Nitsche Projetos Visuais: Comunicação visual

Arte tridimensional

A programação visual nos edifícios vem conquistando espaço e surge como possibilidade de associar design e arquitetura para criar diferenciais estéticos visíveis a distância. A identidade de fachadas e áreas comuns passam a agregar valor ao empreendimento e ao espaço urbano

O artista plástico João Nitsche é titular do escritório Nitsche Projetos Visuais, um dos poucos no país que atuam especialmente na programação visual de edifícios. Sua primeira demanda no segmento foi apresentada pelos gestores de um condomínio, ainda em 2009, logo depois de projetar uma instalação artística para a residência de Otávio Zarvos, um dos criadores da incorporadora Idea!Zarvos.

Nenhum dos dois trabalhos foi executado, mas as experiências renderam-lhe o convite para realizar o estudo de cor das fachadas do edifício Box 298, empreitada que assumiu juntamente com o designer Tomaz Faria, do escritório Cinco5onze. A partir daí criou sua estrutura de trabalho e não parou mais. Seu principal cliente tem sido a própria Idea!Zarvos, responsável por prédios contemporâneos reconhecidos pela qualidade arquitetônica.

O objetivo da incorporadora “é a valorização da edificação e do entorno com a intervenção artística. Para isso, ela nos dá total liberdade de criação”, comenta Nitsche.

De acordo com o artista, se a contratação da comunicação visual acontece depois que o projeto arquitetônico e a divulgação já estão prontos, as intervenções costumam ser mais simples, uma vez que fachada e áreas comuns devem ser exatamente iguais ao divulgado pelo material de vendas. “Foi o que aconteceu com o edifício 360, do Isay [Weinfeld]”, menciona.

Quando o estudo de fachada é simultâneo à arquitetura e os elementos da programação visual são incorporados à publicidade do empreendimento, está garantida a execução do projeto. Foi assim com o edifício João Moura, localizado na região de Pinheiros, em São Paulo. O prédio foi incorporado pela Idea!Zarvos e tem arquitetura de Pedro e Lua Nitsche, irmãos de João.

“Claro que a proximidade com os arquitetos é um diferencial importante. Mas na maioria das vezes o projeto é criado por outros profissionais, cujo trabalho deve ser respeitado. Por vezes é quase diplomática a abordagem para falar sobre as intervenções e possíveis interferências com a arquitetura. Já aconteceu de estar previsto um guarda-corpo que esconderia o desenho da fachada e foi necessário pedir ao arquiteto que substituísse por vidro o material que ele havia especificado inicialmente”, explica.

PROJETOS LEVAM COR À CIDADE
Com arquitetura de Andrade Morettin, o Box 298 é um edifício de conjuntos comerciais implantado no bairro da Vila Madalena, território da arquitetura descolada de São Paulo.

O prédio explora a plasticidade do vidro e do concreto aparente e emprega painéis de telha de aço com pintura eletrostática de fábrica como recurso de proteção contra a incidência solar direta.

O material metálico foi o suporte para o estudo de cores de Nitsche e Faria, que foram contratados na fase inicial do projeto arquitetônico e optaram por uma escala com vermelho, vinho, azul e verde azulado a fim de marcar o ritmo de fechamento e, ao mesmo tempo, quebrar a predominância do cinza na construção. A instalação dos painéis coloridos baseou-se em anotações manuais feitas em um caderninho, que indicavam o posicionamento e a sequência de cores. “O desenho das telhas metálicas é uma referência fabril e urbana, mas também lembra um contêiner e remete ao oceano. Surgiu daí a ideia das fachadas com as cotas marcadas a partir do nível do mar”, comenta o artista plástico.

A numeração dos conjuntos, que aparece estampada em branco nas faces externas dos painéis da fachada, é um recurso gráfico sem finalidade prática, mas com apelo lúdico e visual. A aplicação dessa arte sobre as telhas acompanhou o ritmo de subida da fachada e empregou máscaras adesivadas e pintura manual, feita com pistola a compressor com tinta automotiva. “Aprendemos com a experiência que o segredo é usar material adesivo do mais baratinho, que contém pouca cola, para evitar danos na base na hora de retirar a máscara”, ensina.

O trabalho nesse empreendimento incluiu a comunicação visual interna do edifício, delineada com linguagem industrial a partir das cores preta, branca e cinza, feita pelo mesmo processo de máscaras adesivadas e pintura. O requinte final ficou por conta da parede externa para a criação de um painel artístico executado com vergalhões dobrados in loco. O conjunto apresenta resultado coerente com as referências urbanas presentes nos demais elementos e com o térreo aberto para comércio.

Na mesma época foi desenvolvida a programação visual para o edifício João Moura, que na Premiação Anual do IAB/SP de 2012 foi vencedora do Prêmio Flávio Império, na categoria design - comunicação visual, e destaque na categoria edifícios - obras construídas.

A encomenda apresentada pela incorporadora pedia um projeto despojado para o prédio de escritórios voltado a um público jovem e aberto a novidades. Assim como no Box 298, o projeto de arquitetura previa o uso de painéis de fachada para proteger os interiores contra a insolação excessiva.

O material escolhido, e que serviu de suporte para a paginação, foi um laminado próprio para a aplicação em fachadas. Nitsche e equipe combinaram tons de verde, azul e cinza nas faces externas, o que estabeleceu a identidade do edifício, reconhecível a distância. “O gradiente das cores segue a diagonal de escalonamento das lajes”, explica Nitsche.

Para o João Moura também foram desenvolvidos os elementos gráficos usados na composição dos pictogramas minimalistas que fazem a comunicação visual. O toque lúdico fica a cargo da rosa dos ventos estampada nas placas de concreto que revestem o piso da praça com café, refeitório e área de descanso.

“A rosa dos ventos coloca o cidadão no mundo, faz lembrar que, antigamente, as pessoas tinham referências na própria natureza ao acompanhar o regime das marés ou se guiar pela posição das estrelas”, comenta o artista.

Para os interiores, a programação visual previa que as paredes próximas das janelas recebessem pintura em vários tons de amarelo, de modo que, quando visto de fora, o observador notasse um degradê. No entanto, o prédio acabou sendo ocupado por uma única empresa, que preferiu uniformizar o tom dos andares.

A gama de cores da fachada foi replicada no material gráfico produzido pela agência EC para divulgação do empreendimento. “E nós usamos na comunicação visual a mesma fonte Naify que eles escolheram para o catálogo, já que nesse caso pudemos trabalhar com elementos mais despojados”, detalha Nitsche.

Os edifícios residenciais populares também aparecem no portfólio do artista plástico. Nitsche colaborou com o trabalho de Andrade Morettin para a requalificação do Jardim Lidiane 1, um antigo conjunto habitacional da prefeitura paulistana, localizado às margens do rio Tietê, junto da alça de acesso à ponte Júlio de Mesquita Neto, que liga o bairro do Limão à Pompeia.

Os prédios apresentavam originalmente pintura em tom claro e a fuligem provocada pelo alto tráfego de veículos impregnava-se nas fachadas logo na primeira chuva, dando ao conjunto um ar de deprimente abandono. A nova programação visual explorou tonalidades intensas que disfarçam a fuligem e quebram o cinza predominante na área.

O curioso nesse projeto é que a equipe da Secretaria Municipal de Habitação relutou em aceitar a ousada proposta de cores por acreditar que seria rejeitada pelos moradores.

No entanto, a comunidade aprovou o colorido intenso, que foi carinhosamente apelidado de “aquarela baiana” e hoje dá identidade própria a um projeto-padrão.

GRAFISMOS QUE AGREGAM VALOR
Contratado pela incorporadora Engeform, o escritório de Nitsche desenvolveu a programação visual do Módulo Bruxelas, edifício de escritórios em Perdizes, zona oeste de São Paulo, com projeto de arquitetura de Gui Mattos (leia PROJETOdesign 394, dezembro de 2012).

A contratação se deu quando a construção estava praticamente concluída, o que restringiu o trabalho aos elementos da sinalização interna, executada na cor cinza para assegurar neutralidade. “O prédio já tinha a intervenção da artista Lúcia Koch”, comenta Nitsche.

Inspirado nas fachadas vazadas por cobogós, o projeto de comunicação caracteriza-se por desenhos criados a partir de pontos sobrepostos geralmente ao concreto aparente mas também às placas de laminado melamínico que respondem pelo fechamentos dos shafts nas áreas comuns.

A técnica usada na maioria dos locais de aplicação foi a do estêncil em máscara com pouca cola para não danificar a base. Também foram aplicados adesivos sobre o laminado, cujos painéis, para facilitar o trabalho, eram removidos para pintura ou adesivação e depois reinstalados.

Com projeto de FGMF Arquitetos, o edifício de escritórios Corujas localiza-se na Vila Madalena, foi incorporado pela Idea!Zarvos e teve as obras concluídas no final de 2013. Entre suas características estão generosas circulações externas, grandes áreas para convívio, a combinação de aço, madeira e vidro e a presença de grandes empenas de concreto. Além disso, um dos antigos moradores do local não quis vender sua casa e o pequeno sobrado foi envolvido pelo prédio.

As faces externas de paredes e muros da casa estão voltadas para as áreas de circulação descoberta do empreendimento e serviram de suporte para o principal elemento da programação visual. “Não havia um caminho predeterminado. Apresentamos três opções de arte e a escolhida foi a planta monocromática de CAD que recria os ambientes da casa, expondo cotas e medidas”, conta Nitsche.

Como o efeito da tela preta do CAD e das linhas finas não daria bons resultados na forma de adesivo, a equipe pesquisou outras possibilidades, considerando impressão em laminado melamínico ou painel de ACM. O primeiro foi inviabilizado pelo custo e o segundo, por dificuldades com o maquinário que prejudicavam a continuidade dos desenhos.

A solução encontrada foi a utilização de placas de ACM preto como suporte para o estêncil feito com pintura epóxi aplicada com pistola e compressor. “O principal desafio foi alinhar os adesivos em acordo com a paginação. Foram cerca de 300 metros quadrados de desenhos técnicos com linhas superfinas criadas no CAD”, detalha Nietsche. Três testes de pintura foram necessários até que se encontrasse o volume de tinta adequado.

O trabalho do artista no Corujas incluiu grafismos de efeito estético e comunicação visual. Quando os suportes são vigas metálicas ou empenas de concreto, foi usada a técnica de pintura com máscara adesivada. No caso dos vidros como base, empregou-se adesivo vinil de recorte.



Texto de Nanci Corbioli| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 408
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