulação à qual foi submetida a torre de 21 andares na avenida Rio Branco, 12, no centro do Rio de Janeiro, seguiu o projeto do escritório franco‑brasileiro Triptyque. Renomeado RB12, o prédio tem vizinhos laterais colados e a estratégia da intervenção focou principalmente sua face principal, totalmente redesenhada de forma a receber mais luz natural, produzir energia fotovoltaica e, simultaneamente, evitar a entrada de calor

Em entrevista que concedeu a PROJETO (leia a edição 430, março de 2016), perguntada sobre a possibilidade de transformar um prédio ruim em um de boa qualidade ambiental, Joana Carla Soares Gonçalves, pesquisadora da FAU/USP, respondeu que se isso não fosse factível melhor era parar tudo o que se estava fazendo - ela se referia ao tema edifício ambiental, assunto de livro de sua autoria. Para a pesquisadora, edificações antigas, especialmente as de ocupação comercial, demandarão essa requalificação.

Joana destacou ainda que para isso não bastará trocar o sistema de ar condicionado ou o vidro da envoltória. Criar átrios internos, recortar lajes, substituir fachadas inteiras seriam medidas a tomar, na avaliação da pesquisadora. Embora não se possa afirmar que fosse ambientalmente ruim, o RB12, na região central do Rio de Janeiro, é exemplo dessa solicitação.

No caso a encomenda partiu das empresas Natekko e MMC, que contrataram para o encargo o escritório Triptyque, cujas propostas vêm, já há alguns anos, chamando a atenção da mídia especializada e do público em geral, também pelo trabalho de divulgação sistemática de suas iniciativas.

No Brasil, o mais recente dos seus projetos é a intervenção no antigo hospital Matarazzo, em São Paulo, parte dela feita em parceria com o francês Jean Nouvel. Construído na segunda metade da década de 1970 (acredita-se que o projeto original seja do escritório Pires e Santos), o RB12, assim como a maioria de seus vizinhos, não possui recuos frontais ou laterais, nem respiro ao longo da maior parte de sua altura. Também por isso, a principal intervenção se deu na face principal da construção, num processo que os autores denominaram concepção de uma fachada bioclimática.

A intenção era reformular o edifício de modo que ele fosse dotado da chamada energia positiva, em que os materiais especificados e o desenho de certos elementos permitem à construção produzir mais energia do que consome.

Para chegar à configuração atual do RB12, a arquiteta Carolina Bueno, sócia do Triptyque, conta que uma das primeiras providências foi desenvolver uma espécie de mapa de incidência solar no prédio, identificando as diferentes maneiras com que a luz natural e o calor atingem sua fachada. Há variações dependendo da altura do pavimento, ela observa: nos andares mais baixos, por exemplo, ocorre interferência de árvores de porte. “Pensamos em um edifício com fachada inteligente, que conseguisse buscar o máximo de luminosidade, recorrendo a vidros transparentes. Sobre o mapeamento, trabalhamos com elementos de proteção e reverberação do calor e da luz”, explica a arquiteta.

O projeto adotou um modelo básico para todos os fechamentos dos andares, que consiste em sequência de vidros duplos verticais dispostos em forma de zigue‑zague, interceptados no trecho superior pelo brise horizontal de aço inoxidável. Porém, variando a incidência de luz natural/calor de um pavimento para outro, ora predomina o vidro, ora existem mais brises. “O vidro é o mais transparente que o mercado brasileiro oferece, mas tem refração ao calor”, informa Carolina.

Nos andares mais altos, quando a torre se afasta dos vizinhos, as empenas foram descascadas e, no lugar do revestimento, instalaram‑se painéis fotovoltaicos para a geração de energia. Internamente, foi demolido o máximo possível, restando apenas o esqueleto da edificação. “Nele, implementamos todas as instalações, como o sistema de ar condicionado por viga fria, que não funciona pelo sopro de ar, mas pelo frio que emana. É complexo, mas vale a pena em nome do conforto do usuário”, conclui a arquiteta.

 
 
Três europeus - os franceses Greg BousquetGuillaume Sibaud e Olivier Raffaelli - e a brasileira Carolina Bueno, todos formados pela Escola de Belas Artes de Paris, são os titulares do Triptyque, escritório franco-brasileiro constituído em 2000, que tem unidades nas capitais francesa e paulista.



Ficha Técnica

EDIFÍCIO RB12
Local Rio de Janeiro, RJ
Data do início do projeto 2013
Data da conclusão da obra 2016
Área de intervenção 4.728 m2

Arquitetura Triptyque - Greg Bousquet, Carolina Bueno, Guillaume Sibaud e Olivier Rafaelli (autores); Luiz Trindade (coordenador geral); Marcea Sampaio, Paula Megiolaro e Vinicius Capella (chefes de projeto); Danilo Vicentini, Juliana Becker e Renan Bussi (arquitetos) 
Cliente Natekko
Consultoria de sustentabilidade Chapman + BDSP
Consultoria de energia Brasil H2 Fuel Cell Energy
Instalações hidráulicas Soeng
Ar condicionado Thermoplan
Estrutura Greenwatt
Fachada Crescêncio
Automação Sl2
Luminotécnica NUR L+D
Irrigação Regatec
Gerenciamento DPG Plan Groupe Artelia
Construção RR Compacta
Fotos Leonardo Finotti

Fornecedores

Painéis fotovoltaicos Kyocera
Vidros Cebrace

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 431
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