Una Arquitetos: Casa em Cotia, SP

Cobertura única sobre os ambientes

Uma cobertura contínua abriga os ambientes domésticos dessa casa de condomínio fechado em Cotia, a oeste da Grande São Paulo, posicionados em cotas diversas e prolongados no exterior através de varandas em patamares integrados. A residência desenhada pelo Una Arquitetos se volta, assim, para o interior do lote, em uma delicada relação da arquitetura com a topografia de suaves ondulações. Três muros de arrimo acomodam a construção no lote

O acesso ocorre pela cota mais baixa, na esquina do terreno, revelando aos poucos a casa conforme se caminha por ela. Desde a rua, vê-se de um lado uma massa arbórea no topo de um aclive e, do outro, uma fachada cega - com vigas de concreto e metálica aparentes -, cuja base inclinada e a paulatina aproximação à terra são indicativos do partido arquitetônico de interação da construção com a topografia, bem como do papel articulador da rampa na organização dos ambientes.

A cobertura única, com laje e viga de borda feitas com concreto, somada às diferenças de cota dos setores residenciais, gera pés-direitos diversos, de modo que sejam distintas as ambiências internas: por vezes mais, por vezes menos intimistas.

O terreno, de esquina, sobe em direção às divisas internas, sendo constituído por pequenas elevações e qualificado pela presença de numerosas árvores. Por meio da inserção de três muros de arrimo, os arquitetos desenharam platôs sequenciais na clareira central do lote, destinados aos sucessivos setores domésticos - tanto aqueles ao ar livre quanto os internos. Predominantemente envidraçados, há a mútua visualização entre os ambientes, embora a sua disposição os resguardem entre si.

Sobre a garagem está o volume dos quartos e biblioteca, cuja fachada voltada para a rua gira em direção a leste a fim de otimizar a insolação da manhã. Estruturalmente, esse setor é uma construção metálica pendurada na laje de concreto e a sua organização interior favorece o desfrute da vista do entorno a partir de todos os dormitórios.

Também a fachada oeste - interna - é envidraçada, de modo que igualmente a biblioteca - que funciona como espécie de antessala dos dormitórios - se volte para área verde (do jardim). Apenas dois grandes pilares de concreto sustentam todo o conjunto, posicionados no alinhamento de paredes divisórias internas.

Um misto de jardim e espelho d’água distancia então, no miolo da casa, os quartos do setor social, estando a sala e a cozinha posicionadas em cota intermediária entre os dormitórios e a garagem. O acesso ocorre por meio de uma rampa de suave inclinação, aberta mas coberta, sucedida pelo patamar - metálico e vedado com pele de vidro - que encaminha o morador aos quartos.

A leve rotação da fachada envidraçada da sala - que tem pé-direito maior do que o restante da casa - gera um alargamento do beiral que ameniza a insolação e a luminosidade natural dos interiores. O ambiente se prolonga no exterior através de uma varanda descoberta que, por sua vez, serve de acesso à piscina e ao bloco de lazer e sala íntima, estes últimos posicionados na cota mais alta da residência. A continuidade do piso interno no externo, ambos revestidos com ladrilho hidráulico na cor vermelha, corrobora a ideia de prolongar a casa ao ar livre. Parte do mobiliário foi desenhado pelos arquitetos, como a mesa de refeições e o bufê, de modo a valorizar as transparências da residência.

Uma frágil moldura
Por Daniele Pisani

O princípio é o que de mais simples existe. A casa é articulada em dois blocos principais, cada um deles com certo grau de autonomia tanto em termos de dimensão, quanto de acabamento: um é suspenso do chão e envidraçado; o outro, ao contrário, é térreo e parcialmente interrompido por um pátio. Essa autonomia, além do mais, é enfatizada pela disposição dos blocos em cotas diferentes.

O partido da casa, contudo, não consiste no conflito entre as lógicas. A autonomia delas não chega a ser tornar conflito. Complementar ao que tende a distinguir e identificar cada bloco como único, de fato, na casa atua também um segundo princípio. As duas partes principais não são isoladas, e sim ligadas por uma rampa coberta. E, sobretudo, a borda da laje de cobertura, sempre com a mesma altura e o mesmo acabamento, conecta todos os blocos, introduzindo assim um elemento comum: uma faixa horizontal que cinge e torna indivisível o que poderia parecer.

A autonomia das partes, em suma, é compensada pela adoção de algumas soluções que atuam em sentido contrário. O que acaba se revelando é um conjunto caracterizado pelo diálogo entre elas. E é significativo o fato do principal desses elementos consistir na laje, e não em algo disposto no chão. De alguma forma, é como se a cobertura fosse a ideal cota da casa: aquela a partir da qual se medem as outras, de cima para baixo. Isso provavelmente tem a ver com o terreno inclinado para o qual a casa foi projetada, que determina a disposição dos blocos em cotas diversas.

A casa é um conjunto de blocos, mas sobretudo é uma sequência de espaços, sejam eles edificados ou não. Enquanto tal, ela não permite um olhar estático, mas - ao contrário - exige ser experimentada em movimento. É uma promenade. O percurso, em princípio, é ascensional. O primeiro bloco, de dois andares, é suspenso para permitir a passagem sob ele. O segundo é de um andar apenas, alinhado ao segundo andar do primeiro bloco, e é térreo, para permitir e solicitar diversas formas de uso do espaço externo. A casa, em outros termos, é uma sequência de cenários. E a sequência acabaria caótica se no roteiro não fosse prevista a existência de alguns elementos recorrentes.

Contudo, o projeto de arquitetura não parece preocupado em determinar tudo. O terreno continua sendo irregular, e a casa aparece indecisa entre um princípio de ordem unitário e a aceitação da multiplicidade. Talvez seja essa mesma a graça do projeto. Por alguma forma de respeito, determina algo, mas se recusa a determinar além. Limita-se a oferecer os principais cenários para a vida cotidiana, a coordená-los em uma sequência e a exibir - lá em cima, na cota da laje - a frágil moldura de algo complexo como a vida que nela acontece.

   

Una Arquitetos

O Una Arquitetos, fundado em 1996, é uma associação de arquitetos formados pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) entre 1993 e 1994. Desde sua formação desenvolve projetos em diversas escalas e programas como equipamentos para transporte público e projetos urbanos, espaços culturais, escolas, edifícios residenciais e comerciais. O escritório recebeu diversos prêmios por projetos e obras construídas. Entre eles, vários concedidos pelo Instituto de Arquitetos do Brasil, tendo recebido, em 2008, o prêmio máximo dessa instituição, o Carlos Barjas Milan, pelo projeto da Nova Estação Piqueri. Foi premiado na V Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, com o projeto para o Centro Universitário Maria Antônia (USP) e do Instituto de Arte Contemporânea, e na VII Bienal, com o projeto urbano para os bairros da Mooca e Ipiranga, em São Paulo. São sócios do Una os arquitetos Cristiane Muniz, Fábio Valentim, Fernanda Barbara e Fernando Viégas.



Ficha Técnica

Casa em Cotia
Local Cotia (SP)
Início do projeto 2012
Conclusão da obra 2017
Área do terreno 2.600 m2
Área construída 400 m2

Arquitetura Una Arquitetos - Cristiane Muniz, Fábio Valentim, Fernanda Barbara, Fernando Viégas (autores); Carlos Faccio, Eduardo Martorelli, Henrique Te Winkel, Hugo Bellini, Juliana Jabur Zemella, Marie Lartigue, Marta Onofre, Naiara Hirota, Rodrigo Carvalho (colaboradores)
Grafite Zezão
Levantamento topográfico Projecto
Sondagem de solo Ação Engenharia
Estrutura Companhia de Projetos
Instalações Zamaro
Luminotécnica Lux Projetos
Impermeabilização PROASSP
Paisagismo Soma
Irrigação Irrigar
Acústica Acústica Design
Esquadrias JMar
Construção F2 Engenharia
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Doering Paisagismo (jardins); Ladrilar (piso de ladrilho hisráulico); JMar (esquadrias); Securit (cozinha e armários); Marcenaria da Fazenda, Marcenaria Castor (marcenarias); Reka, Lumini (luminárias); PauPau (piso de madeira dos quartos); Léo Madeiras (forro de madeira)

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 448
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