COLUNAS

Cidades precisam de mais projetos

Atualmente, existe clara vinculação entre os conceitos de bem viver e o modelo da cidade norte-americana, que emergiu ao final da Segunda Guerra como cultura hegemônica. Seus princípios foram construídos no desenvolvimento histórico dos EUA, e podem ser sintetizados em quatro pontos.

O primeiro é a habitação isolada, unifamiliar, próxima ao idílio da natureza, em bairros de baixa densidade e com amenidades exclusivas. A celebração do automóvel particular é o segundo ponto. Ainda, existem a fragmentação das cidades em guetos e a presença dos distritos de negócios, que manifestam vida efetiva apenas nos horários de trabalho.

A partir da década de 1960, o Brasil adotou esse modelo. Brasília é talvez o nosso maior exemplo. A capital federal tem claro desenho rodoviário, sem modais de transporte coletivo de alta capacidade, pouco amistoso ao pedestre, e rígido zoneamento funcional.

Em nossas cidades pré-existentes, as redes de transportes sobre trilhos foram desmanteladas. Privilegiou-se o modelo apoiado pelo pneu dos automóveis e dos ônibus, que ampliou o esgarçamento da cidade brasileira e impôs uma ampliação constante da mancha urbana, determinando baixas densidades ocupacionais.

Tal configuração é uma agressão desnecessária ao meio ambiente e gera um custo muito alto para a universalização das redes de infraestruturas, tais como esgoto, água, coleta de lixo e outras. Elegemos ainda o condomínio-clube murado e autossuficiente como modelo do bem viver.

Por último, modificamos nossos antigos centros urbanos para áreas de adensamento de empresas, tornando‑as desertas nos horários não comerciais. Por outro lado, ainda não desenvolvemos meios de ampliação democrática das decisões dos governos. Usam-se pouco os mecanismos de plano e projeto para pré-figurar a cidade que queremos vir a ser.

Nossos políticos, invariavelmente, apresentam plataformas abstratas e pouco especializadas no território nacional, que são pouco compreensíveis ao conjunto da população. A prática de desenvolvimento de planos e projetos, com aprovação ampliada da sociedade, é pouco usada e, muitas vezes, condena os governos a ficarem reféns de interesses privados e pouco republicanos.

Nas eleições de 2016, precisamos instar os candidatos a prefeitos e a vereadores a reverterem essas tendências. Eles devem se comprometer com uma gestão transparente, com programas com considerem as espacialidades e que promovam a equidade.

A cidade brasileira precisa enfrentar seus desequilíbrios territoriais. Tal situação só será exitosa na medida em que tenhamos um poder público protagonista, capaz de produzir um planejamento de interesse público, convidando a iniciativa privada a empreender para o benefício de todos.


Pedro da Luz Moreira, Presidente do IAB/RJ (Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento do Rio de Janeiro)

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 433
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