FAU/USP: Projeto para assentamento rural

Em favor da terra

Em favor da terra
È um projeto de intervenção que visa a criação de um Assentamento Rural Sustentável para o MST, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, na região de Itapetininga, Oeste do Estado de São Paulo. O trabalho foi classificado em terceiro lugar no concurso World Millennium Enviromental Design Competition, realizado durante o ano 2000, em Seul, Coréia.
A idéia central da intervenção baseia-se nos princípios de sustentabilidade, enfocando na relação entre o ser humano e seu ambiente. Alguns conceitos orientaram a proposta. O principal é adotar o ser humano como elemento fundamental do esquema sustentável, quando se trata de desenho ambiental abordado por três dimensões: ambiental, social e cultural, considerando que a dimensão econômica permeia as três.
Na visão dos autores, a atual organização do sistema econômico brasileiro e, conseqüentemente, social baseia-se na desigualdade e na exclusão, resultando na degradação do ser humano em seus espaços individual e coletivo. A falta de consciência e educação traz conseqüências para o meio ambiente que implica na má interação com o próprio meio e o desperdício de energia. Por isso foram incorporadas cinco ações em nesse plano e as reunimos para o ser humano:
• Recusar o desperdício de capacidade humana;
• Reduzir a má interação com o meio ambiente, ambas as ações realizadas através da educação e conscientização;
• Reutilizar todo o conhecimento e habilidades acumuladas pelas pessoas;
• Reciclar, dando novos usos para o conhecimento e abilidades acumulados;
• Recuperar, devolvendo às pessoas os produtos, pertencentes essencialmente à humanidade.
A partir de uma análise da situação social e econômica do Brasil, os arquitetos, professores e estudantes identificaram o MST como uma organização capaz de reunir estas questões: "Seus assentamentos têm enorme potencial para a formação de comunidades sustentáveis e ecovilas. São diferentes das áreas rurais tradicionais devido à organização e à ideologia próprias do movimento: defendem o uso coletivo do solo e a reunião da comunidade em uma vila rural."
A equipe propôs uma intervenção com propostas alternativas de ações bioclimáticas e sustentáveis em três escalas:
• a fazenda inteira (o sistema produtivo);
• a vila rural (ambiente comunitário); e
• a habitação.
Projeto
A fazenda foi objeto de uma discussão multidisciplinar envolvendo um agrônomo, um técnico agrícola e um líder do assentamento. O projeto propõe uma seqüência de ações para se alcançar um sistema de produção em solos de boas condições e a implementação de infra-estrutura, como distribuição de água, irrigação e abrigo para a criação de animais intensiva. Os estágios foram pensados para se alcançar a subsistência e lucro.
A disposição das culturas foi adequada à topografia, à condição inicial do solo e à necessidade de cuidado. Por isso a vila rural está situada perto da criação de animais, da plantação de frutas e das estufas. Perto ainda estão a administração da cooperativa e os equipamentos para processar os produtos brutos: leite, frutas, hortaliças, mel, queijo, compotas entre outros. O sistema de produção foi fundamentalmente baseado num plano de cooperativa e envolve não somente produtos agrícolas como também manufaturas como cerâmica e artesanato. Este último será abrigado no centro cívico da vila rural, que também inclui uma biblioteca,creche, posto de saúde, parque, plantação de ervas medicinais e outras atividades como festas tradicionais, alfabetização de adultos e apresentação de filmes.
A vila rural está implantada ao redor do centro cívico, formando unidades de vizinhança pela relação espacial estabelecida entre um determinado número de habitações. O sistema de drenagem é feito através de canais de evapotranspiração, a distribuição de água parte do reservatório em chega às casas em tubulações elevadas e os abrigos dos animais de propriedade coletiva fornece e armazena material orgânico para utilização como adubo ou para a transformação em energia. Estes processos foram pensados de maneira a formarem ‘caminhos didático’, onde toda a comunidade pudesse compreender, por exemplo, o caminho que água percorre desde a extração no solo, as transformações que ela sofre dentro da casa e a sua saída de volta para o solo.
Os resíduos orgânicos também é um elemento didático pois é reutilizado em um sistema de aquecimento para o abrigo dos animais. "Acreditamos que geralmente as pessoas não têm qualquer preocupação com o desperdício de água e com a poluição das fontes porque não observam o que acontece, basta acionar a torneira que a água aparece. Se estes sistemas estão presentes no cenário, fazem com que as pessoas pensem sobre isso", argumentam os arquitetos.
A habitação também compõe o percurso didático, enfatizando cada função na moradia. O projeto propõe a divisão da casa em dois módulos: o molhado e o seco. Banheiro e cozinha compõem o primeiro, distinto do seco, formado pela sala e pelos quartos. Vale ressaltar que o módulo molhado é suprido por dois tipos diferentes de água, a água potável e a água reciclada, também chamada de ‘água cinza’, que vem do lavatório, do tanque e da captação pluvial, e é utilizada na descarga do sanitário. O fogão a lenha separa ambos os módulos e fornece ar quente para toda a casa, considerando que há uma grande variação de temperatura no local com alguns períodos frios.
O material escolhido para a construção das casas é produzido no local, na própria fazenda, com técnicas apreendidas pelos moradores da comunidade. Cada parte da casa é construída com diferentes materiais: tijolos de solo-cimento para o módulo molhado e paredes de madeira para o módulo seco. A produção dos tijolos de solo-cimento é feita num sistema de cooperação, tornando a construção mais barata e otimizada, já que a comunidade dispõe de pouco recurso financeiro.
Com a consolidação do plano de recuperação da fazenda, o sistema de cooperativa passa a abordar a extração da madeira do Eucaliptus grandis para a construção do módulo seco. Dessa forma, paralelamente à evolução da fazenda, há o processo de desenvolvimento da casa, realizado lentamente, dependendo da disponibilidade financeira de cada família. Por isso o desenho da casa permite um crescimento modular, partindo do módulo hidráulico.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 246 Agosto de 2000
Perspectiva da moradia, mostrando possível ampliação
Perspectiva da moradia
Corte AA
Corte BB
Planta (etapa 3)
Implanatação da agroila
Famílias do assentamento

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 246

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