Renato Bolelli Rebouças e Daniela Thomas: Prêmio Shell/Cenografia

Linguagens variam do visual marcante à discrição

Criado em 1988, o Prêmio Shell de Teatro é um dos mais importantes no Brasil e uma espécie de termômetro do setor, dividido em nove categorias (autor, diretor, ator, atriz, cenografia, iluminação, música, figurino e categoria especial, dedicada aos destaques de cada ano)

A política cultural irregular para as artes cênicas brasileiras reflete-se também na cenografia de teatro, que atravessa momento difícil. Pouca verba, prazos quase sempre exíguos para a produção, comunicação penosa com o patrocinador privado e desigualdade técnica entre os espaços de encenação (sem mencionar a deficitária divulgação em São Paulo desde a implantação da Lei Cidade Limpa) são exemplos dos impasses rotineiros. Mas a boa notícia é que a cenografia de teatro brasileiro está se profissionalizando.

Aos poucos, institucionaliza-se a profissão, na qual um grande número de arquitetos é responsável pela concepção de cenários e, muitas vezes, pela direção de arte, em peças dos mais variados gêneros. Também se consolidam as premiações para esse segmento das artes cênicas, como é o caso do Prêmio Shell de Teatro, que em 2009 realizou sua 21ª edição. 

Este ano, a premiação laureou, em São Paulo, a cenografia de Arrufos, concebida pelo arquiteto Renato Bolelli Rebouças para o Grupo XIX de Teatro. A peça, dirigida por Luiz Fernando Marques, tem como tema o amor no Brasil através dos séculos, sob os pontos de vista social e político. A dramaturgia de Arrufos questiona a concepção privada, romântica e burguesa do sentimento, apresentando três momentos importantes de sua constituição desde o século 18.

Bolelli se envolveu exclusivamente no projeto durante quase dois anos, dos quais 13 meses foram dedicados à concepção e ao desenvolvimento do cenário, de modo que seus estudos se voltaram para a totalidade da encenação. Estes abrangeram desde a depuração do tema até o aperfeiçoamento da interação dos atores com o ambiente cênico, incluindo a relação dos personagens com a estrutura espacial do cenário e com detalhes de seus objetos e figurinos.

Arrufos, como explica Bolelli, foi concebida em três atos, sequencialmente dedicados aos séculos 18, 19 e 20, passando dos ambientes familiares da sociedade patriarcal para os rituais de sedução articulados através de objetos e, por fim, para a era contemporânea, marcada pela extrema individualidade da experiência amorosa.

Em termos cenográficos, cada um desses momentos foi representado, respectivamente, pelo leito matrimonial; pelas rendas, abajures e leques; e pelas gavetas, caixas e assentos que abrigavam os relatos individuais dos seis atores da peça. O cenário tinha a forma de arquibancada metálica, com cinco níveis.

A plateia - 80 pessoas que deveriam sentar-se obrigatoriamente em pares - fazia parte da encenação, o que era devidamente sinalizado pelos assentos de tapeçaria e pelas luminárias pontuais, cuidadosamente posicionados em meio às travas metálicas.

O arquiteto explica ainda que as passagens entre os atos foram a chave da cenografia: cortinas transformavam-se em vestes e as peças de mobiliário, em pequenos objetos; a ocupação do espaço pelos atores ia do centro, na primeira parte do espetáculo, até as arestas chanfradas da arquibancada, no decorrer da encenação.

Vencedora do Prêmio Shell no Rio de Janeiro nas categorias cenografia e iluminação, "Não sobre o amor" faz parte dos projetos premiados do trio Felipe Hirsch (direção), Daniela Thomas (cenário) e Beto Bruel (iluminação), da Sutil Companhia de Teatro. O tema também era o amor, neste caso materializado nas cartas entre o teórico russo Victor Shklovsky e a romancista franco-russa Elsa Triolet, reunidas em livro homônimo.

A cena apresentava-se como uma caixa de madeira, intimista, aberta para o público. O conceito do cenário foi o da síntese, com poucos elementos: uma cama com uma mesa de cabeceira, presas no fechamento de fundo da caixa; uma porta foi construída numa das paredes laterais, enquanto na outra foi fixado o conjunto escrivaninha/máquina de escrever/cadeira; e, no teto, uma janela e o duto de calefação.

O desafio lançado aos atores pela cenógrafa e pelo diretor foi o enfrentamento da gravidade. Para a ocupação do espaço cênico pelos personagens foram necessários aparatos como uma escada do tipo marinheiro e painéis de madeira perpendiculares às paredes da caixa.

Para o iluminador restaram apenas três entradas de luz - a porta, a janela e a borda frontal da caixa -, que enfocam os atores em momentos específicos, por vezes simulando a iluminação diurna e, por vezes, interagindo com projeções textuais e visuais que complementam o cenário. Tentei acompanhar o claro/escuro da Daniela”, relata Bruel, referindo-se aos contrastes de luz que caracterizam a encenação.

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 352
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