O mundo do projeto e o projeto do mundo se cruzaram na primeira edição do evento

A capital da imperfeição

Simultaneamente às ofensivas bélicas trocadas por Turquia e Síria em outubro passado, começava em Istambul a primeira edição de uma nova bienal de design. Cidade em muito semelhante a tantas brasileiras, que explodiram demograficamente na modernidade e andam hoje às voltas com elevados índices de trabalho informal, a metrópole turca quer trocar de papel e ser também uma protagonista industrial. Para tanto, colocou?se a refletir sobre o futuro próximo, sob o paradigma da terceira Revolução Industrial, estruturando a sua bienal em duas exposições principais: a Musibet, que significa calamidade; e a Adhocracy, o oposto de burocracia.

Um antigo armazém portuário foi transformado, em 2004, no primeiro museu privado de arte contemporânea da Turquia. O projeto de arquitetura é de Emre Arolat, curador da exposição Musibet
Um antigo armazém portuário foi transformado, em 2004, no primeiro museu privado de arte contemporânea da Turquia. O projeto de arquitetura é de Emre Arolat, curador da exposição Musibet
A capital da imperfeição
Simultaneamente às ofensivas bélicas trocadas por Turquia e Síria em outubro passado, começava em Istambul a primeira edição de uma nova bienal de design. Cidade em muito semelhante a tantas brasileiras, que explodiram demograficamente na modernidade e andam hoje às voltas com elevados índices de trabalho informal, a metrópole turca quer trocar de papel e ser também uma protagonista industrial. Para tanto, colocou‑se a refletir sobre o futuro próximo, sob o paradigma da terceira Revolução Industrial, estruturando a sua bienal em duas exposições principais: a Musibet, que significa calamidade; e a Adhocracy, o oposto de burocracia.

Se a Terra fosse uma nação, Istambul seria a sua capital. Quando há 200 anos Napoleão Bonaparte disse essas palavras, falava da sede de um império, de uma ideia de civilização, mas também de uma cidade onde a história se acumula, se expressa e se sente na geografia, na arquitetura e nas pessoas que nela vivem.

Desde então, os habitantes de Istambul viram o seu império implodir, a cidade explodir e a sua ideia de civilização ser tantas vezes questionada, obliterada, reinventada.

Essa capital é ideal para pensar o mundo do projeto e o projeto do mundo. É isso o que a Bienal de Design de Istambul (de 13 de outubro a 12 de dezembro) propõe a partir deste ano.

Istambul é não a capital, mas a sede comercial da república da Turquia, um estado que em 1923 se fundou moderno, laico e de inspiração socialista, mas que hoje se reinventa como uma potência regional, aliando a democracia secular, o capitalismo neoliberal e o islamismo moderado - com todas as suas ambiguidades e contradições.

Essa capital do mundo globalizado expressa as tensões de uma cidade com uma longa história e uma população que passou de 1 milhão para mais de 13 milhões de pessoas nos últimos 70 anos. É nesse contexto que acolhe uma nova bienal de design.

Escola primária de Gálata
Escola primária de Gálata, uma de muitas que outrora serviram à comunidade grega de Istambul. Abandonada há anos, foi ocupada durante a bienal pela exposição Adhocracy
Escola primária de Gálata, uma de muitas que outrora serviram à comunidade grega de Istambul. Abandonada há anos, foi ocupada durante a bienal pela exposição Adhocracy
100 Projetos para Bruxelas, uma colagem de edifícios e monumentos reais e imaginados, parte do programa (Un)City - (Un)Real State of the (Un)Known, coordenado pelo curador belga Cédric Libert
100 Projetos para Bruxelas, uma colagem de edifícios e monumentos reais e imaginados, parte do programa (Un)City - (Un)Real State of the (Un)Known, coordenado pelo curador belga Cédric Libert

O porquê de uma bienal

Essa bienal é o mais recente dos vários eventos iniciados em 1973 pela Fundação para a Cultura e as Artes de Istambul (IKSV), criada por um grupo de grandes empresários turcos. De acordo com o seu presidente, Bülent Eczacibasi, as atividades da IKSV são atualmente financiadas sobretudo pelo setor privado - apenas 5% dos seus recursos têm origem pública.

É, portanto, numa ótica empresarial, e não de política estatal, que essa bienal apresenta o design - aqui entendido no sentido mais lato do termo, incorporando da arquitetura ao design urbano, industrial e gráfico, entre outros - como fator para o desenvolvimento do tecido industrial turco e para a produção cultural de Istambul.

A preparação da bienal começou em 2010, com simpósios, oficinas e debates que trouxeram a Istambul profissionais e acadêmicos para discutir o estado do design e o porquê de bienais como esta.

Depois de Deyan Sudjic, diretor do Museu do Design de Londres e membro do conselho consultivo da bienal, eleger Imperfeição como o tema da primeira edição, Joseph Grima e Emre Arolat foram escolhidos os curadores das duas principais exposições.

