Urban 21

Revelações do urbanismo

Com trabalhos de todo o país, a primeira edição do concurso Urban 21 mostrou um panorama do ensino do urbanismo nas escolas de arquitetura do Brasil. E o quadro revelou-se motivo de preocupação: na avaliação dos jurados, a heterogeneidade na maneira como o tema é tratado em diferentes instituições não é positiva. Delinear esse cenário foi contribuição acessória da competição, na qual o principal destaque foi uma equipe de alunos da Univates, que fica em Lajeado, RS.

Pensar o Futuro; Transformar a Cidade foi o mote do Urban 21, competição estudantil de desenho urbano que, com o patrocínio exclusivo da Alphaville Urbanismo e apoio da PROJETOdesign, a Arco Editorial organizou ao longo de 2015. O projeto vencedor - Distrito em Cena, idealizado por estudantes da Univates, da cidade gaúcha de Lajeado - tomou como área de atuação a região do Baixo 4º Distrito, em Porto Alegre, antigo território industrial em estado de deterioração.

O desafio lançado aos competidores era o de apresentar propostas para uma área existente, selecionada por eles, em município brasileiro com no mínimo 300 mil habitantes. Ela deveria se estender por no mínimo dez e no máximo 25 hectares, e sua escolha precisava ser justificada e acompanhada de argumentação sobre a contribuição que o trabalho traria para o desenvolvimento urbano do município.


1º Lugar: Distrito em Cena

A arquiteta Evelise Grunow (editora de PROJETOdesign), Fernando Mungioli (publisher da Arco Editorial) e Vanilda Queiroz Sganzerla (coordenadora do concurso) constituíram a comissão organizadora. Os arquitetos urbanistas Adriana Levisky (Levisky Arquitetos), Carlos Leite (Stuchi & Leite Projetos), Elisabete França (Studio2E Ideias Urbanas), Marcelo Willer (Alphaville Urbanismo) e Marcos Boldarini (Boldarini Arquitetura e Urbanismo) formaram a comissão julgadora, que avaliou os 64 trabalhos entregues - inicialmente se inscreveram 87 equipes de 68 universidades, totalizando 485 alunos e 87 professores orientadores.

Na reunião que, no início de novembro, elegeu os cinco finalistas (primeiro e segundo lugares, mais três menções honrosas), Boldarini observou que nem todos os trabalhos haviam atendido aos itens previstos no regulamento - não citavam, por exemplo, em que instrumento do Estatuto da Cidade se enquadravam. No entanto, por ser a primeira edição do concurso, os jurados decidiram não levar a cabo desclassificações por esse motivo.


2º Lugar: Nova Colina II

A equipe vencedora recebeu um troféu, diplomas para todos os seus membros e prêmio de 10 mil reais. O segundo lugar, que também recebeu troféu e diplomas, mais um prêmio de 6 mil reais, coube a Nova Colina II. Desenvolvido por alunos da Universidade de Brasília (UnB), trata-se de um estudo sobre condomínios, urbanidade e qualidade de vida que busca, sobretudo, evitar que o local venha a se tornar um bairro-dormitório. Ambos os professores orientadores foram contemplados com um mini iPad e as escolas levaram troféus e diplomas. Certificados também foram concedidos aos autores, orientadores e instituições que obtiveram menção honrosa.

Para Marcos Boldarini, um dos méritos do Urban 21 foi proporcionar a discussão no âmbito acadêmico de questões urbanas que, às vezes, são específicas de determinadas cidades. Com temas e escalas variadas, os trabalhos também por isso apresentaram limitações com relação às metodologias empregadas. “Grande parte deles ficou aquém do que propunha o concurso, não abordando o tema, o que, talvez, reflita a defasagem entre reflexão acadêmica e prática”, opina o arquiteto. Mas o jurado elogia a potência do trabalho vencedor: “A qualidade de apresentação, a compreensão dos problemas e as soluções interdisciplinares se mostraram muito satisfatórias”.


Menções honrosas

Assim como seu colega de júri, Adriana Levisky destaca a importância e a atualidade de o urbanismo ter sido objeto de um concurso para estudantes. “Com os trabalhos apresentados conseguimos ter ideia da diversidade e da complexidade das situações em todo o país”, afirma a arquiteta. “Ao mesmo tempo”, prossegue, “pudemos perceber a enorme heterogeneidade na capacitação que as escolas estão oferecendo sobre o tema, e isso não é positivo.” Adriana acredita que a academia deve dar mais atenção ao urbanismo. Para ela, os trabalhos do Nordeste, por exemplo, mostraram qualidade inferior aos de instituições de ensino do Sul e Sudeste. “A maioria focou muito a questão da mobilidade, tema que é sensível inclusive na experiência pessoal dos alunos, e os aspectos culturais e sociais foram deixados em segundo plano”, assinala. Ela avalia ainda que o domínio dos instrumentos urbanísticos e da legislação demonstrado pelas propostas é incipiente.

Na avaliação da jurada Elisabete França, a competição conseguiu trazer os estudantes para a discussão das cidades e dar relevância ao tema do desenho urbano em escalas diferenciadas. “O resultado foi incrível e o número de participantes admirável”, afirma, destacando o fato de os trabalhos não estarem distribuídos por várias regiões do país. A arquiteta observou também que, no geral, os projetos apresentaram soluções de mobilidade que não a rodoviarista e consolidaram uma cultura de recuperação ambiental. “Os estudantes estão buscando entender melhor o urbano”, completa, acrescentando que os resultados atestam também como andam os currículos escolares no que se refere ao urbanismo. “Há uma lacuna e o concurso expôs essa situação”, Bete assinala.

Presidente da Alphaville Urbanismo, patrocinadora do Urban 21, o arquiteto Marcelo Willer surpreendeu-se com o número expressivo de participantes, sobretudo por se tratar de primeira edição. Willer observa que o urbanismo nunca havia sido objeto de concurso entre escolas e, também por isso, elogia a forma como, no geral, as equipes abordaram as questões, mostrando‑se atualizadas com temas como mobilidade, sustentabilidade, geração de renda e planejamento ambiental. Em sua avaliação, a competição revelou faculdades com uma visão contemporânea acerca do urbanismo, e a eventual oscilação de qualidade entre elas se deveria em parte à ausência de uma cultura sobre o assunto. “O concurso é diferente do Opera Prima, que já está consolidado”, avalia, antecipando que a Alphaville Urbanismo pretende patrocinar novas edições do Urban 21. “Com elas, conseguiremos criar um círculo virtuoso, com os bons projetos servindo de parâmetro”, conclui.

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 428
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora