Arquitetura hospitalar

Hospital é uma obra aberta

Para admitir expansões e alterações de uso que acompanhem a evolução da tecnologia médica, as edificações para a saúde requerem projetos flexíveis, avaliam arquitetos que atuam nessa área

"Hospital é uma obra aberta, para poder incorporar os vertiginosos progressos da medicina”, afirma o arquiteto Jarbas Karman, do escritório Hospitais Karman Arquitetura e Organização, que em 50 anos de atividades desenvolveu mais de 400 projetos hospitalares no Brasil e no exterior.

“Nas decisões, devem ser consideradas as situações que só enxergamos em futuro distante, de modo que a edificação tenha vida mais longa”, complementa o arquiteto João Carlos Bross, da Bross Consultoria e Arquitetura, empresa com 40 anos de mercado, fundador e primeiro presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício de Saúde (Abdeh).

Para esses profissionais, essa visão de futuro exigida depende da compreensão do arquiteto quanto às atividades que serão desenvolvidas no edifício, seja ele um pequeno posto de saúde, um consultório ou um hospital de grande porte. Bross diz que os arquitetos, para “não ficarem nas mãos de médicos”, precisam estar informados sobre o empreendimento. Senão, diz ele, “o resultado é a seqüência de salinhas geralmente sugerida pelo médico ou a colagem de plantas dos projetos publicados em revistas especializadas”.

O remédio contra a falta de informação está na participação do profissional desde o início dos trabalhos e no envolvimento em todas as fases do processo, completa Domingos Fiorentini, médico e arquiteto, sócio da Hospitais Karman. Para ele, não existe arquitetura hospitalar desvinculada da administração hospitalar. A classificação do empreendimento - geral ou especializado, horizontal ou vertical, público ou privado, com ou sem fins lucrativos - é o primeiro dado importante ao projeto.

PORTE
Um hospital se classifica em pequeno (até 50 leitos), médio (de 50 a 150), grande (de 150 a 400) e especial (acima de 400). O nível de complexidade do programa é diretamente proporcional ao tamanho e ao grau de sofisticação tecnológica do empreendimento.

Não há fórmulas para o dimensionamento da infra-estrutura. “O desafio está em racionalizar um trabalho com tantos fatores aleatórios, para coordenar os sistemas médico, arquitetônico e técnico”, diz Karman, que é presidente do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Pesquisas Hospitalares (IPH).

A quantidade de salas cirúrgicas varia conforme os horários programados para as operações. “Se elas se concentram em determinado período, será necessário maior número de salas”, pondera o arquiteto. Os parâmetros para a elaboração de projetos encontram-se na portaria 1 884/94 do Ministério da Saúde, que reúne as Normas para Projetos Físicos de Estabelecimentos Assistenciais de Saúde em vigor. Essa portaria deve ser substituída por novo conjunto de normas, tão logo sejam aprovados os atuais trabalhos de revisão.

EXPANSIBILIDADE
Segundo Fiorentini, o arquiteto deve verificar o terreno quanto a entorno, acústica, insolação, movimentação e facilidade de acesso, além de topografia e geologia, para avaliar a viabilidade de implantar determinado tipo de hospital naquele local. Apenas esses cuidados não são suficientes para que o empreendimento seja capaz de se adaptar a novas condições tecnológicas e de demanda, ele alerta. A dimensão do terreno é um aspecto decisivo: “Quanto maior, melhor para englobar as etapas de expansão previstas pelo plano diretor do hospital”, diz. É fundamental para o bom desenvolvimento do programa físico que o arquiteto conheça o teor desse documento que define os parâmetros de construção e crescimento, explica Fiorentini.

Essa questão merece olhar bastante atento, porque alguns setores crescem mais. “Não é racional demolir para expandir”, diz Karman. Para ele, é responsabilidade do arquiteto considerar as áreas de maior crescimento e deixá-las preparadas para isso, enquanto os serviços de baixa flexibilidade - salas de raio X, por exemplo - devem ser implantados em seu local definitivo.

É preciso que todo o conjunto acompanhe a expansibilidade e a flexibilidade da planta para se adaptar a diferentes condições de uso. Modulação e previsão de ampliação de instalações de água, esgoto, ar-condicionado, luz e fluidos mecânicos (oxigênio, vácuo, ar comprimido etc.), com facilidade de acesso para a abertura desses novos pontos, são características básicas em qualquer tipo de edifício para a saúde.

Para que tudo funcione conforme o esperado, é fundamental trabalhar com equipes qualificadas e compatibilizar os diferentes projetos, como os hidrossanitários e de rede lógica, por exemplo.

METODOLOGIA DE TRABALHO 
O projeto é conseqüência direta do tipo de atenção à saúde que se quer oferecer - ou seja, o arquiteto deve ter informações aprofundadas sobre as necessidades estruturais e tecnológicas próprias do tipo de assistência médica que se pretende, explica Bross. “Não é possível iniciar a elaboração do programa físico sem dispor desse conhecimento, obtido pela interação com os interlocutores do projeto, como dirigentes hospitalares, médicos, enfermeiros, nutricionistas e os demais profissionais envolvidos.”

Bross elaborou um roteiro que ajuda a ordenar os passos na hora de iniciar um projeto (leia o quadro). O primeiro item é saber qual é a atividade-fim do empreendimento, porque o programa de um hospital-geral não é igual ao de uma maternidade, por exemplo.

Em seguida, é preciso conhecer cada trabalho que será desenvolvido na edificação, desde o setor de serviços, como cozinha e lavanderia, passando por ambulatório e pronto-socorro, até as áreas técnicas, como berçários, salas de cirurgia ou unidades de tratamento intensivo (UTI). A etapa seguinte é a esquematização, que pode usar um simples diagrama de círculos como ferramenta para encadear as atividades qualitativa e quantitativamente, prevendo sempre serviços proporcionais ao número de leitos.

PESQUISA TECNOLÓGICA
Quando tudo estiver encadeado de forma adequada, parte-se para a pesquisa da tecnologia médica necessária em termos de imagens, procedimentos clínicos e invasivos. Segundo Bross, a partir desse conjunto de informações estabelece-se o programa operacional que leva ao programa físico. “Só então é possível calcular os custos de construção e de mobiliário, que devem ser coordenados pelo arquiteto. A partir daí se tem a viabilidade econômico-financeira do empreendimento”, ele ensina.

A circulação é outro ponto fundamental. Para Karman, os espaços devem ser hierarquizados, com fluxos segregados para público, equipes e serviços, de modo a agilizar o trabalho dos funcionários e evitar riscos de infecção. O posto de atendimento de cada andar, exemplifica ele, deve ficar o mais próximo possível dos pacientes que requerem maiores cuidados: “Quanto menor o percurso, mais rápido o atendimento”.

CONFORTO AMBIENTAL E HUMANIZAÇÃO
O ar-condicionado é equipamento essencial, por aspectos de conforto ambiental, técnicos ou terapêuticos - por exemplo, uma unidade de tratamento de queimados requer temperatura constante de 32o C e 95% de umidade relativa do ar -, embora seja também o responsável por muitos casos de infecção hospitalar.

Por isso, projeto e manutenção devem buscar a melhoria da qualidade do ar para reduzir a incidência de contaminação, pondera Karman, que também é presidente da Associação Brasileira de Ventilação e Ar Condicionado (Abrava). “A Abrava e a ABNTformaram uma comissão única para elaborar norma sobre a qualidade do ar, o que ajudará a resolver esse problema”, informa.

Quanto à humanização, Bross ressalta que os hospitais são vistos como locais de doença, e não de saúde. Esse fator já é suficiente para desencadear um quadro de estresse que agrava as condições físicas e psicossomáticas do paciente. Daí a importância de um projeto humanizado, que alivie a angústia do doente, diz Fiorentini. “O objetivo deve ser o de criar espaços saudáveis, que tragam sensação de bem-estar e proporcionem boa relação entre o ser humano e o meio”, completa. Essas metas podem ser alcançadas com a ajuda de projeto paisagístico, com boa iluminação ou pela psicodinâmica da cor, considerando até mesmo diferenças de sexo e idade.

Em relação aos materiais, o arquiteto Augusto Guelli, diretor técnico da Bross, destaca que há diferenças entre as áreas técnicas e as não-técnicas, como setores de marcação de consulta, salas de espera, café, restaurante ou lobby. “Nesses espaços existe total liberdade para trabalhar com os mais diferentes materiais, devendo apenas prevalecer o bom senso”, avalia. “Já nas áreas técnicas, os acabamentos devem corresponder às necessidades de assepsia, humanização e resistência a alto tráfego, a produtos de limpeza e à abrasão provocada por macas ou cadeiras de rodas, por exemplo”.

Segundo Guelli, os pisos vinílicos em manta, aplicados com solda quente, que evitam frestas ou reentrâncias e garantem impermeabilidade, são boa opção para os setores técnicos. Para cozinhas, banheiros e demais áreas molhadas, ele sugere pisos com cerâmicas antiderrapantes, que ajudam a prevenir acidentes e são de fácil limpeza.

Nas paredes, ele recomenda pinturas de alta performance ou laminados melamínicos. Guelli lembra ainda que os rodapés arredondados são obrigatórios apenas nas áreas limpas, como salas de cirurgia, mas podem ser usados de forma generalizada; quanto aos cantos curvos, eles são necessários apenas nas áreas que exigem assepsia mais rigorosa

Texto de Nanci Corbioli| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 248
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora