Entrevista

Vicente Wissenbach e Arlindo Mungioli

Jornalistas de formação, Vicente Wissenbach e Arlindo Mungioli personificam a memória dos 47 anos de existência da revista PROJETO, completados em 2019, dos quais os cinco primeiros sob a forma embrionária do jornal Arquiteto, fundado em 1972 por Wissenbach junto com Alfredo Paesani e Fábio Penteado. Foram nove edições da revista circulando por um ano como encarte junto ao jornal, até que a PROJETO, na sua 11ª edição - a lacuna da décima edição foi apenas resolvida no número comemorativo da edição 300 da publicação, em 2005 -, ganhou vida própria. Colega de Wissenbach desde a juventude de ambos, Arlindo Mungioli provém da área do jornalismo econômico. Foi seduzido pelo universo arquitetônico por meio da revista do amigo, com quem ensaiou sociedade em duas ocasiões até assumir o comando da publicação, com a saída de Wissenbach, em 1992.

(Fotos: Fábia Mercadante)


Na entrevista a seguir, realizada por Fernando Mungioli, filho de Arlindo e publisher da revista, a dupla narra momentos marcantes da história da publicação que, em 2019, completa 47 anos de existência - considerados os cinco anos do jornal Arquiteto - e a marca de 450 edições.

Os contextos da arquitetura e do urbanismo brasileiros nas épocas da liderança de um e de outro na revista são bastante diversos, o que torna ainda mais rico o contributo da publicação para a história da profissão no Brasil. Wissenbach, em 1972, atuou em uma tábula rasa, ou seja, em meio à inexistência de revistas de arquitetura e à necessidade de defender publicamente a arquitetura, que se institucionalizava na época. O jornal Arquiteto, assim, surgiu como um jornal de categoria.

Nele não eram publicados projetos, mas a cobertura jornalística de congressos e eventos, até que a revista PROJETO, encartada no periódico, começou a publicar obras. E assim permanece até hoje, com o propósito de retratar o mais vasto universo da excelência arquitetônica nacional.

A revelação de novos nomes e temas, a criação de produtos de sucesso, como o Concurso Opera Prima, atualmente em sua 29ª edição, além do testemunho do desenvolvimento da profissão - a revista foi pioneira em abrir espaço para a arquitetura de interiores e para o lighting design, por exemplo - são marcas da sua trajetória.

Quais foram os personagens e instituições envolvidas no processo de criação da revista PROJETO, desde a época do jornal Arquiteto?

Vicente WissenbachArquiteto surgiu em 1972, quando já não existia mais revista de arquitetura no Brasil. Até a revista Acrópole tinha fechado. Propus ao Alfredo [Paesani, 1931-2009] fazer um boletim para o sindicato [Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo (Sasp)]. Conversei também com o Fábio [Penteado, 1929-2011] e ambos aceitaram. O Alfredo era um nome forte no sindicato [foi um dos fundadores do Sasp, em 1971] e o Fábio, no IAB [Instituto dos Arquitetos do Brasil, do qual foi presidente nacional e depois do departamento São Paulo]. Montamos um conselho editorial e determinamos que o Arquiteto fosse um jornal nacional. Começou com a tiragem de 5.000 exemplares, distribuídos [em São Paulo] pelo sindicato e servindo à divulgação das grandes causas dos arquitetos. Como a da regulamentação e a da valorização da profissão. Nossa intenção era contar ao leitor aquilo que o arquiteto fazia além de projetos de casas. Éramos um veículo de defesa da atividade e, assim, a nossa linha editorial era dar cobertura às atividades das instituições. O jornal, portanto, não publicava projetos. Um dos momentos marcantes desse início foi a cobertura que fizemos do 9º Congresso Brasileiro de Arquitetos [em 1976]. Todos os dias publicávamos as resoluções do congresso, fechando a edição à uma da manhã e entregando o jornal às 6 horas nos hotéis onde estavam hospedadas as delegações.

E como se deu a transformação do jornal em revista, a PROJETO?

VW Nosso contrato [no jornal] com o IAB e com o sindicato era de cinco anos. A partir do quarto ano, porém, começou a haver divergências entre as instituições e um ano antes do fim do contrato, para contornarmos a situação, começamos a publicar a revista PROJETO na forma de um encarte de 16 páginas. Fizemos nove edições e as capas das três últimas já avisavam que a PROJETO ia virar revista. Para o terror das bibliotecárias, começamos a PROJETO na 11ª edição [a edição de número 10 foi realizada muitos anos depois, circulando, em 2005, como encarte da edição comemorativa do número 300]. A primeira capa da revista autônoma era sobre projetos industriais, matéria escrita pelo [Siegbert] Zanettini, o que anunciava claramente a nossa intenção de sermos plurais. Mesmo a Acrópole publicava basicamente projeto de casas. A publicação foi então ganhando corpo e chegamos a ter tiragem de 25 mil exemplares, dos quais 20 mil eram para assinantes e 5.000 exemplares avulsos vendidos nas bancas. Firmamo-nos como a revista do arquiteto, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, e eram os arquitetos os maiores divulgadores da revista.

Como era o cotidiano do trabalho com o Fábio e o Alfredo, duas personalidades marcantes da arquitetura brasileira?

VW Fábio e Alfredo eram meus amigos de juventude e foram sempre muito positivos no trabalho. Mesmo no choque que foi o pós-moderno, jamais censuraram matérias. Por outro lado, sempre aproveitávamos os “voos” do Fábio, que era muito criativo na sugestão de pautas.

Qual o legado desse princípio, de publicar projetos em âmbito nacional, para a história da revista?

VW A minha preocupação sempre foi a de fazer uma revista condizente com a sua circulação nacional, e daí a nossa missão de descobrir projetos em todo o Brasil. Foi assim com o Severiano Porto, por exemplo, que certa vez me disse: “Vicente, você me tirou do anonimato”. Também participávamos de todos os congressos de arquitetura do IAB, vendendo assinaturas e fazendo a cobertura geral. Os congressos eram uma das nossas fontes de pautas nacionais.

Houve no passado a resistência, por parte do leitor arquiteto, em relação à pluralidade das arquiteturas retratadas na revista?

VW Sim, sobretudo quando chegou o pós-moderno no Brasil, com o Eólo Maia e o pessoal de Minas Gerais na vanguarda. Houve muito debate e nós assumimos um papel ativo nessa discussão, em escala nacional.

Além dos congressos do IAB, que outros eventos ou instituições tiveram presença marcante nos anos iniciais da PROJETO?

VW A bienal de arquitetura de Buenos Aires, com certeza. Foi o Eólo quem me apresentou ao Jorge Glusberg [1932-2012, fundador da Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires, em 1985] em um congresso na Bahia. Acertamos de levar uma exposição de arquitetura brasileira para Buenos Aires, em 1983, se não me engano. Foi algo muito importante. Reunimos os trabalhos de 99 escritórios de arquitetura, que era o número que deu [risos], como resultado do mapeamento que fizemos da produção recente de todo o Brasil. Algo muito plural e não óbvio. Um ilustre arquiteto me acusou de estar denegrindo a imagem da arquitetura brasileira no exterior. Nosso voo para Buenos Aires tinha 150 arquitetos no avião. Naquela época não havia nada digital, a mostra foi transportada por nós mesmos, nas nossas bagagens. Na ida deu tudo certo, mas na volta a exposição ficou apreendida na alfândega brasileira. Felizmente conseguimos resolver o problema e a apresentamos no Centro Cultural São Paulo junto com uma parte da mostra da arquitetura argentina. Depois fomos para o Rio de Janeiro e para Belo Horizonte. Daí nasceu a bienal de Buenos Aires [atualmente na sua 17ª edição, a ser realizada entre 15 e 20 de outubro de 2019]. Nosso papel, na revista PROJETO, foi importante na história do evento. Fizemos a divulgação da bienal, da qual eu era jurado, e, em contrapartida, o Glusberg foi um grande agente de divulgação da arquitetura brasileira. Por outro lado, ele nos abriu as portas para os grandes arquitetos estrangeiros, que naquela época estavam em início de carreira, antes de se tornarem estrelas, como o Renzo Piano e o Cesar Pelli (1926-2019). Antes, na época do jornal Arquiteto, já existia um certo contato com a Argentina, mas nada comparável à bienal de Buenos Aires. Certo dia veio a Lala Méndez Mosquera [criadora da revista Summa] na redação e acordamos umas trocas de matérias.

Arlindo, porque você resolveu ingressar no jornalismo de arquitetura quando, no início dos anos 1990, estava bem sucedido no jornalismo econômico?

Arlindo Mungioli Vicente e eu nos conhecemos desde a nossa juventude e ambos trabalhamos na grande imprensa. No contexto da revolução de 1964, porém, eu fui praticamente expulso do trabalho. Depois, acabei arrumando um emprego modesto na Editora Abril, mas que foi para mim uma escola muito importante, tanto em termos jornalísticos quanto administrativos. Saí de lá em uma das inúmeras reformulações da empresa levando comigo o Boletim Análise, de economia, que era editado por mim. Um boletim semanal que estava praticamente falido na editora, mas eu descobri um atalho e, na medida possível para a sua escala, ele se tornou um sucesso. Chegamos a ter 5.000 assinaturas, muito bem pagas. Isso resultou em uma empresa pequena, com três redatores apenas, mas sólida em termos financeiros. Com o tempo, comecei a achar que eu estava afogado na área econômica, em um veículo limitado, afinal se tratava de uma newsletter, e resolvi tentar variações. Fiz uma outra newsletter financeira, que também foi um grande sucesso, e uma de análise do agronegócio, que foi um fracasso; enfim, estava feliz mas infeliz. O Vicente tinha já nesse período uma revista de êxito, muito conhecida e bem feita, e como havia uma crise grande no mercado [da construção civil], acabamos encontrando um caminho para o meu ingresso na empresa. Fizemos uma negociação financeira que ajudou a PROJETO e tirou meu foco da área econômica. A nossa sociedade durou pouco tempo, eu saí e depois voltei, até que o Vicente resolveu se afastar. Eu não conhecia a área nem os arquitetos, assumi com o apoio de uma redação especializada. Dividida entre arquitetos e jornalistas, com certas disputas de poder. Foi um começo bastante difícil para mim. Quando assumi [na edição 156, de setembro de 1992], a cobertura da atividade profissional tinha ainda bastante destaque. Achei que o caminho era retratar a produção arquitetônica e renovar graficamente a revista, mostrando fotos grandes dos projetos. Quanto ao pensamento do arquitetos, dediquei um caderno de 16 páginas para textos, mas foi difícil mantê-lo porque faltou colaboração. Reforçamos as questões visuais e conquistamos solidez, constância, ainda que em certo momento a concorrência tenha aumentado muito. Surgiu mais de uma dezena de revistas de arquitetura no Brasil.

Quais foram as suas referências e inspirações para essa reforma editorial e gráfica que implantou no início dos anos 1990?

AM Eu, como todo ignorante atento, recebia muitas revistas estrangeiras. Algumas mais exuberantes na questão fotográfica, que me inspiraram.

Houve também a compra da revista Design & Interiores, que igualmente tinha sido fundada pelo Vicente.

AM Era realmente uma revista muito bonita, porém com mercado muito estreito. Não tinha salvação comercial para ela e, então, achei que deveria fundir a Design & Interiores com a PROJETO [que se chamou Projeto Design por longo período]. O que me faz pensar que o rejuvenescimento da PROJETO no mercado tenha sido a minha principal ação administrativa na empresa. Depois veio a compra da Finestra Brasil, fundada pelo Vicente em 1996.

VW A criação da Design & Interiores foi uma resposta aos designers e arquitetos que desenhavam interiores, e que nos pressionavam para ter a sua seção dentro da revista. No embalo da boa receptividade que teve, lancei-a como revista autônoma [trimestral], o que comercialmente, contudo, não foi um bom negócio porque dividiu os anunciantes.

Também a atuação do arquiteto foi mudando ao longo da história da revista. Nela, por exemplo, a atenção dada ao lighting design foi pioneira no Brasil, não é verdade?

AM Fizemos seminários para discutir e divulgar o assunto, sugeridos pelo Plínio Godoy e pela Neide Senzi. Foi um grande sucesso de público. Ninguém falava de lighting design naquela época, situação totalmente diferente do que acontece hoje.

VW A revista PROJETO ajudou a consolidar a atividade.

AM Também o foco em projetos [executados] nos proporcionou revelar sempre novos nomes.

Ainda hoje ouvimos dos jovens arquitetos que ser publicado na PROJETO é um aval para o início da vida profissional.

VW Nossa postura foi sempre a de mesclar os nomes consagrados com a busca por novos nomes e aqueles provenientes de outros estados, além de São Paulo e Rio de Janeiro. Desde o início, inclusive, abrimos a revista à sugestão de projetos pelos seus autores, o que rendeu bons frutos. Acho que fomos o grande suporte para o crescimento da profissão do arquiteto no Brasil, na sua trajetória de independência em relação à engenharia. A revista recebeu vários prêmios no IAB por causa do nosso tipo de atuação, e mesmo os prêmios pessoais que recebi foram por causa do que fiz na revista. Lembro-me, por exemplo, de uma série de quatro números especiais, patrocinados pela Brasilit, sobre arquitetura regional brasileira. Saíram como suplemento da revista e depois foram resumidos em livros. Foi um grande marco e uma ação de sucesso também para o patrocinador. Cheguei a ser convidado pela controladoria da Saint Gobain [proprietária da Brasilit] para ir à França, como forma de reconhecimento à iniciativa.

Foi a Brasilit, inclusive, quem patrocinou a edição número 10, que circulou como suplemento da edição especial número 300. Mas, mudando de assunto, estamos agora, em 2019, na 29ª edição do Concurso Opera Prima. Vicente, como surgiu a ideia de criar o prêmio para trabalhos de graduação em arquitetura e urbanismo?

VW Sempre fomos procurados por estudantes e recém-formados que nos pediam para publicarmos os seus projetos de conclusão de curso, o que acabava acontecendo meio sem critério, mais em resposta àqueles que nos pressionavam mais. Até que em certo momento montamos uma comissão informal de avaliação desses trabalhos na PROJETO, composta, por exemplo, pela Marta [Maria Soban] Tanaka e outros. Ao mesmo tempo, tinha um diretor de marketing da Eucatex que queria criar ações especiais na revista e, sabendo da publicação dos trabalhos de graduação e da nossa intenção de criar um prêmio [compartilhada pela Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo, ABEA, e, anos depois, pelo IAB], sugeriu o nome Opera Prima. A marca foi, então, registrada e convidamos para a primeira edição um júri de peso. Luis Paulo Conde e Severiano Porto estavam lá. A competição foi desde o início dividida em uma seleção por estados e uma fase posterior, nacional. A exposição da primeira edição do Opera Prima foi montada no Mackenzie, que nos disponibilizou um espaço no seu campus.

AM A revista PROJETO sempre deu apoio significativo aos formandos.

VW Ser premiado no Opera Prima sempre abriu portas para o primeiro emprego, inclusive.

AM Mesmo caminho que está sendo trilhado agora pelo pelo Urban 21 [concurso de trabalhos acadêmicos de desenho urbano, criado pela PROJETO em 2015].

Por falar em prêmio, Vicente, como você enxerga o seu papel na cobertura jornalística de arquitetura e urbanismo, referenciado pela distinção que recebeu em 2017 da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) pela sua atuação na difusão cultural da profissão?

VW Foi uma grande surpresa para mim ter recebido esse prêmio da APCA. Apesar de continuar editando livros e montando projetos culturais na área, como a mostra brasileira nas bienais de Buenos Aires [a próxima será intitulada Outras Arquiteturas, dedicada a trabalhos do Norte, Nordeste, Centro Oeste e outras estados pouco presentes na mídia de arquitetura] e a mostra Destaques das Bienais que, agora na quarta edição, organizo em Santa Catarina, foi também uma premiação para trabalhos que realizei há muitos anos.

Em que projetos você está trabalhando atualmente?

VW Tinha finalizado todo o planejamento de uma série de filmes sobre arquitetura a serem exibidos em duas temporadas televisivas, mas que foram inviabilizados por causa das mudanças atuais na Ancine. Estou montando também uma exposição sobre o Carlos Bratke e outra intitulada Arquitetura Regional Brasileira, onde me proponho a falar sobre a produção brasileira a partir de dez escritórios de arquitetura.

Qual considera ser o seu legado, Arlindo, para a revista PROJETO?

AM Quando entrei na sociedade, no contexto do Plano Collor, a minha preocupação era salvar a revista. De lá para cá, meu comportamento foi sempre o de promover a estabilidade financeira da empresa, sem sociedades estranhas e fazendo do sucesso dos nossos produtos a alavanca para a criação de novos produtos, o que foi muito importante para chegarmos até aqui.

E quais lembranças você tem, Vicente, de momentos memoráveis à frente da revista?

VW O mais marcante para mim foi o prêmio que recebemos da União Internacional de Arquitetos, seção Américas. Em um ano conquistamos a medalha de prata (1988), atrás da Summa, e no ano seguinte (1992) a situação se inverteu.

Como vocês, uma dupla de jornalistas respeitados, enxergam o atual momento do jornalismo?

AM Para a profissão em si, é um futuro conturbado. Ela perdeu o galardão de ser universitária e noto que o exercício profissional está desgastado por conta da situação política. Coisas que acontecem no momento em que a tecnologia se sobrepõe ao exercício tradicional do jornalismo.

VW Na minha opinião, o jornalista não precisa ser especializado em nada, mas deve ter boa noção sobre economia, política e sociologia. Esse tripé é o fundamental. Já no que diz respeito ao jornalismo de arquitetura, noto que há a necessidade de haver críticos, mas com visão jornalística.

Texto de Fernando Mungioli e Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 450
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