COLUNAS

PROJETO, 40 anos e mais 40

Fevereiro de 1977. A ditadura ensaiava uma “abertura lenta, gradual e segura”, como dizia o general-presidente Ernesto Geisel pouco antes de fechar o Congresso Nacional com o “Pacote de Abril”. Outro gaúcho, professor ilustre cassado pelo AI-5, Demétrio Ribeiro, presidia o IAB Nacional e se preparava para abrir o X Congresso Brasileiro de Arquitetos com o tema “Arquitetura Brasileira após Brasília”, apenas 20 anos depois do início da construção da Nova Capital no ermo do Planalto Central.

As primeiras edições da PROJETO destacavam a preparação do X CBA e apresentava Severiano Porto, premiado por obras integradas à paisagem, com materiais de construção locais. Nessa geração pós Brasília, emergiam Paulo Mendes, Lelé, Borsoi e tantos outros que reafirmavam a dinâmica da arquitetura brasileira. Desde então, o Brasil conquistou a democracia e sua taxa de urbanização saltou de 60% para 85% de uma população que cresceu de 112 para 210 milhões de habitantes. Das cerca de 30 faculdades de Arquitetura existentes em 1977, chegamos ao incrível meio milhar de escolas que hoje diplomam por ano mais arquitetos e urbanistas do que o total de profissionais existentes no país à época do lançamento da PROJETO. Em 2017 somos quase 150 mil arquitetos atuando no Brasil e construindo em seus 5.570 municípios, como atestam os registros do CAU.

A produção artesanal dos pequenos ateliês de projeto subsiste com dificuldade. A evolução da tecnologia para projetar e a internacionalização dos serviços de arquitetura e construção exigem nova atitude profissional e planejamento. No recente seminário “Diálogos com o Futuro”, observamos o exemplo da nova Estação Comandante Ferraz, com o cliente em Brasília, o projeto arquitetônico executado em Curitiba, de onde os arquitetos coordenavam os projetos complementares elaborados na Europa e agora observam os módulos do edifício em produção na China para montagem na Península Antártica.

Prever o que virá nos próximos 40 anos, até 2057, é coisa para futurólogo com competência e alguma sorte. Mas podemos esperar que a internet e os veículos coletivos não tripulados reduzam o transporte individual a eventuais módulos pessoais, cedendo os espaços públicos das cidades para os seres vivos. Imaginar bairros e edifícios autônomos no tratamento de efluentes e na produção de energia limpa, abolindo represas e usinas hidrelétricas com suas extensas linhas de transmissão, preservando rios, florestas e campos.

Acreditar que o rigor ético na produção da Arquitetura e do Urbanismo, a sustentabilidade e a evolução tecnológica, nos conduzam a outra estética, a novos desenhos de cidades, construindo muito mais com menos recursos naturais. Uma Nova Modernidade, inspirada em precursores como Rogers ou Lelé. Isso ou qualquer outra realidade (quem sabe?), a depender de riscos assumidos em conflitos ou mesmo em plebiscitos e eleições recentes, no Velho e no Novo Mundo.

Haroldo Pinheiro, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR)

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 435
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora