Andrade Morettin Arquitetos: Sede do Instituto Moreira Salles, São Paulo

Um marco cultural

Este é o relato de um projeto em andamento: a futura sede do Instituto Moreira Salles, na avenida Paulista, com inauguração prevista para o final de 2016. Consolidado o programa e incorporadas tecnologias construtivas de ponta, o projeto atinge a plenitude do conceito arquitetônico inicial

O corte longitudinal esclarece a distribuição do programa, consolidado no ano e meio de desenvolvimento do projeto. Nele, visualiza-se a permeabilidade da calçada da Paulista com o interior do edifício, assim como o seu prolongamento no percurso iniciado por meio de duas escadas rolantes - a primeira com lance de seis metros e a outra, de 11 -, espécie de túnel de luz que conduz ao térreo elevado.

Este, localizado no núcleo do prédio - desdobramento dos espaços públicos da Paulista -, é uma praça que abriga infinitas possibilidades de ocupação, “como se tirassem o vão livre do Masp e colocassem no meio do IMS, deixando a liberdade acontecer dentro do edifício”, menciona Marcelo Maia Rosa, arquiteto associado do escritório. A partir daí, tem-se acesso à área de exposições, nos três pavimentos acima, e à midiateca posicionada abaixo.

Sobre as mudanças arquitetônicas ocorridas ao longo do estudo preliminar, anteprojeto, projeto básico e projeto executivo, Vinícius Andrade, titular de Andrade Morettin Arquitetos, ressalta que “o escritório tem uma maneira de projetar mais estratégica do que definitiva”.

Na proposta vencedora do concurso, assim, estavam expostas as intenções de caracterização dos espaços, mas não se decidira como executá-las. Testes de materiais, encaixes, detalhamentos estruturais são, portanto, intrínsecos ao desenvolvimento de uma arquitetura aberta, que preserva fundamentalmente a sua estratégia central.

FACHADA TRANSLÚCIDA
A fachada foi desenvolvida com o acompanhamento da empresa norte-americana de consultoria Front. No concurso, o edifício seria envolto por uma pele dupla com fechamento em vidro do tipo u-glass, mas Marcelo Morettin relata que tanto o júri quanto o próprio escritório não estavam convencidos de tal solução: “A própria imagem do concurso é um pouco hesitante. A gente sabia o que queria, mas não tínhamos ideia de como construir. Hoje, nós desenvolvemos o sistema construtivo para obter o efeito desejado”.

O que os norteou foi a necessidade de mediação entre o edifício, que deverá abrigar uma coleção delicada, e a barulhenta multiplicidade de pessoas e veículos em fluxo pela avenida. Um volume opaco seria negativo dos pontos de vista simbólico e prático, enquanto a permeabilidade total inviabilizaria a necessária serenidade no interior da instituição.

A solução tende, então, ao equilíbrio, com a pele translúcida e homogênea da fachada permitindo observarem-se, de dentro, os contornos e movimentos da cidade e, por fora, espectros do funcionamento interno da edificação.

O conceito do projeto foi viabilizado pela transformação da pele dupla em uma única camada de vedação, com desempenho acústico e térmico compatível com o imaginado inicialmente. O vidro especificado é o duplo laminado insulado, com composição do tipo extra clear - o baixo índice de ferro reduz o tom esverdeado -, e mudaram significativamente as proporções da fachada.

Em corte, a cada altura dos pavimentos corresponderão dois painéis de vidro, um sobre o outro, colados entre si e fixados - a face superior de um e a inferior do outro - na estrutura metálica principal da fachada. Além disso, para minimizar ao máximo os caixilhos, montantes verticais de vidro e cabos de aço foram incorporados ao projeto.

O efeito da sutil translucidez se completa com a serigrafia, que também filtra a radiação solar e a transmissão térmica. Nesse aspecto, ressalta-se que a qualidade ambiental promovida pela fachada - somada ao sistema de resfriamento no piso e à ventilação natural - é fundamental para caracterizar a ambiência de térreo elevado da construção, um espaço de transição e estrategicamente posicionado entre as áreas externas e internas.

SISTEMA ESTRUTURAL
A estrutura também evoluiu. No concurso, ela era constituída por um core de concreto com um exoesqueleto que acompanhava a pele de vidro, mas, com o desenvolvimento, os pilares, as vigas e as treliças se tornaram elementos ocultos, incorporados às caixas que abrigam os programas. A lógica estrutural se tornou mais complexa, de modo a revelarem-se ao visitante somente dois pilares no térreo elevado.

Também as lajes dos pavimentos expositivos foram especialmente dimensionadas para viabilizar o suporte de obras de arte de 600 até, dependendo do andar, 1.000 kg/m². Tal capacidade é suficiente para sustentar enormes esculturas de, por exemplo, Richard Serra e Amilcar de Castro.

