Entrevista: Paulo Casé

"Descobri que fui pós-moderno desde 1964"

Paulo Casé formou-se arquiteto pela Escola Nacional de Belas-Artes do Rio de Janeiro e montou escritório próprio em 1958, em sociedade, já desfeita, com Luiz Acioli

Paulo Casé faz parte de uma geração de profissionais que passou os anos de faculdade debatendo arquitetura e lendo tudo o que lhe chegava às mãos sobre modernismo. Era o final dos anos 1950 e na tradicional Escola Nacional de Belas-Artes, no Rio de Janeiro, ainda reinava o ecletismo, enquanto o moderno não chegava às salas de aulas - “por desinteresse, acomodação ou conservadorismo”, diz o arquiteto.

Como a maioria dos colegas, o modernista, racional e formal Casé tinha em Lucio Costa, Sérgio Bernardes e Oscar Niemeyer seus gurus nacionais, mas era a arquitetura de Frank Lloyd Wright que fazia realmente sua cabeça.

Sua atividade profissional, intensa, tem se voltado, nos últimos anos, para o urbanismo e a arquitetura que ele chama “de intenções”, de projetos simples, mas que oferecem opções de lazer e esportes aos bairros carentes do Rio de Janeiro.

FORMAÇÃO EM ARQUITETURA
Como o senhor decidiu fazer arquitetura?

A escolha foi ao acaso, nunca tive tendência para desenho nem para arquitetura. Sempre fui assíduo freqüentador da praia de Copacabana, não me dedicava muito aos estudos.

Quando terminei o serviço militar, fiz o terceiro colegial à noite e tinha o dia todo para ir à praia. No colégio, um colega me disse que ia fazer vestibular para arquitetura. Eu nem sabia o que era isso, e fiquei espantado quando ele me explicou que era uma prova com toda a matéria do colegial - já achava difícil passar por um ano de cada vez.

Também na praia encontrei um amigo que era levantador de peso e perguntei o que ele estava fazendo. Fiquei muito mal quando o brucutu disse que tinha passado em engenharia. Quando ele me perguntou o que eu ia fazer, respondi a primeira coisa que me veio à cabeça: arquitetura. Ele então me indicou um excelente cursinho na cidade.

O professor tinha um entusiasmo tão grande, uma didática tão boa que me fez tomar gosto pelo estudo. Nunca tinha desenhado, mas passei bem, em quinto lugar, e comecei a fazer arquitetura na Escola Nacional de Belas-Artes.

Nessa época, o ensino já era modernista?

Os professores tinham ainda a linguagem do ecletismo, mas nós segurávamos a bandeira do modernismo. Nossos gurus na época eram Lucio Costa, Sérgio Bernardes e Niemeyer. A dissociação entre o corpo docente e o discente era total.

Eles não admitiam o moderno, por desinteresse, acomodação ou conservadorismo. Nós, os alunos, buscávamos Frank Lloyd Wright, que nos chegava em inglês, numa linguagem até difícil de ser interpretada. Dos ícones do país, Niemeyer era o mais importante, porque tinha uma coisa mais forte, mais formal, muito bonita. Foi uma época maravilhosa.

A escola era um casarão na Rui Barbosa - hoje fica lá a reitoria -, com jardins internos onde fazíamos serestas aos sábados. As turmas eram pequenas e todos se conheciam, havia uma união muito grande entre os alunos. Na verdade, fazíamos nossos próprios cursos, nos formávamos em nossas discussões.

Hoje, me sinto como um matusalém, pois já passei por muitas épocas. Poucos puderam ter a experiência de viver tempos tão diversos, com visões de vida tão diferentes, como as pessoas da minha geração.

Entre os professores, algum se destacava?

Eu recordo mais os fatos que os nomes das pessoas. Lembro-me do Archimedes Memória, que ganhou o primeiro concurso para o projeto do Ministério da Educação e foi diretor da Escola Nacional de Belas-Artes.

Como disse, nos formamos lendo e discutindo arquitetura entre nós mesmos. Tivemos de descobrir o que era urbanismo, por exemplo, porque a matéria ainda não existia. Soubemos que Le Corbusier havia proposto qualquer coisa sobre o assunto na Carta de Atenas, mas desconhecíamos exatamente do que se tratava.

Nós, alunos, éramos todos racionais, modernos, porém formais. O que, aliás, não deixa de ser a visão do modernismo: forma universal, determinismo histórico da arquitetura, falta de relação com o meio.

A influência de Niemeyer foi importante na sua formação?

Não, na verdade minha matriz formal foi Frank Lloyd Wright. Eu desconfiava que atrás das formas das obras de Wright havia um conceito principal, o que eu não via em Niemeyer. Muito embora eu tenha descoberto depois o conceito de que a beleza é a função.

Até então, beleza para mim era beleza. Depois entendi o que ele dizia: a função acaba, mas a beleza da forma permanece. Embora essa não seja a minha visão de arquitetura, compreendo que é a maneira de ele encará-la.

Mais tarde, quando me tornei professor [na Universidade Federal do Rio de Janeiro], achei horríveis aqueles corredores enormes no prédio moderno do campus do Fundão. O modernismo foi uma praga, não por ele, mas pelos princípios.
Os decálogos impunham como a obra deveria ser, com brise-soleil, pano de vidro, pilotis e por aí vai.

Do contrário, não seria moderno. Por um lado, era cômodo, o arquiteto não precisava pensar. A forma bela estava ali.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL
E em que momento o senhor começou a questionar o formalismo?

Descobri que fui pós-moderno desde 1964, mas no sentido correto do termo, como movimento crítico do moderno. Essa questão começou a ser discutida uma geração antes da minha, mas eu achava tão certo que a arquitetura de Niemeyer era paradigma que não levava em conta outra interpretação.

Até que participei, no início dos anos 1960, de um concurso do IAB, dentro do 1º Fórum de Discussão de Arquitetura no Brasil, com um projeto feito em 1958, quando eu ainda era estudante. O projeto reproduzia formas wrightianas e era belíssimo.

As obras concorrentes não tinham nenhuma expressividade, então achei que iria ganhar tranqüilamente. Mas levei uma cacetada de que custei a me recuperar, porque o júri não gostou. O primeiro choque foi horrível, mas depois parei e pensei: se o prédio é bonito e todo mundo acha, qual é o problema?

O primeiro edifício que desenhei depois disso era muito semelhante a um dos trabalhos premiados, todo fechadinho, sem nenhuma brasilidade, nenhuma liberdade. O projeto foi aprovado, mas logo em seguida rasguei e fiz outro do jeito que achava que deveria ser. E até hoje ele está lá na Barata Ribeiro.

A partir daí, como prosseguiu sua carreira?

A partir do insucesso do concurso, levei dez anos para descobrir o que era arquitetura para mim. Nesse período, participei de 11 premiações seguidas, com dez prédios e uma casa, sempre discutindo arquitetura com o júri através de seus pareceres.

Discutia, principalmente, os princípios que impediam a expressão da diversidade cultural na obra. Se a pintura de Di Cavalcanti, a música de Heitor Villa-Lobos e a literatura de Monteiro Lobato podiam fazer o moderno com visão brasileira, por que a arquitetura não teria um gesto brasileiro?

Cheguei até a discutir o prédio do Ministério da Educação, que considero extraordinário, mas trata-se de modelo europeu. Pilotis em locais de chuvas e ventos muito fortes não funcionam. No caso do ministério, o uso deles é só monumentalidade. Depois, fiz um livro sobre esse período que foi até premiado pelo IAB.

O RIO DE JANEIRO HOJE
Como o senhor vê a arquitetura da cidade atualmente?

Quando dava aulas na faculdade, dizia para meus alunos terem muito cuidado, porque arquitetura exige responsabilidade. Depois de pronta, a arquitetura, assim como a tatuagem, não tem mais jeito. O objeto arquitetônico faz parte da paisagem, a qualidade da cidade é a qualidade dos seus prédios.

A Barra da Tijuca foi esse desastre porque as pessoas, infelizmente, pensam comercialmente. Copacabana, por sua vez, teve a vantagem de seus prédios serem juntos uns aos outros, de maneira que a própria edificação fez o urbano.
Na Barra nem isso, tem aqueles vazios enormes sem nenhum significado.

O computador foi facilmente assimilável no seu trabalho?

Para mim, o computador é um fator robotizador de culturas. Uma máquina criada para atuar como instrumento no meio econômico-financeiro que, de repente, começou atuar em todas as outras áreas e a mudar o comportamento das pessoas.

Claro que é de muita utilidade nos escritórios de arquitetura. Uma obra como a do Guggenheim de Bilbao, na Espanha, jamais poderia ter sido feita sem as imagens e os cálculos do computador.

No urbanismo, nas obras para a prefeitura, como o Rio-Cidade, eu o utilizei como instrumento para os projetos de renovação urbana. A responsabilidade de interferir no espaço público é muito grande, sobretudo porque se trata de área já constituída e com sua história.

Quando passei a trabalhar em urbanismo, comecei a pensar em como fazer um trabalho de intenções. Não era mais a forma bela nem o design que me interessavam, mas o bem-estar das pessoas; as questões estéticas chegam como complemento.

No Projeto Cidade Ipanema, em nenhum momento pensei na forma. Compusemos a equipe com sociólogos e filósofos para discutir como interferir no espaço urbano.

Cheguei à conclusão de que, se o homem não vai para a rua conhecer sua diversidade, morre como robô dentro de casa, onde a televisão e o computador só dão mensagens absolutamente estandartizadas. As pessoas precisam se apoderar da sua língua, de seus costumes, de sua vizinhança, sob o risco de perder a identidade.

Entre seus projetos de interesse social, quais os mais importantes?

No Cidade Bangu, observei que os trilhos do trem do subúrbio passam lá com quase dez metros de altura, secionando todas as ligações de vizinhança. Os moradores subiam toda aquela altura para pegar o trem e, para ir para o outro lado, tinham que subir e descer as escadarias sob um calor infernal.

Como solução, criei duas passagens principais cobertas e protegidas por microgotejadores, que umedecem e reduzem a temperatura em até sete graus. E para facilitar a locomoção há escada rolante e elevador para paraplégicos. A forma só foi pensada depois.

Há também os parques de vizinhança, com a finalidade de criar espaços de lazer para as famílias da periferia. Ao todo, projetei cinco, e o primeiro, em Deodoro, está sendo concluído agora. Os outros são em Jabu, já licitado, e em Vista Alegre, Machado de Assis e Lins.

No parque há uma grande piscina, com areia, vestiários, restaurante, lanchonete, grande salão para as festas comunitárias, pequena cozinha, áreas para churrasco e para futevôlei. E tudo isso orientado por profissionais treinados. É um projeto de alcance social maior que outros que tenho feito.

E além desses?

Fiz ainda a Cidade das Crianças, em Santa Cruz, que está dividida em três partes contíguas: a cidade, uma área para esportes e uma pequena fazenda. A cidade tem teatro, sala de exposições, biblioteca, lojas para vender produtos fabricados nas favelas, lanchonetes, duas ilhas temáticas para espetáculos de Ziraldo e Regina Casé, playgrounds e local para piquenique. Na parte de esportes, há espaços para skate, futebol, tênis e piscina. E a fazenda é o lugar onde a criançada pode conhecer os animais de perto. Uma ciclovia e um trenzinho circulam pelos três ambientes.

Ganhei também o concurso para revitalização do centro, na área da praça 15, que dará continuidade ao projeto de intervenção na área do cais, onde Jean Nouvel fará o museu [Guggenheim].

Por falar em Nouvel, qual sua opinião sobre esse controvertido projeto?

Pode-se não concordar com o projeto, mas ele partiu de uma referência antecipada.
E é fundamental para a revitalização do centro, abandonado.

Há a tentativa de combater o governante pelo preço. Eu pude estudar as várias propostas apresentadas para o cais, mas nenhuma teve os mesmos cuidados do trabalho de Nouvel. De um lado, fica a área do gasômetro, totalmente sucateada, e do outro a praça Mauá, tombada sem o cuidado de manter os moradores.

É preciso mudar o vetor de crescimento do Rio, que até agora tem acompanhado a montanha e o mar - Flamengo, Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon - e tornar o centro novamente habitável.

A área do cais do porto representa umas três Copacabanas ou mais, e a revitalização econômica do Rio proporcionará aumento tão expressivo na arrecadação de impostos que o custo do Guggenheim desaparecerá.

Na arquitetura brasileira, que nomes o senhor considera mais importantes atualmente?

Oscar Niemeyer, sem dúvida, e também Paulo Mendes da Rocha e Joaquim Guedes, em São Paulo. E, na Bahia, Assis Reis. No momento, não me ocorrem outros nomes.

E entre os estrangeiros?

Álvaro Siza é maravilhoso, e também Rafael Moneo. Gostaria de ver Siza restaurar a Lapa para moradia. Tenho certeza de que ele faria isso muito bem e sem nenhum gesto de agressão ao meio. Se bem que às vezes a agressão dá certo, como o Beaubourg, em Paris.

Texto de Éride Moura e Fernando Serapião| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 282
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