Oscar Niemeyer: Centro Cultural Duque de Caxias, RJ

Sob o sol e a agitação da Baixada Fluminense

A praça não é local de transição: ou se está dentro, ou se está fora

Cotas, gabaritos, curvas e materiais podem não ter o efeito sonhado pelo arquiteto. Mas Niemeyer sabe transformar o espaço indistinto da cidade no domínio simbólico da sua população. Esse é o lugar da praça e dos edifícios escultóricos que ele propõe. Ali, o usuário se orienta de forma intuitiva e troca o passo rápido da cidade pelo relaxamento e pelo vagar de quem se abriga à sombra da arquitetura.

“Moça, uma informação: onde é a entrada do teatro?” Meu primeiro impulso foi dizer: “Desculpe, mas eu não sou daqui”. No entanto, eu poderia responder àquela interrogação com a tranqüilidade de um guia turístico. “Siga a rampa - o acesso fica lá em cima, na parte de trás do edifício”, informei, apontando para o caminho ascendente e regular.

Fazia pouco mais de uma hora que eu estava em Duque de Caxias, vinda da Tijuca. O Sol já passava da posição vertical e todas as superfícies - piso, paredes, rampa e até a roupa clara, de linho, do interlocutor desorientado - refletiam a extrema luminosidade daquele momento. O sujeito seguiu em frente, para o lugar de onde eu acabava de vir.

Antes desse diálogo, eu tinha adiado um pouco minha entrada na praça do Centro Cultural de Duque de Caxias. Uma breve pausa para o almoço, no estreito balcão da loja de produtos naturais. Por um tempo permaneci ligeiramente afastada daquele complexo arquitetônico, tentando entender sua lógica edificada. O entorno era familiar. Paulista, carioca, brasileiro ou cidadão de qualquer parte do mundo, todos temos em mente os indícios quase universais de uma região de transição: paradas de (muitos) ônibus, vias regionais de automóveis (basta seguir o fluxo e num instante, desde a Dutra, chega-se à região do centro cultural), comércio formal e informal entrelaçados, congestionamento de pedestres disputando o espaço das estreitas calçadas, poluição sonora.

A praça, elevada pouco mais de um metro em relação ao entorno, fica aproximadamente na altura da minha cintura. As ruas em volta ajudam a definir o cenário: transversalmente, de um lado o entroncamento viário e do outro uma rua em parte murada, sem saída; na longitudinal, ao sul, a ponta de uma bifurcação e, ao norte, um quarteirão comercial formado por edifícios de uns seis andares. O pequeno comércio no térreo dessas edificações encara o centro de Niemeyer

De condições como essas é que deve ter surgido a referência dos 40 metros, presente neste e em outros projetos do arquiteto. A medida, que pode ser verificada já numa rápida passada de olhos pelas plantas e cortes do centro cultural, no local se revela como condição adequada ao estabelecimento de uma nova realidade. Para fazer frente à transitoriedade e densidade do entorno, só mesmo conquistando, repetindo, segmentando, enfim, inserindo elementos da escala dos 40 metros. É muito, se considerarmos que todo centímetro é disputado com vigor tanto por pedestres quanto por veículos.

Pode-se dizer que adiei brevemente a entrada na praça, porque ela se recusa a ser um elemento de transição. Sua afirmação arquitetônica é taxativa: nela, ou se está dentro, ou se está fora. Entrei, afinal, a partir da borda do teatro. É a edificação escultural do complexo, principalmente considerando sua volumetria e o gabarito da ordem de 20 metros - metade de 40. Não tem como errar: chega-se lá e sobese a rampa, intuitivamente, o que leva às imediações da entrada, uma região vulnerável às condições climáticas. Não há dúvida: ou se está dentro, ou se está fora.

Em instantes, surge um rumor de música. São atores convidando as crianças para o espetáculo que começava ali mesmo, no foyer externo. Segui o grupo e cheguei à platéia. Com esforços sonoros e visuais para relatar episódios da Revolução Farroupilha, aos poucos os protagonistas foram chegando ao palco. O teatro é curioso. Em planta tem a forma de uma elipse, com o eixo maior medindo os tais 40 metros.

Internamente, foi dividido ao meio, metade para o público, metade para atores e aparatos de cena. Apesar da lotação de 450 lugares, parece pouco para o espectador essa platéia bem mais larga do que profunda. Sem perspectiva cônica, sem distanciamento aparente entre quem assiste e quem representa, a concentração também pode ficar um pouco comprometida.

Busquei nos interiores referências à cobertura ou ao volume escultórico da arquitetura, mas não achei nada que apontasse claramente esse parentesco. Depois, consultando novamente os desenhos, notei no corte longitudinal que aquilo que eu procurava estava registrado nos vários níveis técnicos acima do palco. É ele, enfim, que orquestra o projeto de Niemeyer. Tão grande quanto a platéia porque foi pensado para ter dois lados - abre-se também para fora, em direção à praça central. É hierarquicamente o mais alto dos ambientes.

Talvez muito mais do que o necessário, mas tudo bem, porque o ato simbólico de cumprir essa dupla jornada e dirigir-se ao espaço público, domínio do usuário, demanda mesmo grande impacto. O teatro, portanto, deve ter sido pensado por fora, o que me parece apropriado à transitoriedade aparente que o circunda. Seu volume transforma a condição da praça aberta e indistinta, qualificando-a como espaço independente. Nela se instala uma outra realidade. Do lado de fora, movimentos rápidos e passadas decididas; do lado de dentro, o relaxamento das pessoas sentadas na borda do piso em desnível e às mesas de carteado ou dominó, dispostas sob a sombra que faz a arquitetura.

Essa condição particular já me parecia suficientemente definidora do projeto enquanto eu caminhava na direção da biblioteca, na extremidade oposta. Esse edifício fica no canto mais impessoal do conjunto, o da bifurcação viária, que, feitas as contas, funciona como uma área sombreada.

No térreo, a implantação resume-se ao bloco envidraçado da escada que dá acesso à biblioteca, de forma a liberar suficiente área livre sob a laje do andar superior. Também internamente o edifício é pródigo na reserva de área frente à densidade do entorno. A biblioteca parece enorme para os equipamentos que abriga, impressão reforçada nos dois andares - um infantil e outro para adultos - pelas estantes com grande potencial de ocupação.

De qualquer forma, pode-se entrar, percorrer o ambiente sob o conforto de certa refrigeração e sem ser questionado. É essa descontração, aliás, que permitiu ao jovem estender seu sono bem ali, num canto próximo ao vidro lateral.

Essa sensação de relaxamento causa certa estranheza a quem procura na biblioteca razões arquitetônicas. As janelas laterais redondas parecem desconfortáveis, divididas ao meio pela laje de piso. Do mesmo modo, os pilares expostos no térreo livre revelam a falta que faz a haste central presente nos croquis iniciais.

De volta ao calor, retomei o único caminho intuitivamente possível para a saída do conjunto, aquele novamente guiado pela proximidade do teatro escultural. E o que ficou claro dessa experiência foi que o centro cultural de Niemeyer, em Duque de Caxias, é antes de tudo o espaço da praça, tão diferente da cidade em volta, à espera de todos que queiram entrar.



Ficha Técnica

Centro Cultural de Duque de Caxias
Local Duque de Caxias, RJ
Início do projeto 2002
Conclusão da obra 2004
Área do terreno 8.100 m2
Área construída 3.600 m2
Arquitetura Oscar Niemeyer (autor); Ana Niemeyer e Jair Valera (desenvolvimento e coordenação)
Estrutura José Carlos Süssekind
Instalações Projest
Luminotécnica Peter Gasper
Acústica Cena
Construção EIT
Fotos Leonardo Finotti

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 334
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