Artigo: Fernando Serapião

Casas modernistas: o que fazer com elas?

Da venda ao tombamento, os vários destinos do legado modernista pelo mundo afora

A casa Farnsworth, célebre projeto de Mies van der Rohe, situada a cerca de 90 km de Chicago, está à venda, e pode ser adquirida pelo governo do estado de Illinois - que já comprou e restaurou a casa Dana-Thomas, projetada por Frank Lloyd Wright - para mantê-la aberta ao público.

O entrave é o valor: estima-se que o preço do pequeno pavilhão de aço e vidro - concluído em 1951 a um custo equivalente a 73 mil dólares - alcance a cifra de 5 milhões.

A casa Catão, projeto de Oscar Niemeyer, no bairro de São Conrado, no Rio de Janeiro, também está à venda. Assim como a residência de veraneio de Affonso Eduardo Reidy e a casa do barão de Saavedra, de Lúcio Costa, ambas em Petrópolis-RJ.

Na mesma situação estão, em São Paulo, a residência Del Negro, trabalho de Décio Tozzi, no bairro do Pacaembu, e a terceira casa projetada por Vilanova Artigas para a família Taques Bittencourt, no Sumaré.

Questão inevitável, proposta pela arquiteta Ana Luíza Nobre em artigo para o portal Vitruvius, é: como preservar essas casas modernas? E quem deveria conservá-las, uma vez que fazem parte do patrimônio histórico-cultural nacional e, algumas vezes, universal, como no caso da Farnsworth?

Uma das instituições que têm discutido essa questão é o Docomomo, organismo internacional sediado na Holanda, com unidades regionais em 32 países (entre eles o Brasil), que tem por objetivo discutir e proteger o legado moderno produzido no século 20. A instituição tem tomado diversas iniciativas nesse sentido. A solução é simples quando o imóvel possui inegável valor arquitetônico, como a vila Savoye (1929/31), em Paris, obra de Le Corbusier assumida pelo Estado e que se encontra aberta a visitação. Também de Le Corbusier, uma casa em La Plata, na Argentina, foi comprada pelo poder público e entregue ao colégio de arquitetos local, que a conserva.

Em São José dos Campos, SP, a sociedade organizada conseguiu que a prefeitura desapropriasse a casa da família Gomes, projeto de Rino Levi, permitindo aguardar a restauração da residência com segurança.

E as outras obras? Que destino dar a essas casas, muitas vezes malconservadas e/ou implantadas em áreas já inadequadas para moradia ou com programa superado? Quanto custaria uma residência de valor histórico?

No Brasil, não há notícia de nenhuma casa vendida acima do preço de mercado (como a Farnsworth) por ser premiada, importante ou conceituada. Muitas vezes, ocorre o contrário: desvalorizam-se pela falta de procura.

Em São Paulo, a residência Fernando Millan, projetada por Paulo Mendes da Rocha, trocou de dono há poucos meses, após permanecer por longo período à venda, mesmo com preço bastante razoável. O novo proprietário chamou, corretamente, Mendes da Rocha para executar um projeto de adequação a suas necessidades.

Millan, por sua vez, acaba de transformar uma casa de Artigas, nos Jardins, em galeria de arte. Outra residência de Artigas, a Rio Branco Paranhos, no Pacaembu, foi vendida. Tombada pelo patrimônio, a casa passou por reforma conduzida por Júlio Artigas, filho do célebre arquiteto paulista.

Júlio reside numa casa projetada por seu pai no bairro do Campo Belo, que, localizada em área extremamente verticalizada, recebeu proposta de compra (recusada) de 5 milhões de reais. Para o arquiteto, esse gesto representa a preservação da memória arquitetônica paterna: “Não há preço para resguardar a obra de meu pai”.

Casas de arquitetos - como a Canoas, de Niemeyer, no Rio, e a Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi, em São Paulo - são conservadas por fundações que administram os acervos desses profissionais.

Outras não tiveram a mesma sorte: há poucos anos, a casa de Rino Levi foi colocada à venda pela viúva do arquiteto, então residindo na Itália. Vendida e demolida, ergueu-se em seu lugar outra residência, de gosto duvidoso.

Esse fato gerou o tombamento de diversos projetos de Levi, inclusive a casa Castro Delgado Perez, rigorosamente preservada pela família. Não teve a mesma sorte a casa que Daniele Calabi projetou e ocupou, no Pacaembu, durante o período em que viveu no Brasil.

Vendida no início da década de 90, a obra - publicada na década de 50 pelas revistas Domus e L´Architecture d´Aujourd´hui - foi desfigurada.

Alguns imóveis de importância arquitetônica receberam a proteção da iniciativa privada, como ocorreu com a casa Moreira Salles, projeto de Olavo Redig Campos, no Rio de Janeiro, transformada na sede carioca do Instituto Moreira Salles. Ou mesmo a casa de Oscar Americano, projetada por Oswaldo Bratke, em São Paulo, que agora abriga a Fundação Maria Luíza e Oscar Americano.

Outra saída é a transformação de uso. Um ótimo exemplo é a sede do escritório BC & H Design, instalada, depois de primorosa recuperação, na casa da rua Bahia, em São Paulo, desenhada pelo arquiteto russo radicado no Brasil Gregori Warchavchik.

CASA MODERNISTA
A Casa Modernista, na Vila Mariana, São Paulo, foi desenhada e construída entre 1927 e 1928 por Gregori Warchavchik. Parte da história da arquitetura nacional, ela vem resistindo à degradação a duras penas, ao longo dos anos.

Desde a bem-sucedida campanha por seu tombamento, encetada em meados dos anos 80, nada foi feito para restaurá-la e conservá-la.

A Casa Modernista aguarda interessados - entidades, empresas, universidades, faculdades etc. - em sua preservação.

Tombá-la, propor mudança de uso, apelar para que instituições públicas ou privadas assumam a conservação? Cabe aos interessados, arquitetos ou não, buscar formas para a preservação dessa e de outras obras importantes.

Texto de Fernando Serapião| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 255
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