Design e tecnologia

Escritórios: um campo de pesquisa

O surgimento de filosofias administrativas para a redução de custos operacionais, a evolução da microinformática e das comunicações vêm mudando a forma de trabalhar em um escritório

Uma das conseqüências mais visíveis destas filosofias está no layout das corporações e no próprio design do mobiliário, cada vez mais compreendido como o suporte material para uma orientação administrativa.

“Há quase 15 anos, a alemã Mercedes-Benz desenvolveu uma linha de mobiliário que atende especificamente a suas particularidades e implantou o modelo em todos os seus escritórios no mundo”, exemplifica o designer brasileiro Guinter Parschalk.

Assíduo freqüentador da Orgatec, a maior feira internacional de mobiliário para escritórios, que se realiza a cada dois anos na Alemanha, Parschalk explica que, muito mais que o desenho dos móveis, os principais eventos do setor mostram o resultado das pesquisas que os grandes fabricantes fazem no campo das novas demandas administrativas e comportamentais.

“Os conceitos de design surgem dessas teorias e a questão estética passa pelos critérios de funcionalidade, que é o aspecto preponderante”, ele diz. O mesmo vale para a inovação tecnológica. Na Europa, já está em estudo o aumento da iluminação sobre os postos de trabalho de 500 para mil lux, sem reflexos, como decorrência da prevista substituição dos terminais de computador por telas de plasma. “Pesquisas indicaram que isso significaria um consumo de 8W/m2, enquanto no Brasil gastamos 14 W/m2 para garantir os 500 lux que a lei exige”, compara Parschalk.

Os postos de trabalho compartilhados podem ser considerados um dos melhores exemplos de como as necessidades empresariais levam a novos conceitos em layout e design. Diante dos altos custos de aluguel e manutenção, algumas corporações européias, especialmente na Alemanha, começaram a dar importância à taxa de ocupação do espaço, que varia conforme o perfil da empresa.

Algumas pesquisas comprovaram que o índice médio era de 80%, o que significa uma ocupação projetada maior do que a de fato usada. Daí a diminuição dos postos de trabalho, que passam a ser compartilhados pelos funcionários.

Essa fórmula, no entanto, somente “funciona bem nas empresas horizontais, com menos hierarquia no mobiliário e funcionários mais qualificados, mais voltados para resultados e que passam boa parte do tempo fora do escritório. Estes são muito mais exigentes com ergonomia, conforto e arquitetura de interiores, o que significa um conjunto mais sofisticado”, explica Parschalk.

Segundo o designer, essa forma de organização não afeta a sensação de território, de espaço próprio, como sustentam alguns críticos do free-address. “Cada um senta onde quer, onde se sente melhor. Os objetos pessoais e o material de trabalho ficam em um armarinho com rodízios que pode ser levado a qualquer parte e, quando fora de uso, fica guardado em local próprio, onde estão todos os outros armários.”

Diferenças culturais também interferem nos modelos de escritórios. Comparando os sistemas norte-americano e alemão, nota-se, por exemplo, que nos EUA predominam os arquivos ancorados, com grande aproveitamento do espaço vertical; na Alemanha esse tipo de armário não existe.

“Isso acontece porque o norte-americano é mais individualista e cada um guarda suas cópias de documentos; já o alemão tem em mãos apenas aquilo que está usando, enquanto os papéis ficam em um arquivo centralizado para que todos tenham acesso a eles”, analisa Parschalk.

Na visão de Parschalk, os itens expostos durante a Orgatec 2000 consolidam as tendências apontadas pela edição anterior da feira, com produtos que se revelam ferramentas de trabalho, e demonstram bem como o design do mobiliário contribui para agregar valores imateriais aos escritórios com os mais diferentes comportamentos, filosofias e tecnologias.

As linhas estão ainda mais leves e limpas, com estética bem resolvida. Além dos já tradicionais rodízios, agora armários e superfícies de trabalho aparecem em versões giratórias, assegurando mais mobilidade. Os cabos, antes escondidos em canaletas, ficam à mostra, apenas fixados por práticas presilhas.

As possibilidades de regulagem também cresceram, permitindo que o cliente escolha entre cadeiras com ajustes automáticos e estrutura flexível, que favorecem a circulação sangüínea em cada posição, ou com controles independentes que empurram o assento para frente quando o usuário se reclina.

Texto de Nanci Corbioli| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 254
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora