Design de luminárias

Criação luminosa

Parte das atribuições do designer de produto, o projeto da luminária tem a potência de extrapolar critérios universais do desenho do objeto a favor da explicitação de identidades criativas e culturais. As peças selecionadas para esta reportagem, premiadas ou exibidas recentemente em eventos brasileiros do setor, compartilham a marcante característica de colocar em sinergia princípios da produção seriada e da artesanal.

Guarda Luz é a luminária de vidro que Carolina Armellini e Paulo Biacchi, sócios do estúdio Fetiche Design, de Curitiba, criaram para a edição 2012 do Clube de Colecionadores do Museu de Arte Moderna de São Paulo, sob a curadoria de Adélia Borges. Testemunho da proposta da dupla de unir manufatura à estética contemporânea, ela é composta por um corpo de vidro soprado que, revestido em parte por um volume regular de tecido resinado na cor preta, tem abertura superior para o encaixe da lâmpada led. A ideia foi dar ao usuário a oportunidade de dispersar a luz no ambiente ou prendê-la na luminária e, ainda, “conferir à peça presença marcante no espaço”, salienta Biacchi. Por suas dimensões - cerca de 40 centímetros de altura -, trata-se de uma luminária de piso que tem forma orgânica relacionada ao processo artesanal de fabricação (vidro soprado de cristaleria tradicional de Curitiba) e proporções derivadas da mínima abertura do gargalo para o encaixe da lâmpada.

Quanto aos acabamentos, destaca-se o contraste da transparência do vidro com a moldura de resina preta, solução que configura o efeito de “luz líquida”, assinalam os autores; o acionamento é realizado por um balão emborrachado e um disco de metal registra a autoria da peça. “É um exemplo da mistura do rústico com o high end, característica do nosso trabalho”, testemunha Biacchi, que, perguntado sobre a especificidade de se criar luminárias, contesta ser esta uma demanda ordinária de design de produto, apesar de sua evidente destinação funcional.

No Acre, o Fetiche Design se juntou ao paulistano estúdio Nada se Leva, dos designers André Bastos e Guilherme Leite Ribeiro, e aos artesãos das aldeias indígenas yawanawá de Nova Esperança e Amparo, no desenvolvimento da ação local do projeto A Gente Transforma, capitaneado desde 2010 por Marcelo Rosenbaum. A iniciativa teve o apoio do governo do Acre, da Secretaria de Turismo e Lazer estadual e da La Lampe, sob a coordenação da Aliança Empreendedora, uma organização pela inclusão e desenvolvimento econômico e social na região. Do processo coletivo de criação, liderado por Rosenbaum, resultaram nove luminárias com tecido de miçangas de vidro e grafismo inspirado nos kenês (desenhos figurativos de animais e elementos naturais recorrentes no artesanato indígena), expostas em Milão, em abril de 2013. Parte das peças, como a luminária Huñati (uma espécie de rede que guarda lâmpadas agrupadas à imagem de peixes de um cardume), foi desenvolvida para a produção comercial.

Procedimento similar teve a criação, pelo designer Gustavo Aguillar - do estúdio carioca Atmosfera Design -, da luminária Poty. Lançada em 2013 no Museu Brasileiro da Escultura (Mube), em São Paulo, a peça faz parte da coleção Design de Barro, resultante da parceria com artesãos do Poty Velho, comunidade de Teresina que é tradicional fabricante de produtos de barro com reduzido valor comercial, como vasos e filtros de água. A Poty é composta de vários pendentes coloridos e se destina ao uso residencial.

Do barro para a cortiça, figura entre os finalistas do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira 2013, na categoria iluminação, a cúpula Post, do Estúdio Ninho. Feita com folha de cortiça e apoiada em base torneada de madeira pinus, trata-se de uma cúpula de mesa que, caracterizada pela forma simples associada à dispersão da luz por meio das fibras do material, pressupõe a montagem pelo usuário a partir de encaixes e conexões sem cola. No prestigiado prêmio concorre também, entre outras, a luminária Cobra Grande, concebida pelo designer Rona Silva a partir do reaproveitamento de tampas de embalagens plásticas e de esferas de desodorante roll-on, fornecidas por associações de catadores de resíduos sólidos da cidade de Maceió. As peças plásticas são encaixadas e encadeadas entre si na mangueira de led, resultando um conjunto com extrema maleabilidade. “A facilidade da confecção e a matéria-prima abundante possibilitam a produção em série e com baixo custo”, assinala o designer.

Também caracterizada pela interação lúdica com o usuário, a luminária Fool, de Fernando Prado, tem base arredondada que permite o livre movimento pendular quando impulsionada pelo usuário, enquanto a série Caminhos, de Bernardo Senna, para a Allê Design, é um projeto híbrido: luminária e mesa de apoio. Com estrutura e tampo de acrílico translúcido, para a passagem da luz, a peça tem pés zoomórficos, linguagem descontraída que perpassa boa parte das luminadas abordadas neste texto.

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 405
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