Oscar Niemeyer: Superquadras, Brasília

Unidade de vizinhança cedeu espaço à realidade

“Pois não?” A interpelação gentilmente seca da senhora, desconfiada diante da máquina fotográfica, deu lugar a um sorriso quando soube que se tratava de uma reportagem sobre a Superquadra Sul 107, em Brasília

Com 47 anos de Brasília, 44 deles vividos na 107, Nancy Barreto há 15 anos é a prefeita da SQS 107. “Somente aqui os itens previstos foram construídos. Nas outras superquadras esse conceito não vingou”, ela lamenta.

Para dar referência aos projetos das superquadras, Oscar Niemeyer - que dirigia o Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) - desenvolveu em 1959 a proposta dos edifícios residenciais das SQS 107 e 108. Com as vizinhas 307 e 308, elas compõem a unidade de vizinhança que mais se aproxima do conceito original. Alguns dos equipamentos previstos para esse núcleo também foram criados por Niemeyer, tais como a igreja, o cinema e a escola.

Mas nestas, como em outras superquadras, as diferenças entre o idealizado e a vida real vão além da ausência dos itens de uso comum. Não se vêem crianças brincando nas SQS 107 e 108, que passam os dias quase desertas, exceto nos fins de tarde, quando alguns moradores, geralmente idosos, detêm-se em conversas enquanto babás e bebês passeiam.

Algum movimento vem dos prédios em reforma - num deles, os operários trabalham no fechamento dos pilotis de um dos blocos, empenhados em transformar o espaço público em privado. Estreito, o calçamento pede reforma e a grama teve o viço queimado pela longa estiagem. Os jardins, de uso comum, são conservados pela prefeitura das superquadras.

Cada bloco contribui com uma parcela. O orçamento? “É muito pouco”, desconversa a prefeita. Ao contrário da festejada arquitetura monumental das obras públicas da nova capital, os edifícios residenciais que Niemeyer criou nas SQS 107 e 108, para receber os funcionários públicos transferidos do Rio de Janeiro, estão um tanto esquecidos. O traçado das vias internas foi elaborado por Nauro Esteves, funcionário da Novacap entre 1956 e 1969.

“Dentro dessas ‘superquadras’ os blocos residenciais podem dispor-se da maneira mais variada, obedecendo, porém, a dois princípios gerais: gabarito máximo uniforme, talvez seis pavimentos e pilotis, e separação do tráfego de veículos do trânsito de pedestres”, dizia um trecho do relatório do Plano Piloto de Lucio Costa.

As superquadras, em acordo com o urbanismo corbusieriano, que separa as edificações pelo tipo de uso, medem aproximadamente 250 x 250 metros cada uma, alinhadas ao longo dos quase 15 quilômetros do eixo norte-sul. Acima deste (a oeste), foram dispostas as superquadras 100 e 300, e abaixo, as 200 e 400. Os esboços de Costa sugeriam ainda baixa taxa de ocupação das glebas e edificações em lâmina com pilotis, modelo que ele já havia testado no Parque Guinle (1948/54), no Rio de Janeiro.

Na 107 e na 108, Niemeyer definiu 11 prédios de seis pavimentos sobre pilotis (com duas linhas de pilares, que depois influenciariam os edifícios brutalistas de São Paulo), equipados com elevadores e áreas para estacionamento.

Os pilotis permitiriam democratizar a circulação. A disposição dos blocos evita a sucessão repetitiva dos volumes e os generosos espaços livres entre eles tornam-se território da convivência, do lazer e das crianças. São duas tipologias para as fachadas: uma envidraçada e outra com brises, ambas com empenas laterais cegas e faces posteriores com vedos em elementos vazados.

Na SQS 108, os apartamentos possuem dois ou três dormitórios e na SQS 107 há também a opção de quatro quartos. As metragens das unidades variam entre 82,30 e 224 metros quadrados. O modelo implantado por Niemeyer foi repetido, com variações pouco significativas, por outros arquitetos. Seguem padrão diferente apenas as edificações das superquadras 400, com conjuntos de menor custo.

Juntas, as SQS 107, 108, 307 e 308 são a única unidade de vizinhança de Brasília a conter pelo menos a maioria dos equipamentos previstos - escola, igreja, comércio, piscina e cinema. A idéia era criar um estilo de vida próprio da capital, de modo que os moradores encontrassem nesse perímetro tudo de que precisassem no dia-a-dia. Para estabelecer o modelo - que virou exceção -, Niemeyer desenhou também alguns desses equipamentos comuns.

Na Entrequadra Sul 307/308, por exemplo, a capela Nossa Senhora de Fátima chama a atenção pela volumetria, que lembra o desenho do chapéu das irmãs vicentinas. Externamente, o revestimento de azulejos forma figuras estilizadas da pomba do Divino e da estrela da Natividade, assinadas por Athos Bulcão. Com assentos de madeira para apenas 60 pessoas, o pequeno templo mantido pela ordem dos franciscanos capuchinhos é obrigado a recorrer a cadeiras de plástico para acomodar parte dos fiéis durante as celebrações diárias.

“Solicitamos a Niemeyer um projeto de ampliação e ele já concordou. A idéia é abrir um subsolo com cerca de 300 metros quadrados”, entusiasma-se o pároco, frei Odolir Eugênio Dal Mago. A igrejinha completará meio século em 2008 sem ter conseguido evitar descaracterizações. Na década de 1960, uma reforma escondeu, com camadas de tinta fria e impessoal, os coloridos afrescos com bandeirolas e anjos do pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi. Nos anos 1980, por exigência da fé, abriu-se um lugar para o santuário de velas.

É também de Niemeyer o projeto do Cine Brasília, na Entrequadra 106/107. O volume curvilíneo com acessos laterais cobertos e revestimento externo em cerâmica vermelha foi restaurado em 1974 e hoje funciona com três sessões diárias. O espaço é festejado por sua qualidade de projeção e por abrigar, desde a década de 1960, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, única ocasião do ano em que seus 607 amplos e confortáveis assentos são totalmente ocupados. A decoração interna tem painéis de Bulcão.

As escolas-classe (correspondentes às atuais turmas da 1ª à 4ª série do ensino fundamental, para crianças de sete a dez anos) eram essenciais para o funcionamento das superquadras. Niemeyer desenhou a unidade da SQS 308, modelo repetido com pequenas diferenças na SQS 108. São dois volumes interligados por marquise: um abriga instalações administrativas e outro é composto por cozinha, depósito, sanitários e oito salas de aulas.

Uma visita aos estabelecimentos comprova que eles também não resistiram às demandas do tempo. Os problemas são apontados por funcionários, que preferem não se identificar. A marquise é estreita e protege pouco nos dias chuvosos. A cobertura do pátio entre as salas de aulas é recortada e tem caimento para o interior - quando chove, o pátio fica molhado e as crianças ficam na classe durante o recreio. Além disso, o pé-direito baixo e a incidência solar vespertina tornam o ambiente abafado e desconfortável, em especial nos meses de seca.

Com cerca de 350 alunos em dois turnos, os banheiros não dão conta da demanda na hora do recreio. Como o projeto não previa biblioteca, as duas escolas abriram mão de uma das salas de aulas para dar lugar aos livros. Sem um local adequado para as refeições, as classes têm que fazer as vezes de refeitório. Os funcionários ainda apontam a pequena dimensão dos pátios, agravada pela ausência de quadras esportivas: não há lugar para o jogo de futebol e isso acaba criando brigas pelo espaço entre meninos e meninas, relatam.

A “coexistência social, evitando-se assim uma indevida e indesejável estratificação”, sonhada por Lucio Costa, na verdade é um estorvo na relação entre moradores e escolas. “O pessoal aqui tem maior poder aquisitivo e dá preferência às escolas particulares. Nossos alunos são filhos de funcionários que trabalham nestas superquadras”, disse um funcionário.

or outro lado, o carro, que era a solução para a “cidade rodoviária”, tornou-se um problema, já que faltam estacionamentos. “Tínhamos a proposta de fazer garagens subterrâneas, o que não interferiria no tombamento. Porém, Ricardo Pires [administrador de Brasília, do PPS] está propondo limitar o volume de tráfego para cada estabelecimento”, afirma o arquiteto Carlos Magalhães, que chegou a Brasília em 1959 para fiscalizar a construção da escola-classe 308 Sul, do Cine Brasília e do Hospital Distrital.

O alto poder aquisitivo faz com que Brasília tenha a maior relação automóveis/habitantes do Brasil: um veículo para cada dois moradores. “Lucio Costa jamais poderia prever que carros seriam vendidos a prestações de 200 reais”, observa Magalhães, que também é ex-genro e uma espécie de representante oficial de Niemeyer na capital.

Para Nancy, o pior problema da SQS 107 é que, “embora a legislação não permita, alguns comerciantes fizeram puxadinhos e hoje temos bares e restaurantes ocupando o espaço público do comércio local. Os moradores perdem suas vagas para pessoas que não moram aqui, mas freqüentam esses estabelecimentos”, explica. Na lista da prefeita está também o desinteresse da comunidade pelos espaços comuns. Além disso, “desde que fizeram uma escola de segundo grau, com alunos adolescentes que nem moram por aqui, passamos a ter problemas como barulho e vandalismo”, revela. A cidade ideal, igual para todos - e que teria seu núcleo na superquadra -, teve que ceder espaço para a realidade.



Ficha Técnica

SQS 107 e 108
Início do projeto 1957
Conclusão da obra 1960
Área do terreno 125.000 m2
Arquitetura Oscar Niemeyer
Urbanismo Nauro Esteves
Construção Novacap
Fotos Leonardo Finotti

Texto de Nanci Corbioli| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 334
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