O projeto de luminotécnica de Peter Gasper tem importância tanto para a imagem externa do edifício, como um emissor de luz para a cidade durante a noite, quanto para os criteriosos padrões de iluminação nas salas de exposição.

Amparado pela tecnologia em notável desenvolvimento do led, Maia Rosa menciona três princípios básicos que os orientaram nas áreas para exibições: luz difusa e homogênea, garantida na totalidade dos ambientes por meio de grandes planos luminosos em tetos vedados com telas do tipo barrisol; sistema elétrico que prevê receber pontos focais esporádicos de acordo com a montagem e a obra exposta; e controle total da temperatura de cor, viabilizando até a reprodução da ambiência em que foi criado o objeto de arte.

Desse modo, a importante instituição cultural se reinventa em um edifício constituído por uma relativamente pequena variedade de materiais, agenciados de maneira sofisticada, que dão forma a um todo único harmônico.

CONSOLIDAÇÃO DO PROJETO
Seminários realizados com a equipe do IMS foram consolidando o programa ao longo do tempo, de modo a incorporar-se ao projeto o entendimento que os futuros usuários têm da edificação. “Validando os desenhos, eles se confrontaram com o que estavam construindo”, comenta Andrade, que destaca ainda a estratégia de construir-se o prédio de cima para baixo (PROJETOdesign 404).

De relevante nesse processo, pode-se mencionar o deslocamento do restaurante e da cozinha do térreo elevado para o rés do chão, o qual se torna mais interessante ao público. E, anteriormente posicionada junto ao setor de carga e descarga, a reserva técnica aproximou-se da área administrativa, nos andares superiores.

Vislumbrou-se, então, a possibilidade de reduzir os espaços de trabalho dos funcionários do IMS, enquanto na midiateca o auditório ganhou características próprias para funcionar também como cinema.

Nesse momento, com a construção já iniciada, o engenheiro José Luiz Canal, responsável pelo gerenciamento da obra, está preparando a execução de protótipos 1:1 e validando, com os arquitetos e o cliente, os chamados shop drawings - projetos de fabricação apresentados pelos fornecedores selecionados em concorrências internacionais. São desenhos que trazem para a arquitetura as contribuições dos próprios fabricantes. “Absorvemos o know-how da produção e, com esse aprendizado, o projeto melhora”, analisa Canal.

PROJETO ESTRUTURAL:

O aprimoramento do projeto estrutural ocorreu em direção à progressiva simplificação da estrutura metálica. Antes idealizada como uma malha de treliças distribuída homogeneamente nas fachadas longitudinais, seu cálculo foi sendo impactado - positivamente - pelas dificuldades inerentes ao projeto: há variações consideráveis de carregamentos máximos previstos para os andares expositivos - de 600 a 1.000 kg/m² - e as caixas do museu e midiateca têm distanciamentos diversos em relação às fachadas.

A estrutura, assim, foi moldada geometricamente aos programas de maior carregamento das caixas, permanecendo as treliças apenas nas suas faces de fechamento. Apesar de robusta, portanto, o que se revela da estrutura são poucos pilares metálicos e apenas dois de concreto.

CONFORTO AMBIENTAL:

O térreo elevado deverá funcionar como zona de transição térmica do edifício. Os recursos para sua climatização incluem o sistema de piso radiante, o de ventilação natural cruzada (já presente no partido do projeto apresentado no concurso e originária das janelas previstas para este pavimento na fachada frontal) e, opcionalmente, quando as janelas forem fechadas em dias de chuva, por exemplo, também o de insuflamento de ar resfriado pelo forro do térreo elevado.

Além disso, para melhorar a sensação térmica, o sistema de extração mecânica - localizado na altura da sala de exposição mais elevada - garantirá o contínuo movimento do ar.



Ficha Técnica

Instituto Moreira Salles
Local São Paulo, SP
Data do início do projeto 2011
Área do terreno 1.000 m2
Área construída 8.145 m2
Arquitetura Andrade Morettin Arquitetos
Museologia Álvaro Razuk
Fachadas Front
Projeto legal Urben Arquitetura
Luminotécnica Peter Gasper & Associados
Acústica Harmonia Acústica - Akkerman Holtz
Climatização GET
Estrutura Ycon
Fundações Moretti Engenharia Consultiva
Elétrica e hidráulica L&M
Impermeabilização Proassp
Segurança Fleury
Soluções gastronômicas Walderez Nogueira
Túnel de vento UFRGS/LAC
Consultoria e T.I. GOP
Coordenação de projeto e construção José Luiz Canal

Texto de Francesco Perrotta-Bosch| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 408
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora