Artigo: Projeto de arquiteto

Projeto de arquiteto

Urbanismo de guerrilha, empreendedorismo, ativação das cidades. Há uma nova geração de arquitetos em busca de alternativas de atuação contra a morosidade do planejamento público, a inoperância dos concursos e a estreiteza das encomendas privadas

Qual é o seu projeto de arquiteto? Com o que pretende contribuir para a melhoria das cidades? Como se conquista o espaço de trabalho? Mercado imobiliário e qualidade arquitetônica são excludentes? Arquitetura social é voluntariado, não dá lucro? Dois jovens profissionais latino-americanos, o argentino Marcelo Faiden e o venezuelano Alejandro Haiek, revelam a seguir seus projetos da carreira de arquiteto. Não é teoria nem retórica expositiva: viver de ideal é possível. Projeta-se o cliente, balanceia-se a natureza da atuação - experimental, privada e acadêmica - e reflete-se estrategicamente. Para além da forma.

“A história contada quando eu era estudante dizia que mercado imobiliário e boa arquitetura são excludentes”, reflete o argentino Marcelo Faiden, após a semana que passou em São Paulo, em junho último, como professor visitante da Escola da Cidade. Formado pela Universidade de Buenos Aires e professor da Universidade Torcuato di Tella, na capital argentina, Faiden, que em 2005 se associou a Sebastian Adamo para constituir o escritório Adamo- Faiden, diz ter desconfiado cedo da incongruência daquela afirmação. “O que dizer da excelente produção moderna na Argentina e, antes, da obra de Mies van der Rohe nos Estados Unidos?”, ele indaga.

Em seguida, lembra a citação acerca do alemão que ajudou a construir a história do arranha-céu na América feita pelo espanhol Juan Herreros, em resposta a um estudante de arquitetura e transcrita no livro Detalhes construtivos e outros fetiches perversos: “Curiosamente, Mies é, entre os arquitetos europeus, o único que ao ir para os EUA consegue entrar no mercado e salvar sua posição de ‘grande arquiteto’. Como todos sabem, Gropius organiza o seu T.A.C (The Architects Colaborative) e sucumbe um pouco à pressão do mercado, como tantos outros. Neutra, na Califórnia, é outro arquiteto europeu, junto com Mies, que consegue fazer uma obra importante nos EUA, mas está, digamos, centrado no mundo da alta burguesia culta e de um capital disposto a admirar seu talento e sua inteligência. Mas o que Mies faz quando chega a Chicago? É o primeiro a dizer: ‘Perfis de aço, forjados de chapa dobrada, fachadas-cortina... muito bem: com isso eu posso fazer edifícios estupendos’ (...). De fato, todo mundo sabe que ele projetou o Seagram exatamente como foi construído, mas com uma fachada-cortina mais barata e [Phyllis] Lambert lhe disse que não era um edifício suficientemente nobre para a companhia do seu pai, e que ele fizesse rapidamente um projeto um pouco mais luxuoso, porque estava ficando muito nervoso. E Mies no dia seguinte o chamou e disse: ‘Está resolvido: é igual, mas de bronze’. E se construiu de bronze (...) nunca foi considerado pelos seus clientes um enfant terrible ou um maníaco”.

Esse trecho dá ideia do caminho que Faiden planejou trilhar no seu escritório nestes sete anos e meio de existência. De par com a criação de residências únicas para o seleto mercado privado, caminhou pela cidade “em busca de oportunidades onde ninguém as vê”. E encontrou: bairros periféricos convenientemente conectados por transporte público ao centro de Buenos Aires, com pontuais terrenos vazios em áreas residenciais “adensáveis e requalificáveis” (projetos do tipo fideicomiso); densidade construtiva ociosa em regiões que foram industriais e hoje são bairros-dormitórios, aptos à diversificação dos usos (casas MuReRe). E, finalmente, voltou à cidade estabelecida, conquistando o primeiro prêmio no concurso para a urbanização da praça Catalina, cobiçado terreno na capital argentina , em que se está construindo uma torre de escritórios. A seguir, o autoprojeto de arquiteto, pelo escritório Adamo-Faiden, em sua trilogia arquitetônica.

A CASA AMBÍGUA
Fideicomiso é uma associação temporária criada para - e válida durante - a realização de determinado empreendimento, surgida na Argentina durante a crise econômica de 2001 como alternativa aos tradicionais consórcios imobiliários, prejudicados pela carência de financiamentos. Tal instrumento se popularizou no país por causa da tributação menor e, menos burocrático, por sua maior facilidade jurídica.

No extremo, o arquiteto que atua através do fideicomiso é o mentor e empreendedor do projeto: quantifica custos, angaria fundos para a compra do terreno e a construção e gerencia a execução, beneficiando-se, de um lado, da maior liberdade de ação mas, de outro, assumindo os riscos da obra. São projetos pontuais, muitas vezes residências coletivas de pequena escala, que se apresentam como opção aos jovens profissionais frente aos inoperantes concursos de arquitetura e às concorridas encomendas privadas. Na mais recente edição da Bienal de Arquitetura de Veneza, em 2012, o sistema foi apresentado no pavilhão inglês, como estudo de caso para as ricas cidades europeias também em crise.

Em 2005, ano de criação do escritório Adamo-Faiden, as experiências de fideicomiso se intensificavam em Buenos Aires. Nos cinco anos e meio seguintes, o estúdio empreendeu quatro trabalhos do tipo, com os quais, “ao lidarmos com o que há de mais áspero no projeto - contrato, dinheiro e investidores -, construímos o caráter da nossa arquitetura”, assinala Faiden.

Não era o arquiteto salvando a plástica da sua obra contra a voracidade do mercado, ele conclui, mas uma experiência contemporânea inspirada na boa prática moderna argentina, de profissionais que, como Mario Roberto Alvarez, atuaram no setor imobiliário residencial. Uma abordagem macro, assinala Faiden, em que o projeto é a ferramenta de gestão de um campo ampliado de informações concorrentes.

Na etapa inicial da sua trilogia profissional, os argentinos utilizaram o fideicomiso para conceber os edifícios Arribeños (2007), Conesa (2008), 11 de Septiembre (2011) e 33 Orientales (2012), todos em Buenos Aires, simultaneamente a projetos desenvolvidos por encomenda privada.

Uma produção consistente, realizada em curto período por um escritório jovem. Na primeira edificação, localizada em bairro residencial da zona norte da cidade, colocaram em campo o tema da ambiguidade: são fachadas indistintas, duplas camadas com graus diversos de transparência, não se sabe se moradia (oito no total) ou pequeno serviço.

No Conesa (12 unidades), a intenção foi criar a casa individual - como no edifício de Isay Weinfeld publicado nesta edição de PROJETOdesign - em meio à habitação coletiva, para o que entraram em cena os terraços e jardins internos. Um desvio de percurso, com a saída prematura da construtora, colocou os arquitetos no comando do canteiro, prática que se sedimentaria nos dois trabalhos seguintes. “Ganhamos liberdade para projetar o nosso cliente. Sabíamos dos custos, das opções construtivas e do impacto das decisões formais no empreendimento; com isso ampliamos o campo de informações na condução da nossa arquitetura”, reflete Faiden.

E o fideicomiso, com a galeria de terrenos não convencionais que potencializa o uso - nesgas, áreas remanescentes de lotes já edificados, tanto em planta quanto no espaço aéreo -, foi o meio adequado para a experimentação de uma arquitetura que ocupa bairros com boa infraestrutura, periféricos mas facilmente acessíveis, aptos à densificação e à diversificação funcional.

Faiden destaca, no edifício 11 de Septiembre (seis unidades), a “noção de cidade mista mediante a construção de seis ambientes programaticamente indeterminados, mas espacialmente específicos, entendendo que a partir dessa aparente contradição se abre um caminho para a intensificação do habitar”.

Compacto e profundo, com generoso pé-direito interno, o prédio se comunica com o exterior por uma fachada vegetal translúcida, que “faz eco à ambiguidade que a construção pretende instalar”. Condição similar se apresenta no 33 Orientales, onde a mistura de funções é expressa por volumes escalonados, com pequenos escritórios/residências no térreo e moradias que compartilham espaços, nos recuos e pavimentos superiores.

TETO HABITÁVEL E VOLTA À PRAÇA
Já no projeto MuReRe, pronto para entrar em ação mas no aguardo das condições ideais para que se viabilize tal como imaginado estrategicamente, o tema é a regeneração de antigas áreas industriais ocupadas por residências, ao estilo de bairros-dormitórios. Mapeada a zona de intervenção, os arquitetos identificaram pontos para a inserção de habitações que, em vez de um padrão para a reprodução em série - etapa posterior ao MuReRe -, funcionariam como aceleradoras do processo.

Com elas, assinala Faiden, a ideia é chamar a atenção de governantes, investidores e da população de baixa renda para o potencial de adensamento de determinados locais da cidade, sendo a marca da iniciativa composta pelas iniciais de mutualismo (mútua requalificação, da casa e do entorno), residencial e regenerativo.

Desenhando para aqueles desprovidos de boa moradia, os arquitetos conceituaram seu projeto, literalmente, como um teto habitável: leve, para ser apoiado na cobertura de edificações existentes; e flexível, para acomodar metragens e necessidades específicas de ocupação.

As entidades de proteção social e de moradores são um dos braços do trabalho, responsáveis pela formação de duplas (o dono da casa ampliável e o candidato a ocupar o novo teto), assim como o poder público (que impulsione a concessão de crédito popular para a construção das residências) e os próprios arquitetos, que já fizeram a sua parte, aprontando a quantificação dos custos, o detalhamento executivo e a qualificação prévia dos construtores.

“Temos cinco duplas em vista, uma delas já consolidada, mas falta a parte da municipalidade. É difícil despertar o interesse do político quando não há meios para se contabilizar o projeto ou uma obra a se inaugurar”, avalia o argentino. Por que não começar pela dupla já estabelecida?

“Os fabricantes se interessam pela construção do modelo, é possível que o projeto desperte a atenção da mídia e até ganhe prêmio. Mas, se não tiver respaldo financeiro para ser implantado organicamente, no bairro de estudo e em outros, corre o risco de ser apropriado inadequadamente, virar sala burguesa”, analisa Faiden.

A proposta está completando três anos de concepção, e a saída é aguardar um pouco mais, antes de construir o protótipo, e esperar pelas consequências. De qualquer forma, com o fideicomiso e o MuReRe, o estúdio Adamo-Faiden cumpriu parte da sua missão profissional.

“Primeiro, competimos com o mercado e vencemos, conquistamos a liberdade de projeto; depois, mostramos que somos capazes de pensar mesmo na ausência da encomenda e de aglutinar interessados”, conclui Faiden. E, nesse caminho, conquistaram a cidade consolidada, vencendo o concurso público para a urbanização da praça Catalina.

URBANISMO 21
Alejandro Haiek, fundador do escritório Lab.Pro.Fab (com Eleanna Caldaso), na Venezuela, cumpriu intensa agenda acadêmica internacional, depois de formado. De 2000 a 2005, esteve na Costa Rica, nos Estados Unidos e no Chile, egresso do seu país de origem, onde, acreditava, não havia campo de trabalho para o arquiteto.

A distância, contudo, passou a se interessar pelas notícias de projetos populares encabeçados por líderes comunitários venezuelanos, e decidiu voltar. A polarização política - chavistas x oposição - é um entrave, mas, com a descentralização do poder (moradores desenvolvem projetos, amparados por comitês e mesas técnicas comunais, e solicitam a execução pelo governo), algumas mudanças positivas começavam a acontecer nos espaços públicos de Caracas.

Haiek decidiu, então, se reestabelecer na cidade e atuar no chamado ativismo de rua. Mas como dimensionar o custo dos projetos sociais? “Quando estimamos três meses de trabalho são, na verdade, três anos de desenvolvimento da proposta”, afirma. Em retrospectiva, o arquiteto contabiliza que, nos primeiros tempos, o balanço do escritório mostrava cerca de 70% de projetos privados, 25% de experimentais e 5% de atividade docente.

Mas em 2012, passados sete anos, esse perfil tinha mudado: atualmente estão em elaboração 20% de trabalhos privados, 55% de experimentais e 25% para a academia. Haiek está satisfeito com a sua trajetória: descobriu mecanismos que dão sustentabilidade financeira aos que se interessam pela questão social. “Não se trata de assistencialismo ou filantropia”, ele ressalva, citando como exemplo os projetos Parque Cultural Tiuna El Fuerte e praça El Valle, duas das iniciativas de autogestão comunitária a que se dedicou nos últimos anos.

Um ano e meio de planejamento com a população (drenagem da água das chuvas, salvaguarda de árvores centenárias e da igreja, e inserção de uma biblioteca são itens do programa desenvolvido nesse período), sete anos de espera para que a comunidade pleiteasse junto ao governo a contratação dos arquitetos e a implantação do projeto, mais dois para o início das obras são, até o momento, a agenda da praça El Valle, parcialmente implantada - ainda à espera da construção da biblioteca.

Já com a proposta para o Tiuna El Fuerte, uma comunidade de artistas de Caracas - premiada em Quito, Barcelona e Veneza -, ele entrou em contato com o conceito chavista de responsabilidade social. Uma vez elaborado o projeto, os arquitetos enviaram cartas a empresas estabelecidas no país, solicitando materiais e equipamentos para a execução. Dois anos depois, foram surpreendidos com a resposta positiva de uma companhia, que enviou 40 contêineres. “Não gostamos dos contenedores, são quentes e desconfortáveis. Mas é o que tínhamos para trabalhar”, conta o arquiteto, que contrapôs varandas e terraços ao que havia de negativo no suporte com que trabalhou.

A estética do acidental, como define Haiek, conjugada à atuação com mestres artesãos que vivem (em ociosidade) nas comunidades, tais como serralheiros e carpinteiros, é elemento central da sua arquitetura. “Aprendemos a operar nas entrelinhas e, hoje, muitos dos trabalhos que considerávamos experimentais estão sendo contratados pelo Estado”, ele revela. “Interessa-nos a arquitetura enquanto gestão de conhecimentos”, conclui.

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 401
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