Artigo: Cau - Censo dos Arquitetos 2013

Raio X do arquiteto

Aqueles que foram contemporâneos de Lina Bo Bardi recordam-se de ela preferir ter sua profissão tratada no masculino - queria ser chamada de arquiteto. Quem conhece a também arquiteta e paisagista Alda Rabello Cunha, assegura que ela faz coro à colega - ou ao colega, para manter a predileção de ambas

Exercendo a profissão numa época em que o meio arquitetônico era composto majoritariamente por homens, a opção talvez fosse uma tentativa de igualar-se aos seus pares masculinos. E, no caso de Lina, também uma provocação: “Sou stalinista, militarista e antifeminista”, contam que ela costumava dizer.

Idiossincrasias à parte, se fosse viva Lina teria testemunhado e Alda poderá constatar como a situação se alterou: no final de 2012, existiam no país mais mulheres que homens praticando arquitetura, conforme constava nos registros do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR).

A supremacia das mulheres no exercício da arquitetura - que, aliás, é substantivo do gênero feminino - é uma das suposições confirmadas no primeiro recenseamento da profissão, realizado pelo CAU/BR durante o segundo semestre do ano passado e cujos resultados estão sendo agora divulgados. De acordo com o levantamento, 60,59% dos profissionais registrados no conselho eram mulheres.

PRIMEIRO CENSO
Aproveitando a obrigatoriedade do recadastramento (ocasião que permitiria altas taxas de retorno) decorrente da criação do novo conselho, o CAU/ BR efetuou o primeiro recenseamento da profissão.

Nunca antes havia sido realizado um levantamento do tipo. Além da contagem numérica, o censo estendeu-se para outros dados que permitirão ao órgão montar estratégias para o gerenciamento da categoria e fazer com que a sociedade compreenda melhor a função desses profissionais.

O perfil da profissão resulta do processamento e ponderação de um questionário composto por 46 perguntas. A diretoria do CAU/BR explica que elas apresentavam, em sua maioria, alternativas fechadas e foram respondidas pelos quase 84 mil arquitetos que fizeram a renovação do registro profissional até o final do ano passado.

No primeiro semestre deste ano, prevê o presidente do CAU/BR, Haroldo Pinheiro, o total de arquitetos registrados no país vai alcançar a marca de 100 mil. Ou seja, o número estimado pelo sistema Confea/Creas, em torno de 139 mil profissionais, estava equivocado.

A coleta das informações na forma de autopreenchimento das questões e críticas às respostas através de lógica computacional evitou respostas em branco e falhas na marcação, entre outros problemas. O questionário foi respondido pela internet por praticamente a totalidade daqueles que se recadastraram.

A adoção desse tipo de formulário, pondera Pinheiro, permitiu varrer a população a baixo custo e sem incomodar as pessoas com a presença de um entrevistador, além de ser mais extenso que aqueles feitos por telefone.

O CAU/BR procurou identificar o perfil do arquiteto e urbanista e a natureza da profissão no Brasil. Os dados fornecerão subsídios ao conselho na definição de políticas para o desenvolvimento da arquitetura e urbanismo no país.

Formular a política salarial, identificar profissionais de outras áreas que estejam desenvolvendo atividades de atribuição exclusiva da classe e proporcionar à fiscalização uma visão mais abrangente são alguns exemplos da utilidade dessas informações. O censo será periodicamente repetido e, entre eles, haverá, ao menos uma vez por ano, pesquisas por amostragem, de acordo com o mesmo padrão do IBGE.

ARQUITETOS E URBANISTAS POR UF
Estão na região Norte, conforme o recenseamento confirmou, os estados que têm o menor número de arquitetos e urbanistas. Em Roraima, por exemplo, existem apenas 54 profissionais registrados. No extremo oposto está São Paulo, com 24.978 profissionais (29,82% dos que se recadastraram e responderam à pesquisa).

O Sudeste (com 53,80% dos arquitetos do Brasil) reúne o maior número de registrados, o que é compatível com o fato de ser a região onde reside a maior parte da população brasileira.

Nem sempre, porém, a relação maior número de habitantes/maior quantidade de arquitetos mostra-se verdadeira. Embora o Nordeste seja a segunda região mais populosa do país, é o Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) que possui o segundo maior número de arquitetos e urbanistas filiados ao CAU/ BR (22,61%).

Essa particularidade, avalia a direção do CAU, em parte é explicada por questões de natureza econômica e histórica, referentes ao processo de urbanização. Situação similar ocorre com o Distrito Federal, que ficou em oitavo lugar no total de registros.

Na avaliação do CAU/BR, o elevado poder aquisitivo e a expansão demográfica, os altos índices de urbanização e o desenvolvimento da indústria da construção civil ao longo das últimas décadas contribuíram para essa classificação.

“Se levarmos em conta a questão da criação de Brasília, com sua arquitetura considerada patrimônio histórico da humanidade, podemos entender sua posição de destaque”, registra o relatório do recenseamento.

“Os dados apontam para uma provável aglomeração de arquitetos e urbanistas nos grandes centros e nas maiores cidades de cada estado. Posteriormente esta informação precisaria de confirmação, que parece clara em função da natureza de atuação da profissão”, continua o documento.

MULHERES SÃO MAIORIA
Quando a análise do censo é realizada por gênero, fica evidente a supremacia feminina, algo que não é muito comum em outros segmentos vinculados à construção civil. De acordo com o censo, para cada arquiteto registrado no CAU/ BR existe 1,54 arquiteta.

Outro dado apurado, o ano de conclusão do curso, mostra que a expansão do número de mulheres na profissão se torna mais forte a partir de 2001. A projeção que pode ser deduzida do recenseamento é que ela irá perdurar e acentuar-se nos próximos anos.

Na tabulação gênero/faixa etária, a presença de homens só é maior em idades acima de 61 anos. Entre 20 e 25 anos as mulheres são quase 80% do total de registrados no CAU/BR. Até 40 anos - idade em que o profissional ainda é considerado jovem -, as mulheres mantêm índice acima de 60%. No que diz respeito à idade, independentemente de sexo, o maior contingente tem entre 30 e 35 anos.

IDENTIFICAÇÃO COM A PROFISSÃO
Quando indagados se trabalhavam na área de arquitetura e urbanismo, 92,30% dos pesquisados responderam afirmativamente. Para o conselho, trata-se de uma informação bastante positiva, ainda mais porque no percentual restante estão incluídos aqueles profissionais que, mesmo aposentados, refizeram o cadastro e responderam à pesquisa, fato que amplia o total de pessoas que efetivamente trabalham na área para a qual receberam formação.

Outro aspecto interessante apurado no recenseamento é o percentual de profissionais que informaram possuir empresas atuantes em arquitetura e urbanismo: mais de 20%. De acordo com o CAU/BR, trata-se de uma taxa elevada, se confrontada com o número de empresários no país. O censo também apurou que a maioria deles (75,18%) são microempresários, ou seja, possuem até cinco funcionários e também empregam outros arquitetos e urbanistas.

RENDA E ESCOLARIDADE
Ao computar a renda dos arquitetos, verificou‑se que mais de 40% deles recebem na faixa entre três e oito salários mínimos (entre 1.866 e 4.976 reais, considerando o salário mínimo nacional à época do levantamento, de 622 reais). Somado à faixa anterior (um a três mínimos), o percentual ultrapassa os 50%.

Na interpretação do CAU/BR, o predomínio dos rendimentos baixos deve‑se, entre outros motivos, à elevada quantidade de profissionais em faixas etárias mais baixas, ao número significativo de aposentados e às pessoas que se dedicam apenas parcialmente à prática da arquitetura e urbanismo. “Isso impressiona negativamente.

Claro que há uma maioria de população muito jovem que puxa essa renda para baixo. E certamente essa situação começa também a reduzir o rendimento dos mais velhos”, avalia o presidente do CAU/BR. “É uma coisa um pouco autofágica, que pode ir nos prejudicando se não houver um respeito maior pelas nossas responsabilidades”, reflete Pinheiro.

No que concerne à escolaridade, mais de 25% dos cadastrados no CAU/BR possuem, além do curso superior, a pós-graduação. Ainda assim, o conselho avalia existir grande espaço para o crescimento do nível de escolaridade e adianta que pretende buscar ações que estimulem o desenvolvimento dos arquitetos através de cursos a distância, convênios com instituições de ensino superior e apresentar áreas de atuação que tenham maior necessidade de profissionais.

MAIS DE 6 MIL DOCENTES
No cruzamento dos pesquisados com o ano de sua formação, percebe-se a expansão no número de graduados entre 2001 e o final do ano passado: 64,4% informaram ter completado o curso nesse período. É também significativo o total dos que trabalham como docente na área.

De acordo com o recenseamento, 6.135 arquitetos são professores, sendo que a maior parte deles se divide entre a carreira acadêmica e o trabalho como profissional de projeto.

Não deixa de ser surpreendente verificar que é bom o nível de satisfação dos arquitetos com a formação que receberam nas instituições de ensino. Totalmente satisfeitos estão 34,57%; e 52,26% afirmaram estar parcialmente satisfeitos.

“Esse resultado é até certo ponto positivo, mas, para permitir uma leitura isenta, carece de uma confrontação com a opinião dos contratantes e empregadores”, ressalva o relatório do CAU/BR. O censo também avaliou a participação dos arquitetos e urbanistas nas diferentes fases de um projeto arquitetônico completo nos últimos dois anos.

Verificou-se então que 20,24% dos pesquisados fazem apenas o projeto de aprovação (básico) e 22,32% afirmaram realizar o básico e o executivo. No entanto, apenas 11,28% declararam atuar na coordenação dos projetos complementares.

Pinheiro chama a atenção para a leitura complementar dessas respostas. “Há uma boa parte dos que afirmam desenvolver projeto executivo que não o fazem. A coordenação dos complementares faz parte do executivo”, destaca.

“E aí voltamos à questão da satisfação com as escolas. Muitos formandos pensam que fazem projetos executivos, detalhados, mas na verdade fazem algo ainda superficial, que depois é complementado e alterado”, argumenta. “E atuam menos ainda na direção de obra, algo do qual fomos progressivamente afastados ao longo do tempo.”

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 399
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora