Especial: Arquitetura revelada

Fotógrafos

Parceiros de nossa jornada, os principais fotógrafos de arquitetura brasileiros surgem, aqui, em (auto)retratos, e contam suas histórias

CRISTIANO MASCARO
Lenda talvez seja um pouco de exagero, mas qualquer ensaio fotográfico que leve a assinatura de Cristiano Mascaro (nascido em Catanduva, SP, em 1944) está coberto por uma aura particular. A fotografia entrou na trajetória de Mascaro através de um livro de Henri Cartier-Bresson, visto na biblioteca da FAU/USP, “até hoje uma das melhores coisas da escola” onde ele se formou arquiteto. “Impressionado com aquela maneira tão especial e sensível de ver o mundo, e estimulado por alguns professores, como Benedito Toledo e João Xavier, resolvi que o melhor que poderia fazer seria tornar-me fotógrafo”, ele conta. Não pensou, no entanto, em dedicar-se ao registro arquitetônico. “Nunca me considerei fotógrafo de arquitetura. Fascinado pela fotografia do pós-guerra e pela agência Magnum, fui ser repórter fotográfico”, ele rememora.


Depois da experiência jornalística foi que dirigiu, por 14 anos, o Laboratório de Recursos Audiovisuais da escola em que se graduou. Equilibrando-se entre ser invasivo e xereta e não ser em momento algum mal-educado - a cordialidade é um dos traços de sua personalidade -, Mascaro já foi até detido, em Cascadura, bairro do Rio de Janeiro, por conta de seu trabalho. Nos últimos anos, tem se voltado praticamente a projetos pessoais, mas não perdeu o entusiasmo em registrar a arquitetura. “Acredito muito na emoção e no impacto que uma obra possa provocar quando estamos diante dela pela primeira vez. Penso que, movido pela emoção da descoberta, iremos criar as melhores imagens que a representem.”


Para Cristiano Mascaro, a ideia de apoiar o edifício sobre pilotis, abrindo passagem para a luz, a brisa e as pessoas, talvez não se tenha repetido em nenhuma outra obra com a beleza e a generosidade do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro. “Apesar de não ser um templo religioso, deveríamos nos ajoelhar diante dele em homenagem e respeito a seus autores, Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy e equipe”


NELSON KON
Campeão das citações dos fotógrafos entrevistados para esta edição, Nelson Kon é um dos pioneiros da fotografia de arquitetura no Brasil e já clicou, entre tantos outros, para Paulo Mendes da Rocha, Lina Bo Bardi, Rino Levi, Vilanova Artigas, Paulo Bruna, Aflalo & Gasperini, Ruy Ohtake, Andrade Morettin, MMBB e Isay Weinfeld. Arquiteto formado pela FAU/USP (1983), cursou o concorrido Laboratório de Recursos Audiovisuais da faculdade, chefiado por ninguém menos do que Cristiano Mascaro e frequentado pelos fotógrafos contratados João Musa, Raul Garcez e Sérgio Burgi. Um convívio que fez mudar o foco de Kon, ao optar imediatamente pela fotografia.

Sua história se confunde em parte com a de PROJETOdesign, desde quando a publicação se chamava apenas PROJETO, sob a direção de Vicente Wissenbach e Hugo Segawa. “Minha produção foi bastante difundida e fiquei conhecido entre os arquitetos”, recorda. Outro momento importante da carreira foi atuar como fotógrafo do projeto Arte/Cidade, o que lhe garantiu reconhecimento além do circuito específico da arquitetura. “Fotografar implica decisões que, por si só, são um comentário sobre o objeto. E, desde o modernismo, quase sempre a abordagem que a mídia faz da arquitetura é positiva. Era uma forma de ensinar como a nova arquitetura deveria ser vista e é muito rara uma abordagem mais crítica: os edifícios e as fotos são sempre belos. Não sei como fugir disso, e isso me incomoda um pouco.”


Para Nelson Kon, é um desafio interessante fotografar, de forma original, edifícios já extensivamente retratados. Nesta imagem, o Copan, em São Paulo, mostra uma curiosa relação com o entorno


ANDRÉS OTERO
É comum que crianças e adolescentes se apropriem de objetos que pertencem aos pais. No caso do gaúcho Andrés Otero, o alvo da expropriação foi uma câmera Yashica que pertencia a seu pai e acabou prenunciando uma guinada radical em sua vida. Otero abandonou o curso de medicina no quarto ano e migrou para o centro de artes da Universidade Federal de Santa Maria. Era o começo da década de 1980 e ele passava 40 horas por semana em ateliês de pintura e fotografia.


Com pouco mais de 20 anos, passou a fazer artesanato com amigos para financiar sua transferência para Niterói, onde frequentou o curso do Senac/RJ, na época um dos mais reconhecidos do país. Menos de um ano depois já estava em São Paulo, trabalhando como assistente de Ary Brandi. Nessa época descobriu Nick Knight e Henri Cartier-Bresson, os primeiros a influenciarem seu trabalho, e pouco depois Cristiano Mascaro.


A foto que, a partir de um ponto de vista incomum, retrata o Museu de Arte do Rio (MAR) representa bem o trabalho atual de Andrés Otero

Na capital paulista, fez diversos cursos na escola Focus, onde foi aluno de Nelson Kon, de quem depois se tornou assistente. “Foi com Nelson que aprendi a ter uma abordagem racional e bastante rigorosa em relação ao objeto a ser fotografado.” No final dos anos 1980, Otero descobriu no design a exuberância experimental dos irmãos Campana, Francisco de Almeida e Guinter Parschalk, antes de enveredar pela fotografia de arquitetura. Hoje, divide seu tempo entre o Brasil e a Suíça e tem fotografado projetos de lighting designers como Mônica Lobo, Carlos Fortes e Gilberto Franco.


BEBETE VIÉGAS
Talvez tentando escapar à tradição familiar - o pai e os dois irmãos são arquitetos -, a paulistana Bebete Viégas decidiu cursar cinema. Não fugiu, porém, ao universo da arquitetura: tornou-se fotógrafa na área, inclinação para a qual certamente foi influenciada nas conversas familiares, em que o tema era recorrente. Nessa escolha valeu-se também da especialidade (fotografia) na qual fez pós-graduação, seguida pelo mestrado em comunicação e semiótica. Entre suas referências estão dois brasileiros.


“O uso que Cristiano Mascaro faz da luz, a riqueza de texturas e a precisão nos enquadramentos são lições que qualquer aspirante a fotógrafo de arquitetura deveria estudar”, indica. “Também admiro muito Nelson Kon, que tem uma importância singular nessa área. Ele resgatou a profissão como uma especialidade no Brasil e produziu um rico acervo da arquitetura brasileira em todos esses anos de trabalho. Éramos carentes desse registro, dessa história.”


Nelson Kon, ex-professor de fotografia do Senac/SP, e Bebete Viégas, sua sucessora na função, escolheram fotos do mesmo prédio: o Copan. “No início, imaginava realizar um registro em preto e branco, mas, por fim, optei por fazê-lo colorido. Foi aí que percebi a grande variedade de cores no edifício, evidenciando a vida intensa do Copan”, explica Bebete

A admiração transformou-a, de certa forma, em discípula de Kon. Logo depois de concluir a pós-graduação, em 2003, Bebete foi procurada por ele. Kon estava deixando o Senac/SP, onde era responsável pela disciplina fotografia de arquitetura, e indicou-a como substituta. Ensinar pode não ser fácil, mas fotografar é ainda mais difícil, relata Bebete. “Mais de uma vez tive que entrar na piscina [cheia] de uma casa para conseguir um bom ângulo. Em algumas ocasiões carregando uma escada de alumínio”, revela.


CARLOS GUELLER
A bolsa de estudos oferecida à mulher para cursar o mestrado em São Paulo, em 1990, trouxe o fotógrafo Carlos Gueller - com formação em psicologia pela Universidade de Buenos Aires - para a capital paulista. Gueller carregava na bagagem profissional, entre outras experiências, a colaboração com a revista Summa, para quem fotografara uma reportagem de capa em 1987. “Foi minha introdução no mundo da fotografia de arquitetura”, conta.


O prazo para a estada em São Paulo, que deveria ser de dois anos e meio, já se estende por mais de duas décadas. Antes da viagem, a revista Íris Foto, enviada pelo irmão que morava em Santa Catarina, conectava, desde meados da década de 1980, o argentino ao movimento fotográfico brasileiro. Para quem trabalhava para a principal publicação da área na Argentina, era quase inevitável a busca de contato, no Brasil, com Vicente Wissenbach, diretor da revista que então se chamava apenas PROJETO. “Algum tempo depois, fiz minha primeira capa: a da edição 164, com o edifício Delta Plaza, do escritório Botti Rubin”, recorda.


Edifício Atrium Faria Lima, em São Paulo. O projeto do escritório Aflalo & Gasperini foi capa da edição 78 da revista FINESTRA, na qual Gueller já foi fotógrafo permanente

Gueller diz que para fotografar arquitetura é fundamental entender e respeitar a obra e o projeto do arquiteto e então desenvolver um olhar pessoal. “Outro aspecto importante no nosso trabalho é a relação que estabelecemos com a cidade e seus habitantes. Com sua riqueza e diversidade e todos os seus problemas, torna-se um desafio permanente decifrar São Paulo e tentar traduzir essa relação conflituosa em imagens.”


CELSO BRANDO
Nascido, criado e radicado no bairro carioca da Tijuca, Celso Brando descobriu a fotografia ainda na infância, nos anos 1950, quando ganhou de presente uma câmera caixote. A então nova forma de expressão artística acabou incorporada ao seu dia a dia e, enquanto estudante de arquitetura, Brando já registrava obras para os colegas, participava de concursos e de salões de fotografia. Depois de formado, exerceu a arquitetura até o começo da década de 1980, quando se associou a um casal de amigos para fundar o estúdio Câmera Fotografia, que prestava serviços a arquitetos e construtoras.

A bagagem acadêmica e o olhar do fotógrafo o ajudaram a apurar a busca pelos ângulos e pela iluminação que melhor mostrem o trabalho do arquiteto. “A perspectiva corrigida, sempre que possível, é o diferencial na fotografia de arquitetura. Em tempos de Photoshop, prefiro o registro correto, que mostre a intenção do autor quando imaginou seu projeto”, revela Brando. Admirador do trabalho de Nelson Kon e Leonardo Finotti, Brando fotografa para arquitetos como João Filgueiras Lima (Lelé) e Luís Américo Gaudenzi, e já passou apuros em busca de uma boa imagem.

O último deles foi no final de 2011, a serviço de PROJETOdesign, no teleférico do Complexo do Alemão. O veículo deu um forte solavanco e travou repentinamente. A cabine ficou pendurada sobre o morro, oscilando ao sabor do vento, muitos metros acima do casario. Na época, Brando disse que não se assustou, mas dois anos depois ele ainda recorda o episódio como o mais inusitado de sua carreira.


Como a rua é estreita, com pouco espaço para recuo, Celso Brando usou uma supergrande angular de 15 milímetros para fotografar o Museu de Arte do Rio (MAR), o que acentuou a perspectiva e conferiu impacto à imagem


DANIEL DUCCI
Vivendo há mais de uma década em São Paulo, o paranaense Daniel Ducci (Curitiba, 1979) é uma das crias do fotógrafo/arquiteto Nelson Kon. “Toda a base da minha formação como fotógrafo de arquitetura veio do período [três anos] em que fui assistente dele”, reconhece Ducci, que ingressou na profissão aos 15 anos. Em 1999 veio para a Pauliceia cursar fotografia, no Senac/SP. “Fotógrafos como Ezra Stoller, Julius Shulman e Gabriele Basilico são referências importantes no meu trabalho”, ele exemplifica.

Ducci entende que o seu objetivo é tornar compreensível a obra para quem não visitou o espaço. “Para isso, é necessária a interpretação através da fotografia, expressando em imagem o objeto, com sua transparência, escala e profundidade”, avalia. Ducci também considera que, sendo uma linguagem de representação, a fotografia oferece ao profissional duas facetas de ação: a documental e a ficcional. Ir descobrindo a obra enquanto a fotografa é, em geral, o processo que Ducci segue, “mas isso não é uma regra”.


Praça das Artes, em São Paulo, projeto do escritório Brasil Arquitetura, junto com o arquiteto Marcos Cartum. “O fotógrafo tem espaço para criar e opinar. Sua subjetividade atua nas escolhas que faz, no modo como decide mostrar a obra”, afirma Daniel Ducci

Em sua opinião, o papel da fotografia de arquitetura - seja no passado, seja na atualidade - é mostrar uma obra a um grande número de pessoas. “Algumas são mais conhecidas pelo contato com as imagens”, afirma o fotógrafo, a quem a carreira não trouxe (ainda) fatos inusitados ou curiosos. “Que me lembre, não houve nenhum”, ele registra. Ducci diz que nunca se negou a realizar um ensaio, e parece pouco provável que isso ocorra, dada sua personalidade afável.


JOANA FRANÇA
Pai, mãe e irmão arquitetos, e a cidade natal - Brasília, onde se respira arquitetura (além de ar muito seco, no inverno) - praticamente condicionaram Joana França, igualmente com formação em arquitetura, a se dedicar à fotografia nessa área. A paternidade na profissão, no entanto, ela deve a Paulo Zimbres. “Em 2005, botei um portfólio mal ajambrado embaixo do braço e bati na porta do escritório dele, oferecendo meus serviços”, conta Joana (o arquiteto seria homenageado com uma sala especial na 5ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo).

 

A cara de pau - ela mesma reconhece - e a coragem de Zimbres foram o começo de uma jornada na qual Joana também já foi tiete. “Um e-mail de fã para Nelson Kon, seguido de uma conversa em seu estúdio - essas foram as maiores influências formadoras em meu trabalho”, ela diz. Na cidade onde passa a maior parte de seu tempo - “viajo bastante e, de preferência, por longo período, porque assim sinto que morei um pouco em cada lugar” -, Joana costuma acompanhar outros colegas de profissão que vão fotografar Brasília.

“Sempre aprendo com essas experiências, mas estar com Iwan Baan [fotógrafo holandês] foi um momento de virada no meu modo de pensar e produzir fotografia. Aprendi que foto de arquitetura ganha muito associada às cidades. Comecei a buscar pessoas como elementos importantes na hora de fotografar.”


A escolha da tomada da Tower Bridge, em Londres, além de razões afetivas, representa também uma transgressão. “Quando a ponte subiu ao fundo, e o trânsito foi interrompido, rapidamente conclui que fazer a foto valia o risco de receber o grito repreendedor de um policial londrino. Pulei o guarda-corpo e fui para o meio da pista, andando e fotografando”


JOMAR BRAGANÇA
O namoro de Jomar Bragança com a fotografia começou ainda na Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais, época em que ele se interessou pelo curso de cinema da Escola de Belas Artes da UFMG. “Eu estava insatisfeito na engenharia, e procurei na arquitetura novos ares, em que pudesse vivenciar questões ligadas à estética e ao humanismo”, recorda o conterrâneo do poeta Carlos Drummond de Andrade, ambos nascidos na cidade de Itabira, na região Centro-Sul mineira.

 

Os registros iniciais realizados por Bragança datam do final dos anos 1980. “Para nós, naquela época, a fotografia de arquitetura era quase uma utopia”, ele lembra, contando que foram os arquitetos professores que abriram as portas para a sua atuação como fotógrafo especializado, numa trajetória que tem como ponto marcante a publicação do livro Lojas - Arquitetura (AP Cultural). “Foi um projeto ousado, liderado pelo grande Sylvio de Podestá, com poucos recursos e muito entusiasmo”, detalha. Para Bragança, que considera o japonês Yukio Futagawa (morto em março deste ano) a principal referência em seu ofício, a fotografia vive hoje um processo de saturação.


Elementos criam movimento e diálogo entre a arquitetura e a figura humana, sem que esta seja apenas uma referência da escala do espaço. Imagem do Museu de Arte Moderna (Moma) de Nova York

“A experiência do ato fotográfico está cada vez mais banal, quase um reflexo. Nesse sentido, criar uma linguagem, ter uma postura opinativa, significa para mim resgatar a liturgia do ato de fotografar”, reflete. Talvez seja essa atitude uma das razões que já o levaram a se recusar a realizar ensaios. “Já fiz isso por diversos motivos. Inclusive a falta de empatia”, completa.


MCA ESTÚDIO
Fica no lado menos glamoroso da baía da Guanabara, em Niterói, o ateliê que é importante referência em fotografia de arquitetura e de interiores no Rio de Janeiro: o MCA Estúdio, formado em 2000 pelos cariocas Denilson Machado e Juliano Colodeti. A dupla, que se conheceu em um curso profissional, de início fazia registros ao sabor da encomenda. Não demorou, porém, para se identificarem com a fotografia de arquitetura.


Denilson Machado e Juliano Colodeti

Embora não aponte um profissional que tenha sido fundamental na sua formação, a dupla cita como referências Edward Ruscha, Francesca Woodman, Steve McCurry e Cartier-Bresson, entre outros. Para Machado e Colodeti, o lançamento de um livro em 2006 foi um momento marcante na trajetória do estúdio. Na obra apresentaram trabalhos com sua própria estética fotográfica, sem a obrigação de seguir conceitos, recordam. E puderam escolher os arquitetos, o que avaliam ter sido crucial para o sucesso das fotos e da publicação.


Para os profissionais do MCA Estúdio, a foto da residência em Itaipava, RJ, projetada por Bernardes + Jacobsen Arquitetura, sintetiza seu trabalho: a imagem é simples e limpa, mas revelando uma preocupação muito grande com a composição e, principalmente, com a luz

Ainda que com frequência recebam desenhos dos projetos a serem fotografados, Machado e Colodeti os consideram irrelevantes no seu processo criativo. Dizem, no entanto, que procuram passear calmamente pela obra no caso de inviabilidade da visita preliminar. Nesse momento, buscam apreender o lugar, analisando o potencial da luz - sempre muito importante - e traçando mentalmente a linha e o plano do que será mais interessante apresentar na fotografia de cada ambiente.


LEONARDO FINOTTI
Ex-professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), onde lecionou fotografia e cinema, o mexicano Thomaz Harrell foi quem deu o primeiro impulso à vocação fotográfica de Leonardo Finotti, que se graduou arquiteto por aquela escola. “Tive uma formação em fotografia paralela à arquitetura”, conta Finotti, que nasceu em 1977, em Uberlândia. Foi, porém, na capital portuguesa que o mineiro se especializou em fotografia de arquitetura.

Finotti considera um dos momentos marcantes de sua carreira o início, em Lisboa, quando fotografou a obra completa do Proap, escritório português dedicado à arquitetura paisagística. Ele também menciona as várias viagens realizadas a Porto Alegre para registrar a obra do Museu Iberê Camargo do português Álvaro Siza. O projeto do centenário de Niemeyer (publicado por PROJETOdesign) é outra das iniciativas das quais Finotti se orgulha. Boa parte dos trabalhos dele é realizada por iniciativa própria. “Gosto de escolher projetos e criar coleções que podem virar exposições, publicações especiais etc.”, afirma.


Vista aérea de um campo de futebol de Icaraí-Grajaú, extremo sul de São Paulo. Para Leonardo Finotti, a foto que ele escolheu, um ensaio autoral e diverso da sua produção conhecida, revela a resposta positiva daquela comunidade à melhoria da qualidade urbana

Talvez o mais global dos fotógrafos brasileiros na sua área de atuação, Finotti teve a oportunidade de conhecer Julius Shulman (americano que se tornou célebre pelas fotos das Case Study Houses), meses antes da morte deste. “Quando mostrei meu catálogo da exposição de Niemeyer, ele, com quase cem anos, levantou-se e pediu para eu organizar uma viagem para a gente fotografar”, revela Finotti.


MAÍRA ACAYABA
A Pentax mecânica do pai (que ensinou à filha as noções de foco, abertura/ velocidade fotográficas) foi o instrumento que direcionou a cientista social de formação a seguir a profissão de fotógrafa. O primeiro (e principal) curso ela fez com Carlos Moreira, em um ateliê na Barra Funda, de onde saiu clicando as ruas da cidade e o Memorial da América Latina. “Devem ser as minhas primeiras fotos de arquitetura”, supõe Maíra Acayaba.

 

No curso, ela diz ter conhecido os grandes fotógrafos - “ele [Moreira] tem uma imensa biblioteca e passávamos as manhãs imersos em livros de fotografia, discutindo linguagem”, rememora. Foi lá que, além de outros mestres, ela descobriu Joel Meyerowitz (“um fotógrafo de rua, na mesma tradição de Robert Frank e Cartier-Bresson”) e suas fotos de varandas, com o mar ao fundo, o enquadramento reto e o silêncio. Geraldo de Barros, abstrato e geométrico, e Cristiano Mascaro vieram na fase posterior.

Maíra acredita ter uma linguagem profissional impressa nos trabalhos que realiza. “Tento ir um pouco além da objetividade própria da fotografia de arquitetura e criar uma atmosfera, de maneira que quem olha possa vivenciar uma obra que talvez não tenha a oportunidade de conhecer pessoalmente”, argumenta. O que a aflige é a linha torta. “Foto de arquitetura nunca pode ser torta, porque se perde a noção de como o edifício se impõe na paisagem. Fica tudo confuso e feio. Não posso ver uma linha torta”, revela.


Praça do Patriarca, em São Paulo. Fotografar a cidade na madrugada é um hábito de Maíra Acayaba, incentivado por amigos que integram um coletivo de fotógrafos


PEDRO KOK
Formado em arquitetura há apenas quatro anos (FAU/USP, 2009), Pedro Kok nasceu em São Paulo, mas, como ele mesmo diz, mora na cidade desde agosto do ano passado. “Preferi estabelecer que resido onde estou, mesmo que a estada seja curta”, explica. Seu primeiro contato com a fotografia foi em 2003, as vésperas de ingressar na universidade.

Sem formação específica como fotógrafo de arquitetura, ele não teve oportunidade de trabalhar como assistente de outros profissionais. “Nesse aspecto, sou autodidata”, avalia. Depois de ter feito um breve curso com Nelson Kon em 2006, Kok passou dois anos estudando o assunto. “E produzindo péssimas fotos”, brinca. Na sua opinião, a melhora só ocorreria no seu trabalho de graduação, quando se pôs a fotografar as obras de jovens arquitetos recém-egressos da FAU/USP.


Foi num local distante, num país cuja língua não falava, num dia feio, nublado e chuvoso, que Pedro Kok fez a foto acima. “Não tenho uma fotografia favorita, mas gosto dessa porque a cena é espontânea, não arranjada. Há uma conversa lúdica entre a estrutura da ponte Slinky Springs to Fame, na Alemanha, e as crianças”

Em 2010 e 2011 a carreira ganhou impulso com a boa repercussão das suas experiências com vídeos, “produções curtas, simples, centralizadas nas fotografias de arquitetura”. “Estava criando algo realmente novo, autoral”, observa Kok, que foi, então, comissionado pelo Instituto Tomie Ohtake para produzir vídeos sobre a arquitetura brasileira. “Quando publicados na rede, [os vídeos] alcançaram incrível audiência”, relata. Kok acredita que ele e a internet estão crescendo juntos. “Tenho nos meios digitais plataformas importantes para a divulgação do meu trabalho”, afirma, observando, no entanto, que estes são insuficientes para o equilíbrio econômico-profissional.


PEDRO VANNUCCHI
Tudo indicava que a máxima “Filho de peixe, peixinho é” se confirmaria mais uma vez. Em 2010, Pedro Vannucchi, filho do arquiteto Gianfranco Vannucchi, formou-se em arquitetura pela FAU/ USP. No entanto, desde 2006 ele já investia na fotografia como um interesse paralelo, despertado durante uma viagem a Buenos Aires. “Eu saía com a câmera e parava para fotografar a cidade. Gostei muito daquela experiência, tanto que na volta passei a repeti-la com frequência e a estudar fotografia com Inaê Coutinho, João Musa e Gal Oppido. Ainda no mesmo ano fiz o curso com Nelson Kon, que é a minha maior influência na fotografia de arquitetura. No Brasil, foi ele que abriu espaço para um trabalho de qualidade nesse campo.”

Logo em seguida, Vannucchi comprou sua primeira câmera digital reflex e passou a fotografar alguns edifícios para o escritório Königsberger Vannucchi, do qual o pai é sócio. Em seu portfólio constam atualmente ao menos dois ensaios para os escritórios Andrade Morettin, Base 3 Arquitetos, Brasil Arquitetura, DFA, Escritório Paulistano, L+M Gets e Studio mk27. Em 2009, ao fotografar uma casa para o arquiteto Felipe Rodrigues, Vannucchi passou pelo primeiro grande apuro profissional. Apoiado numa escada para clicar uma das laterais da obra, causou desespero numa senhora não informada sobre a sessão fotográfica. “Ela gritou, balançou a escada comigo em cima e chamou a polícia. Foi a primeira vez que preenchi meus dados pessoais escrevendo fotógrafo no campo da profissão.”


Para conseguir a bela vista do átrio sobre a piscina, elemento que é o coração e a referência do Sesc Belenzinho, em São Paulo, Pedro Vanucchi se pendurou em uma passarela de serviço e, para obter o ângulo inusitado, aproveitou a tomada clicando a cena sem o tripé


TUCA REINÉS
Estão na memória do paulistano Tuca Reinés as curvas que os aviões faziam sobre o parque Ibirapuera depois de decolarem do aeroporto de Congonhas. Nascido e criado nos Jardins, nas imediações do parque, o jovem se emocionava com as aeronaves e com os prédios desenhados por Oscar Niemeyer para o local, sobretudo com a forma da Oca. “Acho que escolhemos a profissão pelas bagagens da infância”, supõe Reinés.

O interesse pela imagem (em 1974, como fotojornalista, já tinha viajado aos Estados Unidos para registrar uma competição de surfe) veio antes de ele ingressar na universidade, para cursar arquitetura na FAU/Santos, onde um dos mestres era o arquiteto e também repórter fotográfico Cristiano Mascaro. “Eu o conhecia das fotos publicadas nas reportagens da Veja”, conta Reinés, que atribui ao professor a bagagem cultural fotográfica que, até aquele momento, ele, Reinés, não tinha.

Com escritório montado, e tendo elaborado diversos projetos, continuou a fotografar. Inicialmente, seus trabalhos/maquetes; até notar que poderia se dedicar à atividade, transformada em profissão diante dos colegas que solicitavam cada vez mais seus préstimos de fotógrafo. Numa das sessões de fotografia, Reinés quase foi “capturado” por um doberman, solto dentro da residência que ele estava documentando. Salvou-o uma janela do tipo bay-window, que lhe serviu de esconderijo até que o proprietário (do cão e da casa) recolhesse a fera.


Farol da Mãe Luíza, em Natal. Tuca Reinés foi contratado pela editora alemã Taschen para documentar a América do Sul no livro Great escapes South America. A publicação tornou o nome do profissional conhecido em todo o mundo


NOVOS RETRATISTAS DE ARQUITETURA
“Existe fotografia demais no mundo.” A afirmação, feita pelo fotógrafo britânico Martin Parr em entrevista ao programa TV Folha, no final de 2012, sintetiza uma questão­chave enfrentada pela nova geração de fotógrafos profissionais: como fazer com que a representação pessoal, do olhar, sobressaia-se em meio à miríade de imagens a que somos submetidos cotidianamente? O acesso e as facilidades dos meios digitais de registro resultam num estímulo excessivo, que banaliza a produção e a divulgação de fotos. PROJETOdesign conversou com cinco jovens fotógrafos, para descobrir como essa nova geração de profissionais se propõe a retratar arquitetura.


