COLUNAS

Recuperar a ideia da cidade na escala do pedestre

Em 1972, na administração do arquiteto Jaime Lerner, então prefeito de Curitiba, a rua das Flores foi fechada aos carros, tornando-se exclusiva para pedestres. No Rio de Janeiro, durante oito meses do ano 1980, a equipe do arquiteto Carlos Nelson dos Santos, desenvolveu um trabalho no Catumbi, buscando entender suas especificidades e seus potenciais a partir de uma leitura do bairro baseada na memória de seus moradores. Um dos principais resultados desse trabalho foi o livro “Quando a rua vira casa”.

Lá se vão mais de 40 anos dessas experiências precursoras, seguidas de algumas outras iniciativas de destaque, entre elas o Rio Cidade, coordenado pelo arquiteto Luiz Paulo Conde. Mas, infelizmente, essa prática do desenho dos espaços urbanos desenvolvida a partir da demanda de moradores e usuários foi abandonada, em função de um ‘modelo cultural’ adotado nos anos 1990, que passa a dominar o pensamento acadêmico e se reflete no fazer público - que nas últimas décadas insistiu no planejamento em escala de avião, cujo pressuposto inicial são os extensos diagnósticos sobre a ‘condição urbana’.

Com a aprovação do Estatuto da Cidade, em 2001, esse modelo se fortaleceu e expandiu: centenas de planos diretores foram elaborados à distância, quase todos negando as especificidades do lugar, os desejos dos moradores, a escala próxima ao pedestre. São muitos planos, desconectados da realidade de cada uma das cidades brasileiras.

Os resultados dessa produção distanciada aí estão: cidades com déficits de toda ordem: ausência de redes de saneamento básico, congestionamentos diários e frequentes, poluição dos rios e do ar, espaços públicos abandonados e destruídos, calçadas à escala de algum monstro desconhecido que habita a cidade. Eis que, em 2015, com muita coragem e ousadia, é lançado o URBAN21, desafiando estudantes, professores, escolas e a própria sociedade a retomar o desenho na escala humana.

Uma competição onde as equipes escolhem um território em pequena escala, da sua cidade, merecedor de uma transformação que seja pensada para os usuários. Esse ano, em sua segunda edição, foram apresentados 95 projetos, produzidos em todas as regiões do país, demonstrando o entusiasmo de alunos e professores, frente ao desafio do concurso. Como resultado, novas questões se colocam. A principal delas, a revisão curricular, que não contempla o desenho urbano como uma das principais contribuições do arquiteto como agente transformador das nossas cidades.

Eis aí, a principal contribuição do URBAN21 - mudar os rumos da profissão, abrir novos horizontes para os estudantes e incentivar docentes transformadores a mudar o rumo do ensino da arquitetura.

Elisabete França, Arquiteta e Urbanista (Studio 2e Ideias Urbanas)

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 434
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