A programação restante inclui um ciclo de cinema, oficinas e seminários, passeios de design e um extenso programa acadêmico organizado em colaboração com 26 universidades de toda a Turquia.

Calamidade e Adocracia

Querendo expor a explosão urbana de Istambul e as consequentes tensões sociais, além de assumir uma posição de controvérsia perante o que considera eventos-espetáculos de arquitetura e design, o arquiteto e professor turco Emre Arolat reuniu na galeria principal do Istambul Modern mais de 30 projetos de 165 designers e arquitetos sob o título/ tema Musibet (Calamidade).

mapa de redes
mapa de redes
mapa de redes
Islam, Republic, Neoliberalism é um projeto do designer turco Burak Arikan composto por três mapas de redes formados por mesquitas, monumentos/ museus republicanos e centros comerciais na área metropolitana de Istambul. Eles evidenciam a presença e a influência das estruturas arquitetônicas representativas das três ideologias dominantes na Turquia contemporânea: o Islã, a república secular e o neoliberalismo
Quando Joseph Grima pediu ao estúdio italiano Carlo Ratti Associati para escrever um manifesto sobre arquitetura open‑source, eles responderam com uma página de Wikipédia, para que este pudesse ser permanentemente atualizado. Na exposição, o texto foi continuamente escrito e reescrito em uma parede por uma plotter vertical
Quando Joseph Grima pediu ao estúdio italiano Carlo Ratti Associati para escrever um manifesto sobre arquitetura open‑source, eles responderam com uma página de Wikipédia, para que este pudesse ser permanentemente atualizado. Na exposição, o texto foi continuamente escrito e reescrito em uma parede por uma plotter vertical

Apesar das nobres e críticas intenções do curador, a exposição revelou-se confusa, soturna, mal desenhada, com textos longos que, embora introduzissem conceitos e projetos localmente urgentes e globalmente relevantes, raramente fugiam da habitual prosa pomposa e obscura típica de arquitetos acadêmicos.

Claro exemplo de uma mostra que teria se beneficiado de um bom editor de texto e um melhor designer, Musibet deveria ter ficado com seu denso e ricamente ilustrado catálogo de 510 páginas.

Joseph Grima, curador britânico e diretor da revista italiana Domus, tomou a antiga escola primária de Gálata, uma d s várias da outrora numerosa comunidade grega de Istambul, sob o lema Adhocracy (Adocracia), título escolhido para uma exposição “sobre pessoas que fazem coisas”.

Dos 60 projetos expostos, muitos foram respostas ao desafio colocado por ele e sua equipe de curadores associados em fevereiro passado, quando anunciaram estar à procura de ideias que capacitem outros a projetar, auto-organizar-se e colaborar; desestabilizem a relação tradicional, equilibrada e triangular entre designer, produto e consumidor; realcem as implicações políticas do design enquanto prática; experimentem metodologias inovadoras de manufatura e produção; usem o design como uma forma de ativismo político; nasçam ou dependam de redes; proponham modelos econômicos não convencionais; desafiem os limites do movimento open-source e as suas implicações para a vida cotidiana; combinem técnicas e saberes tradicionais com novas ferramentas e tecnologias; não tenham autor ou tenham demasiados autores para serem contabilizados; sejam antidogmáticas; adaptem projetos existentes a novos usos; desafiem e expandam as fronteiras das definições aceitas de design.

Essa lista pode ser lida como os mandamentos da adocracia, termo usado como contraponto à burocracia para descrever a relação do design com a produção material.

Esse conceito alude à terceira Revolução Industrial que vivemos, descrita num relatório publicado em abril pela revista The Economist e citado pelos curadores, no qual se prevê um projeto não de forma hierárquica, vertical, ou até autoral, em que um designer projeta coisas que serão replicadas em larga escala e consumidas/ usadas por muitos.

Numa ideia de civilização assente na adocracia, muitos projetam e colaboram em rede, numa lógica horizontal, produzindo em pequena escala, e abordando necessidades e desejos através de novas tecnologias, como a impressão em três dimensões, prototipagem rápida e plataformas open-source.

Entre corredores estreitos, salas de aula luminosas, uma das paredes exteriores e o terraço com vista sobre as águas do Corno Dourado, máquinas, objetos e imagens, estruturas e interfaces incluíram exemplos do passado, como o mobiliário Proposta per un’Autoprogettazione (Enzo Mari, 1974) ou a garrafa-tijolo para a Heineken (John Habraken, 1957), ideias e protótipos de estudantes, e produtos tão experimentais quanto reais, tão necessários como disruptivos - por exemplo, um contador de radiações criado a partir da plataforma eletrônica open-source Arduino para obter leituras da radiação alternativas às oficiais após o desastre nuclear de Fukushima, no Japão. O ginásio da escola acolheu um programa de oficinas, conversas e eventos que expande o conceito laboratorial de adocracia.

Num claro contraste com Musibet, todos esses projetos - alguns deles mostrados em abril passado, durante o Salão do Móvel de Milão, na exposição The Future in the Making, da revista Domus - encontravam-se enquadrados por textos claros, concisos e acessíveis, nos quais se notou a grande experiência editorial da equipe de Grima.

Essa é uma exposição que, como poucas, fala sobre um momento no tempo: o futuro próximo. É por isso tão inspiradora como especulativa, tão otimista como incompleta. Falha ao não abordar, por exemplo, as consequências de uma total democratização no acesso dos meios de projeto e produção, e como isso vai afetar o estatuto, e a sobrevivência, dos próprios designers.

Em Istambul, o Unfold mostrou objetos criados na Bélgica, Reino Unido e Israel, enquanto abria a sua pequena sala a ceramistas locais
Um dos dois projetos do estúdio belga Unfold na exposição, Stratigraphic Manufactury mostra como objetos produzidos por uma impressora 3D a partir de arquivos digitais idênticos podem ser tão únicos e diferentes quanto peças feitas de forma artesanal
O mesmo arquivo é enviado para diferentes artesãos, que o imprimem em porcelana em uma impressora 3D open-source, acabando-a a seguir ao seu gosto
Quando Joseph Grima pediu ao estúdio italiano Carlo Ratti Associati para escrever um manifesto sobre arquitetura open‑source, eles responderam com uma página de Wikipédia, para que este pudesse ser permanentemente atualizado. Na exposição, o texto foi continuamente escrito e reescrito em uma parede por uma plotter vertical
The New City Reader, um jornal sobre arquitetura, espaço público e cidade iniciado por Joseph Grima e Kazys Varnelis em Nova York, durante a exposição The Last Newspaper, organizada em 2011, no New Museum

Ignora que essa revolução já aconteceu no design gráfico no fim do século passado, quando o Desktop Publishing transformou qualquer pessoa num designer ao permitir projetar e imprimir coisas a partir de um computador pessoal.

Um resultado disso é bem visível nas ruas de Istambul, que poderia hoje ser chamada não a capital de uma nação mundial, mas a capital mundial da Arial.

Esse tipo de letra gratuito da Microsoft, cópia barata da Helvetica, substitui-se a outras em ementas, letreiros de lojas ou lápides de monumentos, empobrecendo o que outrora foi uma cidade graficamente mais rica.

Tal como as suas duas exposições nucleares, a Bienal de Design de Istambul está, como a cidade que a promove, longe de ser perfeita.

E ainda bem. Terá, esperamos, um longo futuro para continuar a nos ajudar a observar e a questionar o projeto do mundo, a partir de uma das suas grandes capitais.


Texto de Frederico Duarte*
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 393 Novembro de 2012

*Frederico Duarte é designer de comunicação e crítico de design pela Escola de Artes Visuais de Nova York. Atuou na Experimentadesign (a bienal de design de Lisboa) e, desde 2006, tem trabalhado como autor, crítico e curador independente de design. Em janeiro de 2013 estará no Brasil para lançar a segunda edição do livro Fabrico próprio
Em Istambul, seis edições temáticas desse jornal de parede (disponíveis online) foram coladas pelo centro da cidade, em antecipação à bienal. Incluíram artigos dos curadores, participantes do evento e uma carta do escritor Orhan Pamuk
Em Istambul, seis edições temáticas desse jornal de parede (disponíveis online) foram coladas pelo centro da cidade, em antecipação à bienal. Incluíram artigos dos curadores, participantes do evento e uma carta do escritor Orhan Pamuk
Contador Geiger desenvolvido no Tokyo Hackerspace a partir da plataforma Arduino, como forma de obter leituras independentes das do governo japonês, após o desastre nuclear de Fukushima, em 2011
Contador Geiger desenvolvido no Tokyo Hackerspace a partir da plataforma Arduino, como forma de obter leituras independentes das do governo japonês, após o desastre nuclear de Fukushima, em 2011
 
Cartaz da mostra
Cartaz da mostra
Um dos destaques dos passeios de design pelo centro de Istambul é o Museu da Inocência. Aberto desde agosto de 2012, é a materialização do romance de 2008 O Museu da Inocência, do Prêmio Nobel turco Orhan Pamuk (Companhia das Letras, 2011), no qual uma história de amor se funde com os objetos e as imagens que a tornam tão real quanto impossível
Um dos destaques dos passeios de design pelo centro de Istambul é o Museu da Inocência. Aberto desde agosto de 2012, é a materialização do romance de 2008 O Museu da Inocência, do Prêmio Nobel turco Orhan Pamuk (Companhia das Letras, 2011), no qual uma história de amor se funde com os objetos e as imagens que a tornam tão real quanto impossível
 

Texto de Frederico Duarte| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 393
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