Antonia Cattan (Rio de Janeiro, 1987)


Carolina Ribeiro (Brasília, 1978)


Lauro Rocha (São Paulo, 1985)


Junia Mortimer (Montes Claros, MG, 1983)


Rafaela Netto (São Paulo, 1986)

Brasiliense radicada em São Paulo, Carolina Ribeiro (Revoada) dava indícios de seu interesse pela fotografia desde o período de estudante na FAU/USP, até que, estagiando no escritório Aflalo & Gasperini, viu-se fazendo registros fotográficos internos, de terrenos, obras em andamento ou recémconcluídas. A mineira Junia Mortimer é doutoranda na Escola de Arquitetura da UFMG com uma tese sobre a fotografia como espaço de experiência da arquitetura e da construção de imaginários sociais. Rafaela Netto, paulistana formada em fotografia pelo Senac, passou a lidar com imagens quando se tornou assistente de Nelson Kon, em 2010.


Casa no Jardim Botânico, Pedro Varella Jequiriçá, Rio de Janeiro, foto de Antonia Cattan

Antonia Cattan (Feines Bild, em parceria com Christopher Baasner), carioca que vive em Berlim e é formada em cinema, começou a atuar na área por convite de um amigo para o registro de seu projeto. Também natural da capital paulista, e formado na Escola da Cidade, Lauro Rocha acredita que projetar ajuda a compreender os espaços a serem retratados: os exercícios de olhar e fazer se complementam. Cristiano Mascaro e Nelson Kon foram citações recorrentes dos entrevistados. Rafaela menciona ainda os trabalhos ligados ao Foto Cine Clube Bandeirante, em meados do século 20, realizados por Marcel Giró, Eduardo Salvatore e Geraldo de Barros, entre outros, mestres da composição das formas e linhas no enquadramento de um retrato.


Interior da biblioteca de livros raros e manuscritos da Universidade Yale, EUA, foto de Lauro Rocha

Antonia aponta Julius Shulman como sua principal referência, afirmando que foi através da obra do norte-americano que compreendeu “o papel da fotografia não só como registro ou documento, mas também como arte”. Já Carolina defende a sobreposição de referências de diversos campos das artes visuais em seu processo criativo, trabalhando nas fronteiras de diferentes disciplinas, linguagens e mídias, com o que concorda Junia. Ela atua de modo semelhante, dialogando “sobre processos artísticos, procedimentos técnicos, escolhas materiais, elaborações conceituais”. Lauro ressalta o potencial do vídeo para tornar compreensíveis as dimensões espaciais e a passagem do tempo conforme as variações de luz e a movimentação de objetos e pessoas.


Centro Pedagógico da UFMG, Belo Horizonte foto de Junia Mortimer

O interesse acentuado em retratar as cidades junto ao objeto arquitetônico une esses cinco jovens, seja pela justificativa, bem sintetizada por Antonia, do caráter documental da foto (“é uma ferramenta essencial de registro de época e da transformação das cidades”); pela sua inserção no contexto mais amplo da sociedade, como pontua Rafaela (“as pessoas estão propondo a ocupação coletiva dos espaços públicos”); ou pelo posicionamento político-ideológico do olhar do fotógrafo, defendido por Lauro.


Igreja de São Francisco de Assis na Pampulha, Oscar Niemeyer, Belo Horizonte, foto de Carolina Ribeiro

Uma colocação que prenuncia quão opinativa, ou mesmo autoral, é a fotografia de arquitetura. Para Lauro, ela é o registro do espaço, já que “o fundamental é apresentar e valorizar a ‘opinião’ contida no projeto arquitetônico”. Rafaela pondera que “a foto nunca será um registro fac-símile”, e, para Junia, “pensar fotografia é entender que não se trata do registro passivo de uma realidade tal qual ela nos é apresentada, mas da construção de outra realidade. Transformam-se o espaço e o tempo para dar a ver aspectos não evidentes ou potencialidades invisíveis”.


Face lateral do Auditório do Ibirapuera, Oscar Niemeyer, São Paulo, foto de Rafaela Netto

Essa análise e o campo de possibilidades contidas nas obras desses cinco jovens fotógrafos nos levam a crer que, mesmo em época de estímulo visual excessivo, o olhar do fotógrafo ainda pode ser para o observador uma experiência potencializadora de suas capacidades. 

Texto de Redação| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 400
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