PERFIL

Brasil Arquitetura

A iminência da inauguração, ainda este ano, da segunda fase da obra da Praça das Artes, no centro de São Paulo, é motivo de comemoração pelos entusiastas da melhoria da qualidade dos espaços públicos das nossas cidades. Projeto do Brasil Arquitetura em parceria com Marcos Cartum, a primeira parte da obra foi inaugurada em 2012 e, embora a boa receptividade que ela teve de imediato, no meio arquitetônico e fora dele, logo se instaurou a expectativa em torno da realização da etapa seguinte da construção. Nos espaços abertos, faltava abrir a frente para o Vale do Anhangabaú que, embora restrito ao trânsito de pedestres, mais separa do que une os dois trechos da cidade ao seu redor. A ampla escadaria, assim, que finalmente fará a ligação, por dentro do projeto, da rua Conselheiro Crispiniano com o vale, trajeto conectado ainda com a avenida São João, é o desfecho feliz de um projeto iniciado em 2006. Nesta seção Perfil, dedicada ao escritório Brasil Arquitetura, a morosidade da arquitetura é um dos temas abordados, mas não apenas pelo viés melancólico

Os mineiros Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, o primeiro nascido em Cambuí em 1952 e o segundo, em Carmo de Minas em 1955, conheceram-se na cidade natal de Fanucci antes de cursarem a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a FAU/USP, nos anos 1970. Em 1978, a vitória de um quarteto de amigos da faculdade (além de Ferraz, composto ainda por Marcelo Suzuki, José Sales e Tâmara Roman) no concurso para a criação do Paço Municipal de Cambuí (projeto executado) deu origem ao Atelier Vila Madalena, escritório ao qual veio se juntar Fanucci, mas que um ano depois, com a saída de Sales e Tâmara, mudaria de nome para Brasil Arquitetura.

Antes disso, ainda estudante, Ferraz foi indicado por Joaquim Guedes para estagiar com Lina Bo Bardi no canteiro da obra do SESC Pompeia, levando consigo em seguida o colega de faculdade André Vainer. Fanucci se recorda da repercussão do convite de Lina em meio aos alunos, mas com intensidade menor do que poderíamos imaginar atualmente. Não se previa na época a importância que viria a ter o projeto, e tampouco o impacto do convívio com a arquiteta no canteiro.

Fanucci, por sua vez, havia estagiado com Julio Katinsky e, depois de formado, integrou as equipes dos escritórios de Abrahão Sanovicz e de Joaquim Guedes, enquanto que o terceiro sócio, Marcelo Suzuki, tivera experiência profissional em uma empresa de engenharia. “Nos reuníamos a noite para desenvolvermos os nossos projetos”, comenta o arquiteto.

Atuarem simultaneamente no Brasil Arquitetura e em atividades paralelas, inclusive acadêmicas e institucionais, foi, e continua a ser, uma prática saudável dos titulares desse escritório paulistano, que mais aproxima os arquitetos do que os distancia, por causa da somatória de experiências propiciadas.

“São muitas as maneiras de fazer arquitetura. Com o Abrahão, a prática era parecida com aquela que aprendemos na FAU, da estrutura que equaciona os projetos e da defesa do partido até o final do processo. Com o Guedes, a metodologia era outra. Sua arquitetura obedecia lógicas diversas, partindo do detalhe para o geral. Nós [no Brasil Arquitetura] somos muito diferentes, muitas vezes brigamos para trabalhar. Mas, no fim, chegamos ao consenso. A arquitetura não é uma criação individual”, declara Fanucci a esse respeito.

O legado de Lina

O trabalho de Ferraz no SESC Pompeia foi, por longo período, contemporâneo às atividades do Brasil Arquitetura, tendo Lina e equipe desmontado apenas em 1986 o escritório no centro de lazer e cultura da zona oeste de São Paulo, quando começou a funcionar o bloco esportivo.

Dos nove anos em que esteve presente por meio período - às vezes mais - na obra, o arquiteto ressalta duas contribuições essenciais à sua formação profissional: o desenho enquanto pensamento em evolução, em vez de ser - como de hábito se crê no meio - a solução prévia de todos os detalhes da arquitetura, e a defesa do projeto por Lina frente aos vários interlocutores, inclusive de forma literária e verbal.

Com relação ao primeiro aspecto, Ferraz e Fanucci testemunharam, em momentos distintos da preparação desta matéria, o impacto que teve nas suas carreiras a experiência, direta para o primeiro e indireta para o segundo, de se produzir no local o mobiliário desenhado por Lina para o SESC. O contato com a marcenaria e a serralheria, a execução de modelos em escala real e a modificação do projeto até que se chegasse ao resultado aprovado pela arquiteta foram reveladores para eles do papel que o desenho tem na arquitetura, enquanto meio e não fim em si mesmo.

Além disso, o fato de o desenho na escala 1:1 ser, no final das contas, um simulacro da própria arquitetura do edifício, os fez entender como as coisas se encaixam e funcionam em conjunto. O mesmo vale para o convívio que Ferraz teve durante a obra do SESC com projetos expositivos, cujos suportes eram também produzidos pelas oficinas locais, coordenadas por Lina.

Nesse sentido, e como se pode depreender dos projetos posteriores dos museus concebidos pelo Brasil Arquitetura, conteúdo, expografia e arquitetura são partes indissociáveis de uma narrativa coesa, posta em diálogo com culturas locais. No que diz respeito à contumaz defesa de Lina do projeto arquitetônico, Ferraz destaca os textos e as discussões de que ela tomava parte a favor de ideias centrais da arquitetura.

No SESC, tal atitude teve mais a ver com ajustes dos detalhes construtivos, mas no trabalho seguinte, no centro histórico da Bahia (do qual participou também Suzuki), o embate foi de outra natureza. Lá, pesavam as determinações oficiais a favor da preservação irrestrita do patrimônio histórico, contra as quais se manifestava Lina, recorda Ferraz, através de “cartas-bomba”. É a atitude de se posicionar criticamente frente a normas e regras nem sempre válidas no tempo e no espaço dos projetos, e isso não exclusivamente através do desenho, do partido arquitetônico, mas por meio da escrita. “Aprendemos com a Lina que poderíamos projetar escrevendo”, reflete Ferraz.

O trabalho no centro histórico de Salvador começou em 1986, mesmo ano do desmonte do escritório da arquiteta no SESC Pompeia e da abertura, pelos três sócios do Brasil Arquitetura, Fanucci, Ferraz e Suzuki, da marcenaria Baraúna, em atividade ainda hoje. Parte do mobiliário dos projetos da Bahia, como as cadeiras Frei Egídio e Girafa, foi desenvolvida dentro da Baraúna.

Planos, perdas e ganhos

Foram mais de dois anos de prospecção até que se encontrasse um modo de viabilizar o projeto que Ferraz e Fanucci conceberam, por conta e risco, para o conjunto histórico do KKKK (sigla da empresa Kaigai Kogoyo Kabushiki Kaisa, extinta na primeira metade do século 20), galpões na cidade de Registro, em São Paulo, que são o pano de fundo do trecho final desta matéria.

Representando Pietro Maria Bardi em um evento realizado no final dos anos 1980 nos edifícios históricos da cidade do Vale do Ribeira, então sem uso, Ferraz diz ter visualizado a implantação no local de uma unidade do SESC, menor em escala, mas com natureza potencialmente similar à da Pompeia. E assim fizeram: aprovaram (já com a participação na equipe do arquiteto Cícero Ferraz Cruz, atualmente arquiteto associado do escritório, juntamente com Luciana Dornellas e Julio Tarragó) a revitalização do KKKK e apresentaram o projeto à direção do SESC.

Naquele momento, porém, a instituição não tinha planos para se estabelecer na região. Bateram, então, na porta das administrações estadual e municipal, até que veio da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE) a saída para fazer de parte do espaço um centro de formação continuada de professores, complementado pelas instalações do Memorial da Imigração Japonesa.

Foi em 1996, assim, que a ideia virou projeto contratado, dando novo fôlego para o Brasil Arquitetura. Aquele era um momento de quase dissolução do escritório, posterior à saída de Marcelo Suzuki da equipe e da iminência do fim da sociedade entre Ferraz e Fanucci, por falta de trabalho.  O projeto do conjunto KKKK evoluiu com a presença dos arquitetos na obra, propondo-se a criação de um parque na beira do rio Ribeira do Iguape, que se alongaria da rodovia à ferrovia, respectivamente de sul a norte da área.

Parte do projeto do parque chegou a ser executado, sobretudo na borda sul, com a remoção de cerca de 400 residências em situação de risco, que abriu espaço para a criação de uma área verde. Mas uma perda importante, analisam os arquitetos, foi a construção de um muro de contenção das águas (das cheias do rio) cercando o KKKK, pouco antes da inauguração do complexo em 2002.

Chegando a se elevar 3 metros de altura, a ruptura entre cidade e rio que ele representa foi parcialmente equacionada pelo Brasil Arquitetura que, na praça fronteira aos galpões, mudou o perfil do terreno, criando ondulações de terra. Mais de dez anos se passaram desde a inauguração da obra até que o SESC finalmente manifestasse a intenção de se estabelecer na região e, ironia do destino e mérito da perseverança dos arquitetos, isso ocorreu através da ocupação do KKKK pela instituição em 2015.

O Brasil Arquitetura, então, foi contratado para adequar os interiores ao programa e projetar o edifício anexo e, consequentemente, para conceber uma nova sede para o memorial japonês, a ser implantada na área verde do parque.  Após mais de 20 anos do início do projeto do KKKK, portanto, a ampliação do SESC Registro tem como elemento articulador a criação de uma passarela elevada que, partindo da cota alta da praça em frente aos galpões, chegará no primeiro pavimento do novo edifício.

“Esse conjunto de projetos nos mostra que o tempo da arquitetura é muito lento. As coisas vão e voltam. Estamos falando de 20 anos, metade da vida do nosso escritório. Mas conseguimos implantar nossas ideias através de um projeto de nossa iniciativa, que foi funcionando como plano. Nós, arquitetos, devemos ajudar a viabilizar projetos, procurar recursos. É um trabalho difícil, de convencimento do cliente, mas que muda as cidades; o urbanismo feito com arquitetura”, depõe Ferraz, ao que complementa Fanucci: “Temos um apreço muito grande por esse projeto. Aprovamos no órgão do patrimônio primeiro, sem cliente, em um momento difícil do escritório. E agora ele reaparece novamente em um período complicado, chegando para nos dar novo fôlego. Foi uma briga nossa, de arquiteto, que acho que é o nosso papel”.

O princípio norteador do projeto do KKKK, do arquiteto que prospecta trabalho, inclusive na esfera pública, em vez de esperar apenas pelas encomendas, é uma constante da trajetória do Brasil Arquitetura. Que deve ser contada no livro que Ferraz está empenhado em publicar em comemoração aos 40 anos do escritório, em 2019, ou seja, 14 anos depois do lançamento da monografia sobre eles pela, extinta, editora Cosac Naify.

De lá para cá, finalizaram as obras, entre outros, do Museu Rodin (BA), do Cais do Sertão (PE), do Teatro Engenho Central (SP), da Praça das Artes (SP) e do Museu do Pão (RS). “O objetivo maior do livro é combater a crise. O momento é de olhar para o panorama do nosso trabalho”, reflete Fanucci.

ENTREVISTA

Vocês defendem a postura ativa do arquiteto. Qual a essência dessa forma de atuação?

Marcelo Ferraz Acho que tem a ver com uma postura menos egóica dos arquitetos. Uma luta política, que demanda muita argumentação, alguns ganhos e tantas derrotas.
Francisco Fanucci Nosso trabalho envolve um esforço grande de convencimento, com as autoridades inclusive, defendendo a ideia de que a cidade não é um território hostil.

Também a presença do arquiteto em obra é parte essencial desse raciocínio.

FF O inverso disso é uma das coisas graves que estão acontecendo com a arquitetura atualmente. O arquiteto residente deveria ser o futuro da profissão, para transformar espaços ruins em cidades verdadeiras.

Vocês tiveram atuações diferentes antes do Brasil Arquitetura e, mesmo agora, se dedicam a atividades independentes. Como isso influencia na sua produção e como definiriam a sua arquitetura?

MF Das nossas várias experiências resulta que trabalhamos com tectônicas diferentes, que se complementam. A que voa, com seus vãos livres e suspensa do chão, e a arquitetura-chã, que brota da terra. Algo que aconteceu naturalmente na nossa produção. De certa forma, uma é herança da arquitetura moderna, da nossa época de formação na FAU, e a outra vem dos trabalhos com a Lina e da nossa admiração, por exemplo, da arquitetura do [Alvar] Aalto. O que tem a ver com a convicção de que a arquitetura é um instrumento de ação social, uma ferramenta de transformação das cidades.

Ter dirigido o Monumenta, em Brasília, que fazia parte das atribuições do IPHAN, foi importante para você nesse sentido?

MF A experiência [entre 2003 e 2004] teve dois desdobramentos para mim. Por um lado, pude ver, por dentro da máquina pública, como é travada a esfera política. As coisas não acontecem. Por outro, tive uma visão ampliada do Brasil. O meu trabalho era gerenciar projetos e, no ano e meio que estive lá, idealizamos museus que representavam as comunidades, as culturas locais, sempre com uma linguagem universal. O Museu do Pão [em Ilópolos, Rio Grande do Sul] é fruto desse raciocínio. Mas tinha muito projeto ruim concorrendo ao Monumenta, o que me fez montar um escritório lá dentro. Chamei jovens arquitetos e outros profissionais mais experientes para atuarem com eles.

A iniciativa rendeu frutos?

MF Sim e não. Foi curta a duração do escritório porque já em 2004 eu me demiti da função e voltei para o Brasil Arquitetura. Mas, de qualquer modo, a experiência foi estimulante. Chamei o Álvaro Siza para fazer o projeto no Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas [MG], que serviria de abrigo para as esculturas do Aleijadinho; também o André Vainer, para o projeto do Museu Afro [Brasileiro] na Bahia; o Eduardo de Almeida, para propor ideias para a Praça da Luz, que chegou a ser contratado. Dos arquitetos jovens que trabalharam lá, posso citar o Anderson Freitas, que era o coordenador da equipe, o Marcio Ximenes e o Alexandre Prisco [sócio de Nivaldo Andrade no A&P Arquitetura]. Todos ficaram contaminados com a vontade de fazer projetos públicos.

Exemplos que contradizem a máxima de que sempre se deve promover concursos públicos.

MF Começamos o escritório ganhando um concurso, mas acho que é uma ilusão achar que ele resolve tudo. Inclusive do ponto de vista administrativo e social, por causa da soberania do júri. O Vale do Anhangabaú, por exemplo, é um erro resultante de um concurso. Por outro lado, 90% dos municípios brasileiros precisam de projeto. Porque, então, não organizar concursos pequenos, com grupos convidados, trabalhando com uma remuneração modesta, mas justa? Os concursos de arquitetura no Brasil devem ser mais espraiados e justos para os jovens.

Um assunto delicado, que não podemos deixar de mencionar, é o processo judicial que vocês sofreram por causa do projeto do Museu do Trabalho e do Trabalhador, em São Bernardo do Campo. Qual a situação atual do processo?

MF Depois de quase dois anos da prisão do Chico [em dezembro de 2016] e da minha condução coercitiva para prestar depoimento, só agora, em novembro de 2018, é que começaram as audiências. Primeiro foram ouvidas as testemunhas de acusação e, entre fevereiro e março de 2019, será a vez das testemunhas de defesa. É um evento lamentável na nossa trajetória, sem dúvida, mas vamos provar a nossa inocência. Me surpreendeu, contudo, o apoio que tivemos dos amigos arquitetos, foi algo emocionante.

Qual foi exatamente a acusação e de onde ela partiu?

MF A acusação, de conluio e superfaturamento, partiu do Ministério Público Federal.

Esse processo demonstra, entre outras coisas, a incompreensão no Brasil sobre o que é o projeto de arquitetura.

MF Sim, sobretudo no que diz respeito à contratação das engenharias e à coordenação, pelos arquitetos, dos projetos complementares. Sem falar que o nosso vínculo sequer era com a administração municipal, mas com a gerenciadora do projeto. Foi um contrato firmado entre empresas privadas, relativo a um trabalho feito com muita seriedade.

Que trabalhos estão atualmente em desenvolvimento no escritório?

FF Algumas reformas de casas, uma fábrica no Rio Grande do Sul, que começou há dez anos, também como proposição nossa. Continuam aparecendo trabalhos na região dos Moinhos [em Ilópolis, RS], além dos projetos de risco, que vão e vem. O Marcelo é o chato de plantão. A cada quinze dias, ele pega o telefone e tenta reavivar esses projetos.

MF É isso mesmo. Em uma dessas ligações descobri, por acaso, que está aberta a seleção de projetos a serem beneficiados por um tal Fundo de Defesa de Interesses Difusos, do Ministério da Justiça. Podem ser inscritas iniciativas relacionadas à cultura, a cidades históricas etc. Imediatamente, passei adiante a informação, tentando dar vida aos nossos trabalhos.



Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 446
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